Euler de França Belém
Euler de França Belém

Tom Wolfe, mestre do Novo Jornalismo, morre aos 87 anos

Autor de “Radical Chique” e do romance “Fogueira das Vaidades”, era um escritor de qualidade e excelente jornalista

O escritor Tom Wolfe, um dos mestres do Novo Jornalismo ou do jornalismo literário — ao lado de Lillian Ross, Truman Capote, Norman Mailer, Janet Malcolm, Joseph Mitchell, John Hersey e Gay Talese —, morreu na segunda-feira, aos 87 anos. O prosador estava internado num hospital de Nova York.

Tom Wolfe é autor de “Radical Chique e o Novo Jornalismo”, “Fogueira das Vaidades”, “Emboscada no Forte Bragg”, “O Reino da Fala”, “Eu Sou Charlotte Simmons”, “Um Homem Por Inteiro”, “Sangue nas Veias” e “A Palavra Pintada”. Nenhum de seus livros teve o impacto de “A Sangue Frio”, de Truman Capote. Mas são radiografias, tanto os ensaios quanto os romances, de um Estados Unidos tão profundo quanto, às vezes, superficial (pensa-se que alma de um povo está no profundo quando, às vezes, está na superfície).

Pode-se sugerir que Tom Wolfe era um escritor nato ou um jornalista que ousou escrever literatura?. De fato, sua obra imaginativa deve muito ao jornalismo literário do qual foi um dos inventores, ou epígonos mais bem-sucedidos. Não inventou o radical chic, mas o descreveu com rara perspicácia. Não inventou os yuppies do mercado financeiro, mas traçou o perfil deles  à perfeição no romance “A Fogueira das Vaidades”.

Talvez por ter uma pegada antropológica, com escasso cinismo — cinismo é típico de jornalistas, e menos de escritores —, Tom Wolfe mostrou o mundo dos ricos e dos emergentes sem preconceitos, o que contribuiu para seu entendimento. Não há entusiasmo pelo que descreve, mas também não há menoscabo.

A literatura e os ensaios de Tom Wolfe — “disfarçados” de jornalismo literário — contêm um exercício de mimetização quase sempre raro no trabalho de jornalistas, que, em regra, é menos interpretativo e mais condenatório daquilo do qual discorda. O americano intranquilo não via os ricos com meros predadores, mas também não os descreve como santos nem modelos. Exibe-os como são — seres de carne e ossos, em busca de alguma coisa, no caso dinheiro e, quiçá, fama, como quaisquer outros indivíduos, por certo.

A prosa precisa, elegante mas não empolada de Tom Wolfe foi adaptada para o cinema: “A Fogueira das Vaidades”, de Brian de Palma e com Tom Hanks, Bruce Willis e Melanie Griffith, e “Os Eleitos — Onde o Futuro Começa” (1983), com Sam Shepard e Dennis Quaid, ganhou quatro Oscars.

Como Norman Mailer e tantos outros, é provável que Tom Wolfe tenha tentado escrever o Grande Romance Americano — que talvez tenha sido escritor por Nathaniel Hawthorne, Herman Melville, Henry James, Scott Fitzgerald, William Faulkner, Saul Bellow, John Updike, Philip Roth e Joyce Carol Oates — juntos ou separadamente. Hemingway escreveu o Grande Conto Americano. Os livros de Tom Wolfe ficam um pouco abaixo da prosa dos escritores listados. Um pouco abaixo é um grande elogio — falando nisso. Talvez possa ser qualificado como um Updike menor, mas nada ruim.

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