Euler de França Belém
Euler de França Belém

Seymour M. Hersh, Pulitzer de 1970, diz que governo Obama mentiu sobre morte de Bin Laden

Autor do livro “Cadeia de Comando” afirma que o criador da Al-Qaeda estava inválido e que agentes do Paquistão, interessados no prêmio de 25 milhões de dólares, facilitaram o acesso à sua casa

A história do assassinato de Osama bin Laden, o criador da Al-Qaeda, apesar dos livros escritos por jornalistas, ainda é uma história oficial. Não se tem informações precisas, sobretudo nuançadas, sobre o que de fato aconteceu. É isto que permite a contestação de Seymour M. Hersh [foto acima], Prêmio Pulitzer de 1970 e jornalista respeitado — não é controlável pelos múltiplos tentáculos do Estado —, publicada na revista “London Review of Book”. A fonte de Hersh é anônima — seria “um aposentado oficial da inteligência”, mas o repórter garantiu que ouviu outras pessoas —, o que não desqualifica, por si só, o texto. Segundo o jornalista, Bin Laden “já era um prisioneiro ‘inválido’ das forças paquistanesas desde 2006, tendo sido mantido refém para forçar a interrupção das atividades dos extremistas no Paquistão e no Afeganistão” (usa-se texto do UOL).

Interessados em parte da premiação de 25 mil dólares, oferecida pelo governo americano, agentes paquistaneses teriam relatado o paradeiro de Bin Laden, em Abbottabad, no Paquistão, onde foi localizado e morto, em 2011, por tropas especializadas dos Estados Unidos. Americanos e paquistaneses teriam encoberto a história da parceria. A energia da casa do terrorista teria sido cortada pelos paquistaneses.

O assassinato de Bin Laden, segundo Hersh, teria sido “absolutamente premeditado”. Os militares americanos tinham ordens expressas para matá-lo. “A verdade é que Bin Laden era um inválido”, disse o repórter, reproduzindo a versão de sua fonte. Ele não estaria mais no comando da Al-Qaeda. “A Casa Branca teve de dar a impressão de que Bin Laden ainda era importante operacionalmente. Senão, por que motivo matá-lo?”, anota Hersh.

Contestação da Casa Branca

A repercussão internacional levou a Casa Branca, por intermédio de seu porta-voz,  Ned Price, a reagir rapidamente. “Há muitas incorreções e afirmações sem fundamento nessa história para esclarecer cada uma. A noção de que a operação que matou Bin Laden [foto acima] não foi uma missão unilateral norte-americana é falsa. Como dissemos na época, o conhecimento dessa operação foi restrito a um pequeno grupo de oficiais veteranos dos Estados Unidos. O presidente logo decidiu não informar nenhum outro governo, incluindo o do Paquistão, que não foi avisado até depois da operação. Éramos e continuamos a ser parceiros do Paquistão no nosso esforço conjunto para destruir a Al-Qaeda, mas aquela foi uma operação americana do começo ao fim”, contra-atacou Ned Price.

O UOL diz que “Hersh é alvo de críticas pelo uso de fontes anônimas” em suas reportagens. Como o governo americano joga pesado contra funcionários públicos que passam informações “secretas” a jornalistas, é muito difícil, em alguns casos impossível, não usar fontes anônimas. O que se deve questionar é se as informações divulgadas por Hersh, durante sua longa carreira, são verdadeiras ou falsas. Um repórter, mesmo quando dos mais qualificados, às vezes erra; porém, se erra sempre, o caso é grave. É o caso de Hersh? Não é. Sua média de acertos é muito superior. “Cadeia de Comando — A Guerra de Bush do 11 de Setembro às Torturas de Abu Ghraib” (Ediouro, 400 páginas) é um dos livros mais celebrados de Hersh.

Autor do livro “Procurado — Do 11 de Setembro ao Ataque a Abbottabad, os Dez Anos de Caça a Osama bin Laden” (Manole, 384 páginas) e analista de segurança da CNN, o jornalista Peter Bergen disse que a reportagem é “sem sentido, desmentida por várias testemunhas, fatos inconvenientes e simples senso comum”. O general paquistanês aposentado Assad Durrani, citado por Hersh e consultado por Bergen. Durrani, sugere que não há “qualquer evidência” de que o governo do Paquistão soubesse que Bin Laden “estava escondido” no país. Mas admitiu que a informação revelada por Hersh é “plausível”.

Uma coisa é certa: governos mentem; em alguns casos, mentem muito. Hersh pode até errar, eventualmente, mas não é um cascateiro.

 

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