Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Ser jornalista no Brasil em 2021: uma atividade cada vez mais arriscada

No ano passado, profissionais de imprensa foram mais agredidos. Nas redes sociais, são mais de 4 mil insultos a quem busca informar

Repórter fotográfico trabalha ao lado de policial armado com fuzil | Foto: Reprodução

Jornalismo foi, é e sempre será uma profissão com riscos, de diversos tipos. Claro que há as vulnerabilidades mais óbvias, como as a que estão expostos os correspondentes de guerra: na invasão da Ucrânia, pelo menos seis profissionais da imprensa já perderam a vida – até o fechamento desta edição, a última havia sido a russa Oksana Baulina, de 42 anos, que trabalhava para o site independente The Insider e morreu em um bombardeio a Kiev na quarta-feira, 23.

Quem cobre zonas de conflito sabe exatamente o que está fazendo e merece, cada um, todo o respeito de quem recebe o resultado de seu serviço extremo. Somente nesta guerra que atrai os olhos de todo o mundo – imagine que há outros 28 países em zona de conflito, mas longe da mídia – há também dezenas de profissionais de imprensa feridos, seis raptados e um dado como desaparecido, segundo informações do Centro Ucraniano para a Segurança Estratégica da Comunicação e da Informação. Há também ocorrência de 5 incidentes com armas de fogo e 11 ameaças de morte contra a classe. Ao todo, as autoridades da Ucrânia registraram cerca de 150 crimes contra repórteres e meios de comunicação social em um mês de guerra.

Mas, se o risco do jornalista em uma guerra é, por assim dizer, uma faceta radical do ofício, ele está presente à sombra de pautas aparentemente ordinárias. Isso porque comunicação social está intrinsecamente relacionada a poder. Afinal, se uma informação interessa ao público, mas fere o interesse de alguém, a hipótese de quem se sente prejudicado pode se sentir sempre impelido a promover alguma retaliação, uma hipótese nunca descartada. Esse risco existe tanto quando a notícia é sobre a corrupção num instituição de Estado ou o desvendamento de um esquema mafioso como para a cobertura de um assassinato por motivos fúteis.

A questão é que quem se acha prejudicado por certa informação frequentemente age como se a culpa da própria ruína fosse do mensageiro. Na verdade, a própria história da humanidade é testemunha de que quem traz más notícias para poderosos não é benquisto.

Na Antiguidade e na Idade Média, quando não havia revistas ou jornais, as informações eram transmitidas por mensageiros (às vezes chamados de “arautos”), que viajavam distâncias imensas para dar notícias ao rei ou qualquer outro mandatário de sua nação. Muitas vezes, quando levava uma notícia ruim – a derrota em uma batalha, por exemplo –, o arauto pagava com a própria vida o fato de ter informado ao soberano algo ruim.

Uma expressão conhecida, que virou uma espécie de metáfora, é “matar o mensageiro”, parece ter sido originada na decisão do rei persa Dario III de executar o oficial que lhe comunicou a notícia da supressão de seu exército em um embate contra as forças comandadas pelo macedônio Alexandre, o Grande. Outros déspotas também repetiriam o procedimento.

Mas matar o mensageiro – ou o jornalista – pode ter, no caso, uma dupla finalidade: descarregar a fúria pelo descontentamento com a situação e, também, evitar que o jornalista continue a propagar aquela verdade inconveniente ao poderoso.

No Brasil, o número de atentados à integridade física de jornalistas tem aumentado ano a ano, como demonstram os dados disponíveis no relatório anual sobre violações à liberdade de expressão da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert).

Foram, de acordo com o documento, 145 casos de violência não letal contra ao menos 230 profissionais. A maior parte se constitui de ofensas (53 ocorrências). Depois, vêm as agressões, (34 ocorrências) e intimidações (26). Números, é bom ressaltar, apenas daquilo para que houve de fato um registro formal.

Quando a questão é ambiente virtual, no entanto, a coisa vira selvageria contra profissionais da comunicação. Os ataques à categoria em postagens no Twitter, no Facebook e no Instagram, tiveram cerca de 4 mil notificações – por dia. Na grandíssima parte, a motivação dos linchamentos nas redes sociais é disputa política.

Em 2021, o Brasil estreou na lista de nações em que fazer jornalismo é considerado uma atividade insegura. O levantamento faz parte do ranking mundial de liberdade de imprensa realizado pela organização Repórteres Sem Fronteiras.

Em ano eleitoral, diante do quadro de acirramento crescente dos ânimos, a classe que leva a informação, agradável ou não, mas preservando sua assertividade, merece ser mais bem protegida. Já o respeito por quem confunde a pessoa com a mensagem – ou com o veículo para que ela trabalha –, infelizmente, vai demorar a ser recuperado.

Uma resposta para “Ser jornalista no Brasil em 2021: uma atividade cada vez mais arriscada”

  1. Avatar Gunther Heinz disse:

    SÓ 4 mil insultos? Por hora?

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