Euler de França Belém
Euler de França Belém

Salinger teve 2 filhos e escreveu uma literatura poderosa. Adianta saber que só tinha 1 testículo?

O autor americano, ao contrário do que muitos pensavam — ele dizia: “Existe uma maravilhosa paz em não publicar” —, deixou mesmo uma obra inédita

[Publicado no Jornal Opção em 22 de setembro de 2013]

O melhor de um grande escritor são suas obras — verdadeiro testamento e testemunho de sua passagem pela Terra. O melhor de um escritor menor às vezes é sua vida. Se venturosa, especialmente com nuances sexuais explosivas, é um manjar para biógrafos e leitores maliciosos. O caso de Jerome David Salinger, autor do romance best-seller transnacional “O Apanhador no Campo de Centeio”¹, fica, por assim dizer, no meio termo. Porque, mesmo que não seja um escritor do porte de Gustave Flaubert, Liev Tolstói, Marcel Proust, James Joyce, Thomas Mann, William Faulkner e Guimarães Rosa, o norte-americano é um prosador respeitável. De uma única obra? Talvez. Por ter se mantido recluso na maior parte de sua vida, pensava-se que a vida de Salinger nada tinha a ver com vida animada de Byron. E não teve mesmo. Mas talvez tenha sido um pouco mais empolgante do que a descrita por sua filha, Margaret Salinger. No livro “O Guardião Entre os Sonhos”, Margaret disse que seu pai bebia a própria urina e não mantinha relações sexuais com sua mulher. Uma informação que não lança luzes sobre a obra e tampouco sobre a própria vida. Por isso é bem-vinda a nova biografia, “A Guerra Privada de J. D. Salinger”², de David Shields e Shane Salerno, que investigaram a vida e a obra do criador de “Franny e Zoey” durante quase dez anos. Eles tiveram acesso aos diários de Salinger e a documentos jamais examinados.

J. D. Salinger, o escritor introspectivo e recuso, num momento de descontração com um cachorro | Foto: Reprodução

O livro, com 600 páginas e 175 fotografias, embora superior às outras biografias — de Ian Hamilton, Paul Alexander e Kenneth Slawkenski —, tem merecido vários comentários negativos na imprensa europeia e norte-americana. Há mais “novidades” sobre Salinger do que nos livros anteriores. Resta saber, porém, se contribuem de fato para entender a obra e o homem que a criou. A crítica Michiko Kakutani, do “New York Times” — uma das fontes do livro de Shields e Salerno —, garante que a biografia é pouco rigorosa tanto ao examinar a obra quanto a vida. Jen Chaney, do “Washington Post”, apresenta uma opinião mais dura. Segundo Eduardo Lago, do “El País”, Chaney escreveu que se trata de um “golpe baixo” contra a memória de Salinger. O escritor Louis Bayard, no “Post”, sugere, como Kakutani, que falta rigor à pesquisa e aos comentários e insinua que o livro foi escrito às pressas. Já o documentário, dirigido por Salerno, obteve melhor acolhida. Eduardo Lago diz que ouvir as opiniões de Gore Vidal, Tom Wolfe, John Cussack e Martin Sheen é mais interessante do que ler o livro.

Eduardo Lago talvez tenha razão ao dizer que, apesar das falhas — decorrentes possivelmente de que o livro não foi escrito por estudiosos da prosa de Salinger —, trata-se de um livro de “interesse inegável”, pois “não lhes faltam méritos”. O correspondente em Nova York afirma que Shields e Salerno, nas suas muitas páginas, não oferecem uma síntese sobre a vida de Salinger. Antes, oferecem aos leitores um material bruto, que, a rigor, será bem mais útil aos especialistas, que, aos poucos, vão separar o joio do trigo. Eduardo Lago nota que os autores não “julgam” Salinger e sua obra. “Os mais exigentes lamentarão o caráter excessivamente especulativo do livro. Os caçadores de anedotas, ao contrário”, vão “adorar” a obra.

Salinger (o mais alto) e três soldados que participaram do ataque contra os alemães no Dia D, na Normandia | Foto: Reprodução

Uma das revelações do livro é que Salinger tinha apenas um testículo. Entretanto, como deixou dois filhos, um homem e uma mulher, e alguns livros de qualidade, como o clássico “O Apanhador no Campo de Centeio”, o fato de ter somente um testículo não o atrapalhou em nada, o que sugere que a informação, ótima como fofoca, nada acrescenta. Os autores dizem que Salinger apreciava relacionar-se com adolescentes, “ainda que, na hora da verdade…, raramente consumava o ato sexual”. Salinger seria impotente sexualmente ou a não consumação da relação sexual teria a ver com alguma interdição religiosa? Luís Antônio Giron, da revista “Época”, apresenta outra versão: “Ele se envolvia com garotas adolescentes e, tão logo as desvirginava, perdia o interesse”. O repórter do jornal espanhol afirma que as informações sobre a vida sexual de Salinger são baseadas em “rumores e especulações”. Não há nada comprovado.

A adolescente Jean Miller, entrevistada para a nova biografia, manteve relacionamento amoroso com Salinger por cinco anos. Segundo Eduardo Lago, “Miller inspirou o relato que escreveu em 1950, ‘Para Esme, Com Amor e Sordidez’. A biografia revela que Salinger quase cedeu os direitos da história a Hollywood, mas, finalmente, deu marcha-à-ré”.

Salinger lutou na Normandia e participou do Dia D, em 1944. Na Europa, casou-se com Sylvia Weller. Ao voltar para Nova York, o jovem descobriu que sua mulher havia espionado para a Alemanha e havia colaborado com a terrível Gestapo. O pai de Salinger era judeu e o obrigou a anular o casamento. Os críticos da biografia põem a informação sob suspeita. Eles dizem que a investigação dos biógrafos se baseia “mais em especulações do que em provas conclusivas”.

A informação mais importante, especialmente àqueles que se interessam mais pela obra do que pela vida, é que Salinger, ao contrário do que muitos pensavam — ele dizia: “Existe uma maravilhosa paz em não publicar” (a poeta Emily Dickinson escreveu que “publicar” é “leiloar a consciência”) —, deixou mesmo uma obra inédita. Não se sabe a qualidade, mas há indícios de que passou anos burilando-a. Os cinco títulos serão publicados entre 2015 e 2020 — por decisão de Salinger.

Salinger já idoso, parecendo assustadiço, talvez devido à presença do fotógrafo | Foto: Reprodução

Cinco contos versam sobre as famílias Glass. Leitores aficionados — os salingerianos são leitores-seguidores fanáticos (“O Apanhador no Campo de Centeio” é quase uma bíblia ecumênica e, digamos, laica) — certamente estão com água na boca. Se Salinger tiver refinado as obras “atualizadoras” das histórias anteriores, voltando ao passado ou apresentando a vida futura das famílias, certamente estaremos diante de um portento literário. Porém, se a religião tiver contaminado a sua percepção literária, tornando-a mais moralista, no pior sentido do termo, possivelmente os leitores vão ficar decepcionados. Se deixou autorização para publicar, se a família não estiver publicando apenas para ganhar dinheiro, isto significa, quem sabe, que as obras têm qualidade literária. Pode ser um passo à frente, ou para trás. Se ficar no nível das histórias anteriores, com aquela vibração adolescente e uma prosa viva, os contos já serão bem-vindos.

Eduardo Lago relata que há entre os inéditos “um manual em torno das crenças védicas de Salinger”. Segundo o repórter Luís Antônio Giron, da revista “Época”, são “parábolas e contos sobre a religião hinduísta que Salinger adotou em 1953”. Cinco contos devem ser publicados no livro “The Family Glass”. “El País” diz que há dois romances, mas “Época” cita um romance e um diário de guerra, além de “sete relatos sobre a infância de Holden Caulfield” (título do livro: “O Último e o Melhor dos Peter Pans” — “The Last and Best of the Peter Pans”). O romance relata o relacionamento com Sylvia Welter. O outro livro, que “Época” diz se tratar de um “diário” e o jornal espanhol apresenta como “romance”, trata das vivências do autor na Segunda Guerra Mundial.

Matthew Salinger, o filho do escritor que representa os herdeiros, não quis discutir os planos editoriais. Mas Salerno garantiu ao jornal “El País” que “duas fontes, ‘independentes e separadas’, confirmam a publicações das obras”.

Salinger morreu em 2010, aos 91 anos, e, a julgar pelos recentes acontecimentos, fez o que quis de sua vida, manipulando a mídia a bel prazer. Sua defesa intransigente da privacidade gerou toda sorte de histórias, mas ele não cedeu. Sua vida particular tornou-se um dos “segredos” mais discutidos da história literária do século 20.

Notas

¹ “O Apanhador no Campo de Centeio” tem duas tradução em português: a clássica de Álvaro Alencar, Antonio Rocha e Jorio Dauster, da Editora do Autor, e a mais recente de Caetano Galindo, da Todavia.

² “Salinger” (Intrínseca, 704 páginas), de David Shields e Shane Salerno, saiu no Brasil em 2014.

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