Euler de França Belém
Euler de França Belém

Tempestade do Supremo contra Janot é mais terrível do que a “ação” do quase-assassino

Jornais levaram Janot e Mendes para as páginas policiais, mas não vão demorar a perceber que são personagens mais de comédia do que de tragédia. Resta rir

O ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, personagem digno tanto de Sófocles quanto de Samuel Beckett — e não só pelo Janot-Godot —, decidiu, de repente, revelar que premeditou o assassinato do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. O procurador aposentado relata a história no livro “Nada Menos Que Tudo: Bastidores da Operação Que Colocou o Sistema Político em Xeque” (Planeta do Brasil, 256 páginas), escrito com o apoio dos jornalistas Guilherme Evelin e Jailton de Carvalho. Na obra, se há a narrativa dos fatos, não há menção ao santo-demônio. Quiçá para promover o livro, ou como uma espécie de vingança-tiro pela culatra, Janot concedeu entrevistas nas quais relata que quase matou Mendes.

Rodrigo Janot (camisa rosa ou salmão) e Gilmar Mendes (à direita, com taça na mão): numa viagem à Alemanha, quando eram mui amigos | Foto: Agência O Globo

A imprensa aproveitou a onda — afinal, o presidente Jair Messias Bolsonaro não havia dito outra pérola explosiva — e deu destaque ao fato-quase-fato: afinal, Janot pensou em matar, mas não matou, Mendes. A intenção perdeu para o gesto, que não houve, mas quase-houve. O estardalhaço foi merecido? Ora, como não. Afinal, Janot, quando pensou no assassinato — chegou armado à sede do Supremo —, era o procurador-geral da República, uma alta autoridade, e Mendes era e é ministro do STF. Trata-se de um dos magistrados mais qualificados e polêmicos do país. Não dá para sonegar as informações aos leitores.

Entretanto, se o fato foi supremo, ou quase, a reação do Supremo, por intermédio do ministro Alexandre de Moraes, só pode ser tipificada de excessiva. O STF mandou a Polícia Federal entrar em dois endereços de Janot para apreender a pistola — a que quase foi usada para abater um dos próceres da República — e recolher outras coisas, não se sabe exatamente quais. Ora, se podia ter matado antes, e não o fez — pela mão in-visível do bom senso, dirá o ex-procurador —, certamente Janot não quer mais matar Mendes. Pode até querer o ministro morto — o ser humano tanto odeia quanto ama —, mas possivelmente não vai mais tentar enviá-lo para (o) Hades. Se os fatos são estes, quer dizer, Janot mostrou-se ineficaz como pistoleiro, por que, no lugar de pedir formalmente que entregasse a arma, o Supremo mandou a PF buscá-la? Talvez tenha sido tão-somente um ato de força e, na pior das hipóteses, uma vingança. Não há notícia de que o STF tenha feito o mesmo em qualquer outro caso. Pelo menos não com tanta pressa e rigor.

Gilmar Mendes e Rodrigo Janot: próceres da República que se tornaram inimigos praticamente mortais | Fotos: Reproduções

Não se está dizendo que Janot agiu certo — aliás, só agiu certo quando desistiu de matar o “inimigo” —, e sim que a entrada em sua casa, para tomar-lhe a pistola, era desnecessária. Estavam em busca de outras coisas? Não se sabe, pois a Federal é uma Polícia das mais corretas, e seguidora estrita das leis.

Logo depois da entrada da PF na casa de Janot, de onde saiu com a pistola quase-trágica, o subprocurador da República pediu a cassação da aposentadoria de Janot. Procuradores são formados em Direito, portanto sabem que não há motivo para se “tomar” a aposentadoria de Janot. Se sabem, por que ajudam os jornais a criarem manchetes? Exatamente para isto: criarem manchetes, como, por sinal, Janot fazia muito bem. Critica-se a violência do povão nas redes sociais — Maximilien François Marie Isidore de Robespierre, guilhotinado aos 36 anos, ficaria horrorizado com os “filhos” atuais do médico Joseph-Ignace Guillotin —, mas autoridades importantes da República, como Janot e Mendes, dão o “exemplo”, isto é, um péssimo exemplo.

Jornais e revistas levaram Janot e Mendes para as páginas policiais — as de política também se tornaram policiais —, mas não vão demorar a perceber que são personagens mais de comédia do que de tragédia. Resta, ao brasileiro, rir. Porque, sugeriam os gregos, quando se ri do trágico mostra-se que se é sadio. Quem ri apenas do cômico, que é fácil, aproxima-se das hienas. Das hienas, às vezes poderosas mas sem comedimento, do Planalto.

Música cantada por Clara Nunes para homenagear a República planaltiana

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