Euler de França Belém
Euler de França Belém

Show prova que voz de Ney Matogrosso continua bela e segura

Buscamos nos shows do cantor aquela voz explosiva e, ao mesmo tempo, delicada e, claro, sua performance

Na terça-feira, 31, no shopping Flamboyant, vi o espetáculo do cantor Ney Matogrosso. Nas proximidades, ouvi comentários sobre sua vitalidade física, de fato impressionante para quem tem 76 anos. Mas o que chama atenção mesmo é sua voz de soprano (ou quase), que continua precisa e bela. A voz é cortante, de uma força explosiva e energética, mas que sabe ser suave e delicada. Ney Matogrosso é praticamente um cantor lírico que optou pela diversidade da música popular.

“Freguês da Meia-Noite”, a ótima música de Criolo, é muito bem interpretada (inclusive com certo “tremor” na voz) por Ney Matogrosso e sua banda. O que diferencia Ney Matogrosso de outros artistas é que não se trata de mero cantor, e sim de intérprete vigoroso. Ele não repete interpretações de outros cantores — sempre deixa sua marca.

Fico a pensar: por que vamos aos shows? A impressão que tenho, e talvez seja também o meu caso — sou humano como qualquer outra pessoa, inclusive nos defeitos e idiossincrasias —, é que assistimos espetáculos mais para ver o artista e sua performance (Ney Matogrosso é elétrico) do que para ouvir as músicas. Não dá para apreciar direito as músicas em espetáculos com a presença de muita gente (há sempre algum movimento ou fala para nos distrair). Quem quer ouvir bem, percebendo nuances e colhendo informações para se ter uma compreensão mais ampla do trabalho do artista, tem de optar pelos discos em sua residência. Em shows, com a presença de várias pessoas, que se movimentam o tempo inteiro — inclusive fotografando e filmando com celulares, a nova moda —, não dá para perceber nuances e sutilezas. Ainda assim, admito, é muito bom ouvir o artista pessoalmente, porque, além de vê-lo em ação, pode-se perceber, aqui e ali, o artista improvisando, mutando seu trabalho.

Um repórter conta que, durante o espetáculo, Ney Matogrosso, supostamente por não ter decorado todas as letras ou porque a memória não é mais tão boa, o que é normal, fica a ler letras gigantes que aparecem em telas no palco, que o público não tem como ver. Não vi, claro, pois estava longe. O que posso atestar é que o cantor continua com uma voz linda — verdadeiro instrumento musical — e quase perfeita.

(Lembro-me de um espetáculo de Cazuza em Goiânia, salvo engano no ginásio Rio Vermelho, na década de 1980. De repente, o cantor disse, com todas as letras: “Minha boca é a maior vagina do Rio de Janeiro”. Por sinal, Ney Matogrosso e Cazuza, bonitos e sensuais, foram namorados.)

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