Euler de França Belém
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“Se há estratégia (de Bolsonaro), não é pautada pra vencer na urna a eleição de 2022”, diz Lavareda

Bolsonaro perdeu em torno de 40% dos eleitores do primeiro turno de 2018. Projeto familiar está acima do governo

O sociólogo e cientista político Antonio Lavareda concedeu entrevista ao repórter Tulio Kruse, de “O Estado de S. Paulo”, que deve ser leitura obrigatória ao menos por aqueles que se interessam por política.

Por que, depois de esbravejar contra o Supremo Tribunal Federal — estaria com receio de seu filho Carlos Bolsonaro ter a prisão decretada, suspeito de operar a rede de fake news do bolsonarismo —, Jair Bolsonaro recuou e, com o apoio do ex-presidente Michel Temer, está se aproximando do ministro Alexandre de Moraes? Lavareda sugere que, depois de um balanço dos resultados do 7 de setembro, o presidente teria percebido “que deu tudo, ou quase tudo, diferente do pretendido. Deu errado”. Sua base política ficou menor, a possibilidade de impeachment ganhou força, o Judiciário não se intimidou e a Bolsa registrou queda. Além disso, há a inflação, o desemprego em alta e a crise energética.

O recuo de Bolsonaro, na avaliação de Lavareda, é positivo. Trata-se de um alívio para a sociedade. O que se deve fazer, daqui pra frente? (Bolsonaro ainda tem um ano e quase quatro meses pela frente, e a eleição de 2022 será disputada daqui a um ano e alguns dias.) Compete ao presidente “retomar a agenda do governo e pô-la em sintonia com os problemas e as crises que assolam o país”.

Antonio Lavareda, cientista político | Foto: Youtube

Segundo Lavareda, independentemente do recuo, “o ato” do dia 7 “inaugurou uma nova conjuntura” e “envolve um reposicionamento dos atores, um certo reembaralhamento das cartas do jogo político. Nessa nova fase, o presidente começa politicamente enfraquecido. A radicalização não despertou o medo que supostamente intimidaria os outros atores político-institucionais. Pelo contrário. Temos agora um processo em que os poderes e os atores político-partidários, através do diálogo, já estão elaborando suas estratégias e táticas para bloquear qualquer ‘passo adiante’ do presidente, que expressou a disposição de ultrapassar os limites constitucionais”.

Ao postular que não cumprirá decisões judiciais, Bolsonaro cria “insegurança jurídica na sociedade”. “Tudo que os agentes econômicos mais prezam — porque é vital na condução dos negócios, na sobrevivência das empresas — é segurança jurídica.”

A fala de Bolsonaro no 7 de setembro “interrompeu a campanha eleitoral dos outros candidatos”. Na contenção do “ânimo do presidente” as oposições podem se unir, na avaliação de Lavareda. “O presidente Bolsonaro fez soar a ‘corneta’ da necessidade de unir as forças de oposição ou, se não unidade, pelo menos diminuir bastante o grau de conflito entre elas para poderem, unidas, resistirem a esse avanço do presidente.”

Ao contrário de Lavareda, não aposto numa união das oposições. Por dois motivos. Primeiro, ao recuar, Bolsonaro mostrou fragilidade política e não ter apoio das Forças Armadas para nenhuma aventura golpista. Ele saiu do 7 de setembro praticamente sozinho, e inclusive perdendo apoio de setores radicalizados — que, por falta de alternativa no campo da direita, deverão ser reconquistados. Segundo, há o fato de que Lula da Silva, com a possibilidade de vencer já no primeiro turno ou então de ir para o segundo turno como franco favorito, dificilmente cederá aos outros grupos políticos. Então, num primeiro momento, ante o susto, há a tendência de uma certa unificação dos discursos, no sentido do combate aos delírios golpistas de Bolsonaro. Porém, num segundo momento, a tendência é que prevaleça a atomização política. O PT só admite alianças políticas se for a força hegemônica, aquela que subordina as outras.

A ira de Bolsonaro e a reação da sociedade civil e da sociedade política acabaram por ser, na visão de Lavareda, “o marco inicial de uma nova conjuntura. “Nosso processo de crise vai numa escalada. O Congresso vai se comportar como grande intérprete das principais sinalizações da sociedade. Vai estar atento às manifestações de rua, às pesquisas, à evolução do diálogo entre os candidatos, organizações da sociedade civil e também dos partidos. O Congresso vai muito mais ser espelho dos movimentos da sociedade do que liderá-los, tomar iniciativa. Se a economia continua patinando, se as ações do presidente são obstáculo para uma retomada mais vigorosa do Brasil, se há uma paralisia decisória, aí o Congresso vai adotar os caminhos que possam resolver a crise [o impeachment, por exemplo]. Dos três poderes, naturalmente o Congresso tem essa capacidade”.

Lavareda nota que o “Brasil está com a inflação entre as três maiores da América Latina, com os preços das empresas da Bolsa bastante depreciados na comparação com o resto do mundo, com uma taxa de desemprego que se aproxima dos 15 milhões, afora uma dezena de milhões com empregos precários. Tudo isso só se vê agravado por um movimento ‘paredista’, de cunho político, como esse dos caminhoneiros. Isso pode interessar ao governo? Óbvio que não. Neste momento, o projeto do presidente, do seu círculo próximo e de sua família, descola dos objetivos do seu próprio governo”.

Portanto, assinala Lavareda, “agrava-se a crise político-institucional que, por sua vez, evolui pelas mãos da crise econômica. Nessa ciranda, o país vai regredindo a olhos vistos. O nome disso é escalada da crise”.

A explosão de Bolsonaro tem a ver com as pesquisas, que mostram Lula da Silva descolando? Lavareda discorda: “As pesquisas, por si só, não explicam” a crise. Citando John Locke, o cientista político diz que “a crise política decorre basicamente de uma violação da confiança. É o governante que rompe o espírito do pacto social e agride a sociedade. Ou seja, esse governante tenta substituir as vias legislativas por regras e leis formuladas por ele próprio”.

“O presidente Bolsonaro perdeu mais de um terço (do apoio). Segundo algumas pesquisas, perdeu em torno de 40% dos eleitores do primeiro turno de 2018. O esforço para recuperar esses eleitores é impossível de ser reconhecido nessas posturas e iniciativas [golpistas, populistas] do presidente. Quem analisa esses atos e as posturas de 7 de setembro ficam imaginando que o projeto do presidente não pode ser um projeto de vencer as eleições de 2022”, postula Lavareda. “Se há estratégia, com certeza não é pautada para vencer nas urnas as eleições de 2022.”

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