Sarah Kubitschek, uma mulher do seu tempo

Apesar de conservadora, Sarah foi uma das primeiras-damas mais atuantes do País, cumprindo seu papel e se engajando em obras sociais de grande envergadura

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

Filha de Jaime Gomes de Souza Lemos e de Luísa Negrão, Sarah Luiza Gomes de Lemos nasceu em Belo Horizonte em 5 de outubro de 1908 e faleceu em Brasília no dia 4 de fevereiro de 1996. Seu pai, homem público influente no cenário nacional (foi deputado federal e senador da República), morreu vítima de vingança político-partidária, fato que marcou profundamente a personalidade da jovem.

Márcia, Sarah Kubitschek, Maria Estela e Juscelino Kubitschek, em 1953 | Foto: Reprodução

Quando, em 1927, conheceu Juscelino Kubitschek, que acabava de se formar em Medicina, Sarah começou por influenciá-lo a não se meter em política. Os exemplos de seu pai eram a base da pirraça. Mas o feitiço acabou virando contra a feiticeira, com ajuda de Benedito Valadares. Juscelino, excelente médico urologista e exímio cirurgião, revela-se, pelas mãos da velha raposa mineira, um dos melhores políticos daquela geração e talvez um dos maiores que o Brasil já produziu em mais de cem anos de República. Fato, para muitos, incontestável.

O namoro entre Sarah e Juscelino teve, em quatro anos, aquilo que se pode chamar de predestinação: sob vários pontos de vista, tudo levava a crer que foram feitos um para o outro, tamanha a influência que exerciam entre si. Mesmo as pequenas rusgas de personalidade não impediram o desfecho favorável à união. O casamento realizou-se em dezembro de 1931, um ano depois do retorno de Juscelino da Europa, onde fez vários cursos e estágios no campo da Medicina. Sarah e Juscelino tiveram duas filhas: Márcia (biológica) e Maristela (adotiva), que lhes deram seis netos: Anna Christina, Júlia, Alejandra, João César, Jussara e Marta Maria. Dessa prole, hoje há vários netos e bisnetos em diversos campos de atividade.

Sarah Kubitschek | Foto: Reprodução

Algumas pessoas que conheceram o casal de perto chegam a afirmar que Juscelino acabou cedendo aos encantos de Sarah mais pelo cansaço do que por amor propriamente. Mas hoje, depois de tanto tempo e de todas as histórias que se contam, cabe aqui uma afirmativa: ela, sem ele, certamente não teria passado de uma rica dona de casa, uma colunável a mais na sociedade belorizontina. Mas ele, sem ela, provavelmente teria seguido sua intuição política sem se abdicar da medicina, dedicando sua vida à saúde e à caridade, em prol dos mais necessitados, a exemplo de seu conterrâneo Pedro Nava, outro gigante que, aliás, ungido pela literatura, acabou se tornando um dos maiores memorialistas deste país.

Sarah Kubitschek iniciou sua efetiva participação na vida pública de Juscelino em 1934, quando ele foi escolhido para chefiar o gabinete do recém-nomeado interventor em Minas Gerais, Benedito Valadares. (Em tempo: Valadares foi o único que Getúlio Vargas manteve com o título de governador.) Naquele mesmo ano foi eleito deputado federal, mandato que perdeu em 1937 com o advento do Estado Novo. JK voltou então a clinicar, para alegria de Sarah que continuava cismada com os rumos da política e, sobretudo, com os passos de seu marido — cada vez mais afastado de casa e do centro de suas atenções. Na verdade, uma espécie de ciúme a levava a temer aquelas ausências constantes a que os homens públicos estão sujeitos. Além do mais, conhecia bem os arroubos sedutores de Nonô: um inveterado pé-de-valsa.

Sarah e Juscelino Kubitschek: casamento | Foto: Reprodução

Em 1940, com a nomeação de Juscelino para a prefeitura de Belo Horizonte (outra dívida com Benedito Valadares), Sarah torna-se primeira-dama e parte para a luta de campo: precisava ajudar o marido na realização de obras públicas, até mesmo na urbanização da Pampulha, que seria, anos depois, um modelo para a criação de Brasília — outro marco na trajetória do genial Oscar Niemeyer.

Para quem não queria o marido envolvido com política, o ingresso de Juscelino no PSD, em 1945, acabou jogando por terra as resistências de Sarah: naquele mesmo ano JK foi de novo eleito deputado federal, mandato que exerceu de 1946 a 1950, quando a grande maioria dos mineiros o escolheu para governador de Minas Gerais. A partir daí, Sarah, já convencida da missão que Deus havia reservado a ela e a Juscelino, cedeu de uma vez por todas: assumiu seu lugar ao lado do marido, como a primeira-dama do Estado, e partiu para o campo de batalha, incentivando JK na difícil campanha à Presidência da República.

Apesar de conservadora, Sarah sempre esteve à frente do seu tempo: foi uma das primeiras-damas mais atuantes na história do País, cumprindo exemplarmente seu papel e se engajando em obras sociais de grande envergadura. Dos seus chás beneficentes surgiram as Pioneiras Sociais (hoje Associação das Pioneiras Sociais). Fundou escolas e creches pelo interior e hospitais altamente especializados, a exemplo do Centro de Pesquisa Luiza Gomes de Lemos, no Rio de Janeiro, para combate ao câncer da mulher. Em Belo Horizonte, criou o Hospital Júlia Kubitschek e o Hospital Sarah Kubitschek, cujo centro cirúrgico tem o nome de seu irmão: Geraldo Gomes de Lemos. Em Brasília, deixou sua obra máxima: o internacionalmente conhecido Hospital Sarah Kubitschek, onde são atendidos pacientes com os mais diversos problemas motores. Sarah fundou, também, hospitais-volantes, distribuídos pela maioria dos estados brasileiros, todos equipados para atendimento médico e odontológico. Levou para a Amazônia os hospitais flutuantes, adquiridos da Alemanha.

Depois da morte do marido, em agosto de 1976, Sarah continuou trabalhando sem descanso até conseguir o terreno em que hoje está erigido para as gerações futuras o Memorial JK, onde estão depositados os restos mortais do criador de Brasília. Além do mausoléu, foram criados ali um museu, contendo fotos, peças e documentos que ilustram as principais passagens da vida e obra de JK, e um espaço de cultura, que mantém uma programação intensa o ano inteiro, nos mais diversos segmentos artísticos.

Sarah foi casada com Juscelino por mais de 45 anos. No fim de sua vida, sempre com destemor, não mediu esforços no sentido de buscar esclarecimentos para as circunstâncias que envolveram o trágico acidente que vitimou seu marido. Seus últimos anos foram vividos em Brasília, onde dirigiu o Memorial JK durante uma década e meia e veio a falecer, aos 87 anos de idade, em plena atividade.

João Carlos Taveira, poeta e ensaísta, é membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e da Academia Brasiliense de Letras. Em 1994, recebeu do GDF a Medalha de Honra do Mérito Cultural de Brasília das mãos da vice-governadora Márcia Kubitschek, filha do ex-presidente. É colaborador do Jornal Opção.

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