Euler de França Belém
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Sem prova cabal, biografia de Luís Carlos Prestes afirma que senador Totó Caiado roubava e pilhava

Biografia de Luís Carlos Prestes é excelente, pois se trata de uma grande análise da história do Brasil no século 20, mas pode ter exagerado ao se referir ao senador Totó Caiado

Biografia de Luís Carlos Prestes é excelente, pois se trata de uma grande análise da história do Brasil no século 20, mas pode ter exagerado ao se referir ao senador Totó Caiado

Há uma biografia excelente na praça, um grande painel da história do Brasil no século 20. “Luís Carlos Prestes — Um Revolucionário Entre Dois Mundos” (Companhia das Letras, 536 páginas), de Daniel Aarão Reis, de 68 anos, professor da Universidade Federal Fluminense e doutor em História pela Universidade de São Paulo, é um livro excepcional, muito bem escrito e com rara fluência.

Ao fim da leitura, não se percebe que o líder comunista ficou maior, mas também não ficou menor. Sua grandeza, que por certo há, está devidamente assentada. Com virtudes e defeitos apontados, porém nuançados.

Em que pese seu equilíbrio e pesquisa rigorosa, incontestáveis, há uma citação ao senador Totó Caiado, avô do deputado federal e senador eleito por Goiás Ronaldo Caiado (DEM), que merece nuance e contraditório.

Na página 78, ao apresentar a história da Coluna Prestes, Daniel Aarão escreve: “Totó Caiado, grande senhor de terra de Goiás, inauguraria um padrão que mais tarde seria retomado, em larga escala, pelos senhores do Nordeste, e da Bahia em particular, com seus ‘batalhões patrióticos’: roubava e pilhava, vendendo depois o produto do saque em mercados legais e ilegais. O próprio Bertoldo Klinger escreveria relatórios denunciando o latifundiário e solicitando a dissolução de suas ‘tropas’”.

Referenciado como “grande senhor de terra” e “latifundiário”, Totó era senador e tinha influência na política de Goiás e nacional, o que não é mencionado pelo livro. Relatos da época, por amplos e oficiais que sejam, merecem contraste com outras fontes, tanto documentais quanto historiográficas. Tudo indica que a única fonte de Daniel Aarão são os “relatórios” de Bertoldo Klinger.

Historiador rigoroso, Daniel Aarão poderia ter ampliado sua pesquisa com uma consulta ao livro “Poder e Paixão — A saga dos Caiado” (Cânone Editorial, de 2009), de Lena Castello Branco. A doutora pela Universidade de São Paulo escreveu um estudo criterioso e alentado (nasceu clássico), nem pró nem contra, sobre a família Caiado. Assim como a biografia de Prestes, o que se pode dizer é que se trata de uma obra nuançada, que situa, com precisão, os personagens na sua época e mostrando, com mestria, que os conflitos políticos e pessoais do tempo em que viveram podem distorcê-los, para menos ou para mais. Não há registro cabal — não politizado; inclusive a imprensa se prestou ao papel de “combatente”, quer dizer, de agente parcial — de que Totó Caiado “roubava e pilhava”. As referências da pesquisa séria e não comprometida com os conflitos da época — Caiado versus Pedro Ludovico (pós-1930) — dão conta de que se tratava de um homem decente.

Na próxima edição, para recompor o equilíbrio histórico entre as “partes”, para que a história não se torne a hegemonia de uma delas, vale acrescentar a história devidamente ampliada por Lena Castello Branco. Com a distância de 90 anos, vale trocar a paixão pela razão, incorporando a versão de uma parte propositadamente esquecida e, com certa frequência, não respeitada. Um livro tão bom quanto o de Daniel Aarão não pode ficar, por uma falha mínima, “manco”.

Abílio Wolney, de Dianópolis, é citado nas páginas 92 e 99.

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