Steven Pinker, John Gray e a busca do lendário candidato ficha limpa

Para poupar o tempo de quem pretende fazer proselitismo, anuncio o ideal que busco: quero água nos hidrantes. A prosaica e incolor água chegando a hidrantes

Marcelo Franco

A “Veja” desta semana trouxe uma crítica contraposta de dois lançamentos, “O Novo Iluminismo — Em Defesa da Razão, da Ciência e do Humanismo” (Companhia das Letras, 688 páginas, tradução de Laura Teixeira Motta e Pedro Maia Soares), de Steven Pinker, e “A Alma da Marionete — Um Breve Ensaio Sobre a Liberdade Humana” (Record, 126 páginas, tradução de Clóvis Marques), de John Gray. A análise é um tanto ligeira, mas a oposição entre os livros é necessária: Gray tem sido um dos grandes críticos de Pinker, que é um camarada cheio de otimismo no progresso humano — “Calma lá, Pangloss” é o que Gray vive a dizer para Pinker em artigos demolidores.

Por temperamento, sou da turma de Gray. Pinker, com sua fé (opa!) inabalável no Iluminismo, conta uma histórica simplificada para provar que seguimos firmes em nossa inexorável vereda até o melhor dos mundos. Sei não, sei não. Tudo o que contraria sua certeza no progresso seria fruto de atitudes anti-iluministas, o que Gray, com mais razão, contesta. Pinker, aliás, não vê divisões no Iluminismo, como, por exemplo, bem fizeram Jonathan Israel e Gertrude Himmelfarb. O Cristianismo e sua lição de dignidade intrínseca do ser humano devem ser coisa de malucos para Pinker — será que ele leu Nick Spencer?

E daí? Daí que o mundo está cheio de análises profundíssimas sobre a natureza humana e mesmo assim tem um bocado de gente me pedindo votos inbox, não para amigos, coisa que eu até aceitaria, mas para seus candidatos a presidente. O espantoso é que todos parecem mesmo crer nessa “última chance”, no “candidato ficha-limpa”, na solução imediata dos nossos problemas se essa única pessoinha — falha porque humana — tiver as chaves do poder.

Há Pinker, há Gray — e há o camarada que suspendeu as sinapses para acreditar que seu candidato (ou sua candidata) nos guiará à Terra Prometida, logo ali na esquina. Tal como Gray, digo: peralá, Pangloss, que nem mesmo o carteiro encontrou o endereço.

Portanto, para poupar o tempo de quem pretende fazer proselitismo comigo, anuncio o ideal que busco para este nosso Florão da América: quero água nos hidrantes. A prosaica, insípida, inodora e incolor água chegando a hidrantes. Ademã.

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