Euler de França Belém
Euler de França Belém

Se meditar nu, Cauã Reymond fará a festa dos que avaliam que a vida privada é pública

A única maneira de preservar a intimidade é não ficar nu nas proximidades de janelas

Divulgação

A privacidade não acabou e precisa ser defendida com unhas, dentes e, quando necessário, ações judiciais. Não está nada fácil defendê-la. Porque a vida privada está sendo interpretada, cada vez mais, como pública, portanto devassável e de interesse coletivo. O que fazer?

Nem mesmo a Justiça consegue fornecer a solução adequada. Porque, mesmo se há processo formalizado, com a possibilidade de condenação do invasor, às vezes, mesmo com todo avanço tecnológico de rastreamento, não é possível localizar aquele que desrespeita a privacidade alheia. Encontrado, processado e eventualmente condenado — as penas e indenizações em geral são leves —, o que deveria contribuir para desestimular outras infratores, algumas vezes reforça a vulgarização daquilo que havia sido objeto da ação judicial.

Uma saída é o indivíduo cuidar mais de sua privacidade, evitando que seja invadida e divulgada. Mas o que fazer se um celular e um computador pode ser devassado com facilidade? Quer dizer, não é fácil cuidar da própria privacidade. Tornar-se paranoico, evitando guardar fotografias íntimas em locais devassáveis, é um caminho. Mas por que as pessoas têm de se tornar paranoicas ou ermitãs?

A polêmica do momento envolve o ator Cauã Reymond Marques.

Aos 37 anos, Cauã Reymond é um homem bonito. Mas, quando interpreta, não é um mero rostinho bonito. É um bom ator. Mas a beleza é e, como tal, trata-se de um fato incontornável. Héteros, com certa inveja, sugerem que é gay. Não é. Pertence à “categoria” dos latin lovers. Relacionou-se com algumas das mulheres mais bonitas do país, como a atriz Grazie Massafera, com quem tem uma filha, e a modelo Mariana Goldfarb.

Recentemente, quando fazia ioga — ou meditação ou as duas coisas —, nas proximidades de uma janela de seu apartamento, foi fotografado por um paparazzo. Estava nu.

Cauã Reymond contratou advogado e planeja processar o fotógrafo e, quiçá, quem divulgou a fotografia. É um direito seu, pois sua privacidade deve ser preservada a qualquer custo. Entretanto, por saber que se vive num mundo praticamente sem segredos — quase o Grande Irmão de que falava George Orwell —, apelativo e sensacionalista, o ator não deveria ter mais cuidado com a exposição de seu corpo?

Como qualquer outra pessoa, Cauã Reymond tem o direito de ficar nu em sua residência — meditando ou fazendo ioga. Mas, sendo quem é — objeto de desejo (ou curiosidade) de tantas e tantos —, o mínimo que se pode dizer é que se mostrou pouco precavido. O processo, longe de intimidar outros fotógrafos, vai incentivá-los.

Os fotógrafos são pagos para saciar — ou não saciar — o público. Quanto mais excessos, mais audiência. Ouvi pessoas reclamando que a foto de Cauã Reymond não era contundente e mostrava menos do que anunciava (há fotos suas na internet que são, digamos, bem mais sensuais). Inquiridas, algumas me disseram: “Ora, ele estava se mostrando” e “Quem está na chuva é para se ‘mostrar’”.

O que se recomenda a Cauã Reymond é meditar vestido — ainda assim será fotografado e exposto nos sites de fofoca (a fofoca está se tornando irmã-gêmea do jornalismo) — ou, se quiser meditar nu, não se preocupar com os ardis dos profissionais do sensacionalismo. Se continuar movendo processos, vai contribuir muito mais para reforçar a conta bancária dos advogados do que para moralizar sites e redes sociais.

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