Na semana passada, um adolescente de 14 anos disse a uma editora do Jornal Opção: “Por que a imprensa divulga um assunto de maneira intensa e, em seguida, o esquece tão rapidamente?”

O garoto chegou a citar alguns temas que ganham imenso destaque, às vezes sem nuance, e depois são abandonados — poucos sendo retomados com a devida atenção.

Eis uma lista mínima: a guerra entre a Rússia e a Ucrânia (na verdade, o país do autocrata Vladimir Putin massacra o país de Nikolai Gógol e Liev Trótski), a caçada dos integrantes do Hamas (organização palestina — sunita) pelas bem-treinadas tropas de Israel, a Reforma Tributária (que prejudica imensamente Goiás — o que o jornalismo local não discute a fundo), Senado versus Supremo Tribunal Federal na questão das decisões monocráticas (apenas por um ministro), Jair Bolsonaro, a baleira jubarte e Flávio Dino, a ida de uma faccionada do Comando Vermelho à sede do Ministério Justiça.

Mulher ferida na Ucrânia | Foto: Reprodução

De repente, um dos assuntos avulta — como se fosse o acontecimento mais importante da história ou, pelo menos, do momento. Em seguida, o tema é deixado de lado e é substituído por outro. A Ucrânia continua sendo massacrada, com pessoas mortas e a estrutura do país destruída pelos ataques da Rússia. Mas a crise entre Hamas e Israel “substituiu”, digamos, a batalha entre os “filhos” de Púchkin (que leu Tomás Antônio Gonzaga) e de Mikhail Bulgákov (autor do seminal romance “O Mestre e Margarida”, tão bem traduzido por Zoia Prestes e Irineu Franco Perpétuo).

A Reforma Tributária é um assunto complexo, tanto que a repórter Giovanna Campos, ao entrevistar empresários, percebeu que a maioria não está por dentro do meandros das medidas que, daqui a algum tempo, vai mudar a vida de todos eles (e de todos os brasileiros). O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), e o economista Valdivino Oliveira, que examinaram bem o projeto, entenderam, de cara, que é prejudicial ao desenvolvimento dos Estados ditos emergentes. Sem os incentivos fiscais, e com recursos concentrados na União — o que indica que o país não é uma República Federativa —, restaura-se, por assim dizer, o pacto colonial. Com a Corte reforçada e as “colônias”, como Goiás, Mato Grosso e Tocantins — entre outros —, subordinadas e dependentes.

Flávio Dino: sob ataque do fogo amigo e do fogo inimigo | Foto: Agência Brasil

Quem mora em Goiás e defende a Reforma Tributária do governo de Lula da Silva não percebe que, se vivesse antes de 1822, estaria defendendo a Corte e não a Colônia, quer dizer, o Brasil.

Mas o que se quer dizer, realmente, é que a Reforma Tributária é um assunto que não pode sair da pauta dos jornais — mesmo que seja complexo e gere pouca audiência. A maledetta tem de conviver, com destaque, com os ditos “grandes assuntos”. Porque interessa a todos os brasileiros — e até mais do que determinadas guerras. Veja-se: os empregos podem cair, no futuro, quando as medidas da Reforma Tributária forem colocadas em prática. Anápolis e Aparecida de Goiânia, cidades ricas hoje, podem se tornar mais pobres amanhã.

Na semana passada, “O Globo”, o “Estadão” e a “Folha de S. Paulo”, para citar apenas três jornais, esbaldaram-se com o conflito entre o Senado e o Supremo Tribunal Federal — e com a turma do governo Lula da Silva se fingindo de morta. A rigor, pode-se sugerir que o Senado jogou pesado contra o Supremo? Talvez não. Porque, embora seja um poder, portanto importantíssimo para a democracia, o Supremo não é autocrático e precisa, também, de certos limites. Decisões monocráticas (individuais) nem sempre representam a voz do STF, e sim tão-somente de um ministro. Quando Nunes Marques decidir, solitariamente, contra uma posição do governo Lula da Silva, os petistas certamente ficarão insatisfeitos. Afinal, não se pode decidir apenas contra Jair Bolsonaro. Não é democrático, não é legal.

Gilmar Mendes e Jaques Wagner: o primeiro, por ser magistrado, talvez não entenda que, em política, as lealdades podem ser provisórias e circunstanciais | Fotos: Reproduções

A chiadeira do Supremo deve entendida da seguinte forma: não se teme tanto o que se decidiu agora, e sim possíveis novas medidas. Por isso, o alinhamento do líder do governo no Senado, Jaques Wagner — um moderado do PT —, à tropa de choque do agrobolsonarismo chocou tanto ministros do Supremo, como Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso.

Como não há ninguém ingênuo nas esferas em discussão, o que se sabe é que os políticos, tanto da direita quanto da esquerda, não querem ficar inteiramente nas mãos do magistrados do Supremo. O STF resgatou Lula da Silva para arrancar Jair Bolsonaro da Presidência da República. Mas compromissos políticos não duram para sempre e o petista-chefe, para continuar no poder, precisa do apoio de parte dos aliados do líder do Partido Liberal (não deixa de ser uma contradição o partido ter o nome de liberal e, ao contrário, ser conservador — o que dificilmente um liberal americano e europeu entenderia).

Os ministros do Supremo dormiram de touca e acordaram de olhos vendados. A lua de mel do Judiciário com o governo Lula da Silva e com o Congresso — Executivo e Legislativo — ainda não terminou. Mas os litígios, típicos de casamentos, já começaram.

Porém, como diria o menino de 14 anos, daqui a pouco, em horas ou dias, não se falará mais no assunto Supremo versus Congresso. Até porque o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, com seu pragmatismo habitual, certamente “esquecerá” a PEC 8/2021, ao menos durante algum tempo, o que lhe dará “poder” junto ao Supremo. Os ministros do STF — queira ou não o brilhante Gilmar Mendes (e pessoas notáveis às vezes tem um quê de inocência) — terão de jogar pelas regras dos políticos. É o recado, espertíssimo, dos congressistas. O Supremo entrou na “roda”, então terá, de alguma maneira, de dançar.

Ah, tem a história de que Jair Bolsonaro atrapalhou o “tráfego” de uma baleia jubarte. Claro, sou inteiramente a favor de que as baleias circulem livremente e políticos, mais do que cidadãos ditos comuns, têm de respeitá-las ainda mais. Mas a mídia, ao ser conduzida pela mestria verbal do ex-presidente, ajudou a produzir a imagem de que o ministro Flávio Dino (por sinal, eficiente, e é por isso que reclamam dele, inclusive na esquerda, ao menos nos bastidores), por ser gordo, “é” uma baleia. Quer dizer, com anuência da imprensa, Bolsonaro transformou um assunto sério numa piada — o que o descaracterizou, e com uma agressão a Flávio Dino (e não ao ex-presidente).

Pois bem: a mídia “conduz” ou é “conduzida” pelos fatos? O que falta, nas editorias, é foco, porque o acessório está subordinando o essencial.

Na questão da faccionada do Comando Vermelho que visitou o Ministério da Justiça, ao ceder ao mais puro jornalismo declaratório — que beira à datilografia (ou digitação) pura e simples —, a imprensa não investigou possível manipulação com o objetivo de prejudicar o ministro Flávio Dino.

O Ministério da Justiça não beneficiou a faccionada em nada. Mas a ida dela lá, acompanhada de uma ex-deputada do Psol, é, de fato, suspeita. Mas não é o ministro que é o suspeito — no caso, é vítima. Mas, para muitos, ficou com a imagem de suspeito e, por vezes, de ingênuo. A imprensa poderia ter “matado” o assunto de cara, porque, a rigor, não tem grande importância, mas desenvolveu o assunto por vários dias. Por quais motivos? Para obter audiência-acesso ou para desgastar o ministro Flávio Dino — que muita gente, até na esquerda, não quer como ministro do Supremo Tribunal Federal e até, quem sabe, da Justiça?

O fato é que o assunto, apresentado como candente — quase o “quarto” segredo de Fátima —, parece que já foi esquecido. O objetivo da imprensa é gerar “desconfiança” — sugerindo que alguns fatos são mais nebulosos do que de fato são — ou informar, com rigor, para que os fatos sejam esclarecidos? A impressão que se tem é que a “missão” da “mídia” é produzir sensações — nuvens passageiras, como sugeriu um compositor — e não iluminar o que é ou parece obscuro.

Nunca um menino de 14 anos, aluno do WR, teve tanta razão.