Euler de França Belém
Euler de França Belém

Se a Justiça deixar, Brasil vai ganhar duas traduções do maior romance cubano, Paradiso, de Lezama Lima

“Paradiso”, romance de Lezama Lima, é o “Grande Sertão: Veredas” de Cuba, uma obra-prima universal

“Paradiso”, romance de Lezama Lima, é o “Grande Sertão: Veredas” de Cuba, uma obra-prima universal

A Alemanha tem uma tradução respeitada de “Grande Sertão: Veredas”, romance de Guimarães Rosa. O escritor mineiro, que sabia alemão — foi cônsul em Ham­bur­go —, dialogou com o tradutor e aprovou seu trabalho. Mas uma editora encomendou outra tradução (para 2015), que está sendo feita por Berthold Zilly, professor universitário na Alemanha. Zilly está dando aulas em Florianópolis, mas sobretudo está se inteirando das coisas do Brasil, do uso da língua no cotidiano e não formalmente, para traduzir Guima­rães Rosa com menos imprecisão. A complicada teia que envolve erudito e coloquial na sua prosa às vezes confunde até leitores brasileiros, mesmo especialistas. Zilly quer capturar a riqueza linguística e a língua viva, oralizada.

O romance “Ulysses”, de James Joyce, recebeu três traduções no Brasil, grandes empreendimentos culturais de Antônio Houaiss, o pioneiro, de Bernardina Pinheiro (tida como autora da versão mais pedestre, o que não significa baixa qualidade) e, a mais recente, de Caetano Galindo. Uma tradução melhora a outra e torna o livro mais legível.

Agora, o Brasil terá duas traduções de “Paradiso”, de Lezama Li­ma (1910-1976), o Guimarães Ro­sa cu­bano. Havia a tradução de Josely Vi­anna Baptista, de excelente qualidade, publicada pela Editora Bra­siliense. Porém, sondada pela Es­tação Liberdade, Josely Vianna de­cidiu retraduzir o livro, resgatando ainda mais a sua relevância literária.

Porém, a Editora Martins garante ter os direitos autorais da obra no Brasil, adquirida do Es­tado cubano (que, por sinal, não costuma pagar direitos autorais para escritores estrangeiros) e está ameaçando processar a Estação Liberdade para impedir a circulação da tradução de Josely Vianna. A Martins encomendou sua própria tradução à poeta Olga Savary.

A briga judicial pode retirar pelo menos uma tradução do mercado — talvez até as duas. Para os leitores, o que importa mesmo é ter duas edições que possam ser comparadas. Li a primeira tradução feita por Josely Vianna. É de uma excelência rara. O leitor certamente fica com a impressão de que Lezama Lima, um artífice da palavra, escrevia em português, não em espanhol, tal a perícia da tradutora.

É provável que a Justiça decida pela circulação da tradução da Martins, a de Olga Savary, o que será uma infelicidade para o leitor — dada a alta qualidade do trabalho tradutório de Josely Vianna.

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