Euler de França Belém
Euler de França Belém

Trotski teve casos amorosos com a pintora Frida Kahlo e com uma prima de Winston Churchill

Enquanto escrevia sobre a União Soviética, notadamente a respeito de Stálin, o líder revolucionário mantinha casos amorosos com mulheres mais jovens

Natalia Sedova, Trotski e Frida Kahlo: um triângulo amoroso que não durou mais tempo porque a pintora desistiu do “Velho”

Liev Davidovich Bronstein — Trotski é o codinome que virou nome — era um homem bonito, charmoso e magnético. As mulheres caíam aos seus pés. A primeira foi Alexandra Sokolovskaia, que debatia de igual para igual e, por certo, incomodava-o com suas posições firmes sobre quaisquer assuntos. Como a maioria dos homens de seu tempo, “ele não gostava de dar razão às mulheres”, afirma o historiador britânico Robert Service, na excelente biografia “Trotski” (Record, 768 páginas, tradução de Vera Ribeiro).

Larisa Reissner, autêntica femme fatale e uma das bolcheviques mais deslumbrantes, era casada com Fiodor Raskolnikov (nome que lembra tanto Dostoiévski quanto seu personagem). Moderna e liberal, era uma sedutora de homens. Depois de mesmerizar Karl Radek, convenceu-o a levar uma mensagem a Trotski: “Queria ter um filho dele”. Robert Service conta que “sua ideia era” gerar “uma criança que ‘combinasse harmoniosamente a beleza e o talento da mãe (Reissner) com a genialidade do pai (Trotski)’”. Ante um Radek possivelmente constrangido, Trotski respondeu-lhe: “Acalme-se, Karl. Diga à sua amada que eu me recuso a me tornar pai do filho dela”.

Há a suspeita de que Trotski teve um caso com a escultora inglesa Clare Sheridan, prima do primeiro-ministro Winston Churchill. Ela esculpiu um busto do soviético e ficou impressionada com seu “magnetismo pessoal”. “Quando ele [Trotski] fala, seu rosto se ilumina e os olhos cintilam”, escreveu a artista plástica.

Robert Service frisa que, embora não as desprezasse, “as mulheres nunca foram a distração principal de Trotski”. Ele era, acima de tudo, um revolucionário, decisivo para a consecução da Revolução Russa de 1917 e para a sua consolidação nos primeiros anos, quando agiu com extrema brutalidade — quiçá inspirando Stálin, mais tarde —, e um intelectual de primeira linha.

Natalia Sedova, a despeito das traições, foi mesmo a mulher da vida de Trotski. Eles formavam um casal pleno, de rara cumplicidade. O livro contém uma carta pornô-sexual — parece texto do ator Alexandre Frota, mas é típico de casais que se dão bem sexualmente — de Trotski para Natalia (está na página 575). Exibe todo o seu desejo pela mulher.

O professor de Oxford assinala que “Natalia foi a âncora de Trotski numa vida de tempestuosa insegurança e se esforçou por defendê-lo mesmo quando tinha dúvidas sobre sua visão”. Ao contrário do marido, não acreditava que a União Soviética fosse o “Estado dos trabalhadores” e que o problema era apenas Stálin. A questão-chave era que o Estado totalitário iria sobreviver a Stálin, como sobreviveu.

Apesar de seu preparo intelectual, Natalia Sedova disse a uma secretária de Trotski: “Esse é o trabalho dele, a vida dele. A minha vida é ajudá-lo a fazer esse trabalho — é criar condições para que ele não tenha a menor dificuldade nisso, e é viver, conviver com isso, e me comprazer com o trabalho dele, com suas ideias”. Robert Service anota que “o homem era o planeta, a mulher, seu satélite. Para ambos, a causa revolucionária era o sol. (…) Natalia era a alma gêmea de Trotski”. Eles nunca se casaram em cartório, mas viveram juntos por mais de 30 anos — até o assassinato dele por Ramón Mercader, em 1940, no México.

Trotski tinha o hábito de reclamar de doenças, existentes ou imaginárias, mas sentia orgulho “de sua aparência máscula”. Aos 60 anos, era um homem charmoso e atraía as mulheres fortemente. Sobre Natalia Sedova escreveu: “Nos momentos de tragédia, sempre me impressiono com as reservas da natureza dela”.

Até 1937, pelo menos, Trotski não demonstrava nenhum assanhamento com as mulheres que o rodeavam. Mas, com pouco mais de 30 anos, Frida Kahlo era uma mulher sedutora. “Era um furacão de ideias impulsivas e extravagantes. Diferia muito de qualquer mulher que Trotski houvesse conhecido, e ele se deixou enfeitiçar”, conta Robert Service. Tornaram-se amantes. “Ele e Frida planejavam seus encontros com cochichos ou por bilhetes que Trotski inseria entre as páginas de livros que lhe entregava.” Logo todos ficaram sabendo do caso, menos, quem sabe, Diego Rivera, o homem que ajudara a convencer o presidente do México, Lazaro Cárdenas, a lhe dar asilo.

Trotski ficava irritado com aqueles que o alertavam sobre o caso. Natalia Sedova chamou-o para uma conversa franca. O caso terminou menos pela vontade do soviético e mais porque Frida Kahlo, considerando-o velho, não o quis mais. “Trotski escreveu-lhe uma carta longa e apaixonada, explicando seus sentimentos”, mas a celebrada pintora não demonstrou nenhum interesse na retomada do romance.

Natalia Sedova e Trotski chegaram a se separar brevemente, mas ele não conseguia viver sem ela. Ao escrever-lhe uma carta de cunho sexual, ele “queria mostrar-lhe que ela era novamente o único objeto do seu desejo”. As conotações sexuais da missiva, intensa, indicam, frisa Robert Service, que “nenhum dos dois havia perdido o gosto pela prática sexual”.
Mesmo tendo sido perdoado por Natalia Sedova, Trotski paquerou outra mulher. Mas a jovem mexicana “ignorou suas investidas”.

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