Euler de França Belém
Euler de França Belém

Seymour Hersh lança memórias e diz que “verdadeiro” jornalismo está vivendo dias de agonia

O repórter que ganhou um Pulitzer afirma que é infantil a hostilidade devotada pela imprensa a Donald Trump

Quando dizem que um profissional é uma lenda viva do jornalismo estão sugerindo simplesmente que está (quase) morto? Quando mencionam que fulano é o “decano” do jornalismo, a impressão que se tem é que a pessoa está “superada”. É o caso de Seymour M. Hersh, de 81 anos, um dos mais notáveis jornalistas dos Estados Unidos?

Na verdade, não. Seymour Hersh permanece escrevendo reportagens e publicando livros. O mais recente é “Reporter: A Memoir” (Alfred A. Knopf, 368 páginas), que sairá no Brasil pela Editora Todavia, em março. Ele conta sua história, quer dizer, a história de como investigou e escreveu suas principais reportagens.

Silas Martí, da “Folha de S. Paulo” (19 de outubro deste ano), entrevistou Seymour Hersh, em Nova York. Na apresentação, o repórter brasileiro assinala que a consagração do americano intranquilo chegou com a reportagem sobre o massacre de My Lai, “a maior matança de civis durante a Guerra do Vietnã”. A tragédia rendeu-lhe um Pulitzer.

Um de seus livros mais celebrados é “Cadeia de Comando — A Guerra de Bush do 11 de Setembro às Torturas de Abu Ghraib” (Ediouro, 398 páginas, tradução de Áurea Akemi Arata, Garcia Marina Petroff e Andreia Moroni). O jornalista, verdadeiro outsider, escreveu reportagens para o jornal “New York Times” e para as revistas “Life” e “New Yorker”.

Na entrevista, Seymour Hersh se diz “um purista solitário”, mas a expressão precisa é “lobo solitário”. Porque, quando jornalistas estão buscando a declaração espetacular de um político, como o presidente Donald Trump, o repórter está à caça daquilo que, às vezes, seus colegas não estão procurando ou não querem procurar. Porque dá trabalho, porque é difícil e porque escrever a partir das redações, com salas climatizadas, é mesmo muito mais aprazível. O problema do “jornalismo de ar condicionado” é que nada renova e apenas reflete, em regra, aquilo que os poderes, macro e micro, querem que seja divulgado. A seara do autor de “The Killing of Osama bin Laden” é outra: a dos que desagradam — sempre — os poderes. Sua mão preferida é a contra.

Jornalismo é a República do espetáculo

O jornalismo se tornou espetáculo, faz parte do mundo do espetáculo. Fazer jornalismo de verdade custa caro e leva tempo. Verificar informações objetivamente, observar cuidadosamente e escrever com clareza e redigir um texto com certo “sabor” são ações que ficaram no passado? Não. Há jornais e revistas, como a “New Yorker”, nos Estados Unidos, e a “Piauí”, no Brasil, que valorizam a investigação detida e o texto de qualidade. Informam bem, ao mesmo tempo que sabem contar uma história. Seymour Hersh é mais pessimista. “O que acontece é que tudo é rápido demais.
Não há tempo. Ninguém checa os fatos, os jornais não gastam nem três dias fazendo uma reportagem. A vida do repórter virou publicar algo no jornal e aparecer nos canais de televisão a cabo depois para comentar o assunto. Isso é maluco. Tudo ficou muito acelerado.”

No jornalismo atual, há redações em que editores e proprietários demitem os melhores e contratam os piores. Porque os piores custam menos e podem ser trocados por outros piores e que custam ainda menos. É a dialética do monturo.

Seymour Hersh diz que os jornais não têm dinheiro e “estão morrendo”. “O que quero dizer é que estamos falando de uma vida que não é mais viável. O jornalismo que sempre fiz parece estar vivendo a sua agonia.” Só por falta de recursos financeiros? Em parte, sim. Mas o problema maior é a falta de investimento em qualidade e isto não ocorre apenas por falta de grana. A moda agora é ligar para um político, publicar uma entrevista de dois mil caracteres, postar nas redes sociais e impulsionar a leitura. Aí corre-se para o abraço, quer dizer, para verificar a audiência. Quanto maior o horror, o excesso no trato dos fatos, mais “acessos únicos”.

Na década de 1970, “no fim da era Nixon e com o escândalo Watergate, os jornais eram mais importantes do que a Casa Branca. A imprensa tinha mais credibilidade do que o governo, mas agora não tem mais”. As denúncias dos jornais, com o “Washington Post” na comissão de frente, levaram o presidente Richard Nixon a renunciar, em 1974. Os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein saíram consagrados e sua história é registrada no filme “Todos os Homens do Presidente”, com Robert Redford e Dustin Hoffman. O livro “Todos os Homens do Presidente — O Caso Watergate e a Investigação Jornalística Mais Famosa da História” (421 páginas), de Woodward e Bernstein, saiu no Brasil pela Editora Três Estrelas, com tradução precisa de Denise Bottmann

Jornais “perseguem” Donald Trump

Diferentemente de vários jornalistas consagrados, Seymour Hersh não está alinhado com os críticos radicais do presidente dos Estados Unidos. “Hoje todos os jornais de elite são hostis e malvados com Donald Trump porque isso é o que o público quer ler, virou seu pão com manteiga. Os jornais não são mais objetivos. Se você odeia Trump, você lê ‘The New York Times’ e o ‘Washington Post’. Não há mais um campo neutro. A perseguição a Trump é horrível. Estão loucos para ver a sua queda enquanto os seus índices de aprovação vêm subindo. Quanto mais os números sobem, mais atacam. É uma hostilidade infantil, da mesma forma como ele também se comporta com um bebê. Estão mais preocupados em odiar Trump do que revelar as verdades sobre o que aconteceu. Eles continuaram fazendo o que Hillary Clinton fez na campanha. Vivemos uma situação maluca em que a imprensa está torcendo por sua queda. Trump foi eleito com votos da minoria e pode ser eleito de novo se não acharem nada. A palavra vergonha não faz sentido para os jornais. Todos pensam que podem jogar qualquer um no lixo.”

(Não é muito diferente da relação da Imprensa patropi com Jair Messias Bolsonaro. Parece que há uma torcida, em certos círculos jornalísticos — esquerdistas e mesmo liberais —, para que o presidente eleito se torne autoritário e golpista. É provável que há uma pressão, quiçá indireta, para que se firme como um déspota não esclarecido. Se há uma aposta para que o líder do PSL se torne pior do que é, a tal tacada de mestre, o que se percebe é que Bolsonaro está caindo na armadilha, se armadilha é. O que falta ao recém-eleito é um articulador político que tenha ascendência sobre o líder impulsivo e não concorde com tudo que diz. O bate-boca com a Imprensa — mesmo se cortar verbas publicitárias — será muito mais útil aos jornais do que ao governante, que precisará se desdobrar, a partir de 1º de janeiro, para gerir um país em crise e resolver problemas, como o desemprego e a violência, que não são nada fáceis de equacionar. São problemas que tendem a não sair das manchetes, com reportagens, às vezes estribadas em pesquisas, informando que não foram resolvidos.

Daqui a dois meses, Bolsonaro terá de ser julgado pelos atos, e não mais só pelas palavras. Até aliados mais radicalizados, os seguidores, vão cobrar a resolução dos problemas ingentes do país. Bolsonaro não “comprará” a Imprensa, é certo. Nem deve tentar. Mas precisa criar uma interlocução adequada com jornais e revistas. Precisa, quem sabe, de um diplomata para articular a détente com repórteres, editores e proprietários. Os dois lados estão armados e a guerra, a continuar como está sendo impulsionada, será sem fim, sem vencedores e de caráter improdutivo.)

No campo do jornalismo hard, aquele que confronta autoridades poderosas, como presidentes, não há como deixar de citar Bob Woodward, Carl Bernstein, Seymour Hersh e, entre os mais recentes, Jeremy Scahill (autor do extraordinário “Guerras Sujas — O Mundo É um Campo de Batalha”). Mas, na academia e no meio jornalístico, os adeptos do jornalismo literário têm verdadeira adoração por Truman Capote, Gay Talese, Tom Wolfe e Hunter Thompson (que teria inventado o jornalismo gonzo). Seymour Hersh diz à “Folha” que admira os “repórteres mais durões”. “Meu fascínio era por aqueles caras que criticavam a guerra no Vietnã.” Eu teria perguntado a respeito da crítica corrosiva do escritor John Updike — num capítulo do livro “Consciência à Flor da Pele” (ele tinha psoríase) — aos americanos contrários à entrada dos Estados Unidos na luta na Ásia.

Estilo é fundamental? Seymour Hersh tem uma opinião particular: “Estilo é a habilidade de contar bem uma história. Detestava quando alguém vinha me dizer que alguma coisa estava bem escrita. Eu respeitava mais os repórteres que tinham essa habilidade para falar sobre a guerra e política do que as coisas que Tom Wolfe, Gay Talese e Hunter Thompson estavam fazendo. Mas sou um velho, tenho 81 anos. Meu lema era contar a história e sair do caminho, não ficar me vangloriando. Sou partidário das ‘hard news’.”

Seymour Hersh disse a Silas Martí que foi traído por editores do “New York Times” e da “New Yorker”. “O que aconteceu lá [no ‘Times’] é que, enquanto eu apurava uma reportagem, os editores iam conversar com o presidente do país em paralelo para depois sugerir mudanças. Um editor não deve ser amigo do presidente ou fazer social com o governo. Eles tornaram a situação impossível para que eu escrevesse as reportagens que eu queria escrever. Isso foi uma traição, acabou com a confiança entre a gente. Isso também aconteceu na ‘New Yorker’. (…) Os editores têm uma visão bem diferente da visão do repórter”.

A crença de repórteres em fontes oficiais — governantes, policiais, promotores de justiça — é estúpida? Seymour Hersh diz que “os repórteres hoje são muito crédulos. O governo controla as notícias. E os repórteres acreditam na Casa Branca. Ninguém nunca volta para contar os bastidores do que aconteceu porque sabe que será desmentido”.

Repórteres chegam à redação (acrescente-se que inventaram a reportagem por telefone), sempre em cima da hora, e escrevem suas histórias como se estivessem redigindo “Gênesis”. Mas estão reportando um micro recorte da realidade, às vezes de maneira pouca objetiva e ampla, mas apresentando-o como “a verdade”. Se isto não é manipulação, ainda que sem malícia deliberada, não se sabe o que é manipulação. Por isso, outra jornalista, Janet Malcolm, aparentemente não amada por Seymour Hersh, sugere que a profissão de jornalista é indefensável.

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