Euler de França Belém
Euler de França Belém

Subestimados, soviéticos e judeus mataram nazistas e fugiram do campo de extermínio de Sobibór

O soviético Alexander Pechersky e o polonês Stanislaw Szmajzner (que morou em Goiás): participaram da revolta do campo de extermínio de Sobibór, na Polônia, em 1943

O soviético Alexander Pechersky e o polonês Stanislaw Szmajzner (que morou em Goiás): participaram da revolta do campo de extermínio de Sobibór, na Polônia, em 1943

“Eu nunca vi ninguém em Sobibór chorar. Nunca. Em dezessete meses, Nunca.”   – Stanislaw Szmajzner, sobrevivente do campo de extermínio

Fala-se num judeu passivo, que foi levado sem reação para as câmaras de gás dos campos de extermínio de Auschwitz, Treblinka, Belzec, Sobibór, Chelmno e Majdanek. A maioria, de fato, não reagiu. Pos­sivelmente, estavam paralisados pelo medo e pela extrema violência da estrutura criada pelo nazismo. Mas jornalistas e historiadores têm publicado livros sugerindo que nos e fora dos campos e dos guetos houve certa reação. No livro “Fuga de Sobibór — O Relato Verídico da Maior Revolta de Presos em Campo de Extermínio Nazista” (8Inverso, 365 páginas, tradução de Felipe Cittolin Abal), o pesquisador e escritor Richard Rashke diz que “a maior fuga de prisioneiros da Segunda Guerra Mundial” aconteceu em Sobibór, na Polônia, em 14 de outubro de 1943.

No campo de Sobibór, pelo menos 250 mil judeus foram assassinados pelos nazistas de Adolf Hitler e do executor da Solução Final, Heinrich Himmler. O soviético Alexander (Sacha) Pechersky foi o colíder da fuga de Sobibór. Stanislaw (Shlomo) Szmajzner, “um planejador-chave na fuga, viveu em Sobibór praticamente do dia da abertura do campo até o dia da fuga”. Szmajzner, que escreveu o livro “Inferno em Sobibór — A Tragédia de um Adolescente Ju­deu” (Edições Bloch, 305 páginas), morou em Goiânia, onde foi entrevistado por Richard Rashke e pela jornalista e historiadora Gitta Sereny. O fundador da capital goiana, Pedro Ludovico Teixeira, é o autor do prefácio. Thomas (Toivi) Blatt, um dos líderes da revolta, também foi entrevistado por Richard Rashke. Dois livros mostram que judeus se organizaram para, mesmo com estrutura ínfima, enfrentar os alemães: “Os Irmãos Bielski — A História Real de Três Homens Que Desafiaram os Nazistas, Salvaram 1200 Judeus e Construíram uma Aldeia na Flo­resta” (Companhia das Letras, 313 páginas, tradução de Marcos Padilha), do jornalista Peter Duffy, e “Um Ato de Liberdade — Os Guerrilheiros de Bielski: A História do Maior Resgate Armado de Judeus Durante a Segunda Guerra Mundial” (Record, 402 páginas, tradução de Dinah Azevedo), da socióloga Nechama Tec. O segundo livro serviu de base para um filme mediano com o ator Daniel “James Bond” Craig.

No livro “Auschwitz — Os Nazis e a ‘Solução Final’” (Dom Quixote, 425 páginas, tradução de Clara Fonseca e Lídia Geer), editado em 2005 em Portugal, o historiador e documentarista Laurence Rees, publica um resumo sobre a revolta de Sobibór. Treblinka, Belzec e Sobibór eram os campos de extermínio da Operação Rein­hard (o nome era uma homenagem a Reinhard Heydrich, o braço direito de Heinrich Himmler, que havia sido assassinado). Neles, dos mais letais, foram assassinados cerca de 2 milhões de judeus. Só em Tre­blinka foram mortos 900 mil, dada sua dimensão, em comparação com o campo gigante de Ausch­witz, talvez possa ser considerado, como sugerem os historiadores britânicos Norman Davies e Laurence Rees, o mais terrível dos campos de extermínio.

Rees relata que “as operações de morticínio em Sobibór começaram em maio de 1942 e, por volta de setembro de 1943, cerca de 250 mil judeus já tinha sido assassinados nas câmaras de gás”.
Toivi Blatt, judeu da cidade de Izbica, na Polônia, foi agarrado pelos nazistas em 1943. Pediu ajuda para os amigos, como Janek, mas os poloneses deram-lhe as costas. “Adeusinho, Toivi. Hei-de ver-te numa prateleira de uma qualquer loja que venda sabão”, disse-lhe Janek, que o delatara.

Toivi era um garoto de 15 anos. Em Sobibór, sua mãe foi levada imediatamente para a câmara de gás. “Nos campos abrangidos pela Operação Reinhard, como Sobibór, não havia nenhum processo de seleção à chegada. Eram todos enviados para as câmaras de gás”, registra Rees. Mas alguns eram escolhidos para trabalhar nos campos e Toivi estava nesta lista. Quando viu o pai na fila dos que estavam sendo levados para a câmara de gás, Toivi gritou: “Ei, ele é um curtidor!” Mas os nazistas “precisavam de carpinteiros, talvez precisassem de alfaiates, mas não precisavam dele”.Mesmo depois de perder a mãe, o pai e o irmão, Toivi não chorou.

No campo, uma das tarefas de Toivi era cortar os cabelos das mulheres que chegavam. Ele só queria sobreviver.

Sobibór mudou com a chegada de prisioneiros do Exército Vermelho, como Arkadiy Vajs­papir, em setembro de 1943. O tenente Alexander Pechersky, do Exército Vermelho, começou a organizar a resistência clandestina. As revoltas anteriores haviam fracassado. Pechersky defendeu a tese, que foi aceita, de que só podiam escapar por intermédio de uma resistência armada.

Os judeus e os prisioneiros soviéticos aproveitaram-se da licença de vários alemães para desencadear a revolta. Eles conseguiram armas, mataram alguns integrantes da SS e escaparam.“Cerca de metade dos 600 prisioneiros do campo de Sobibór conseguiu escapar”, escreve Rees. Toivi contou ao pesquisador que a revolta foi bem-sucedida porque os nazistas não acreditavam na capacidade de reação dos prisioneiros. “Eles [os alemães] não consideravam que fôssemos capazes de levar a cabo o que quer que fosse. Consideravam-nos como escória. Não esperavam que os judeus estivessem [preparados para] morrer, e isto por terem visto milhares que iam morrer por nada.”

Vários dos 300 prisioneiros que escaparam foram capturados pelos nazistas. Pechersky e alguns aliados se aproximaram de um movimento simpatizante do Exército Vermelho. Himmler, preocupado com a revolta de Sobibór, mandou executar judeus que estavam nos campos de concentração de Trawniki, Po­niatowa e Majdanek. Foram mortas 43 mil pessoas. “Num só dia, fuzilaram 17 mil judeus em Majdanek”, escreve Rees.

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