Euler de França Belém
Euler de França Belém

 Salário de Sergio Moro não é de 102 mil reais e Veja não errou a respeito de Dilma Rousseff

A aposentadoria da ex-presidente, que é justa, foi mesmo aprovada a toque-de-caixa. O juiz de Curitiba recebe 28 mil reais por mês

Sergio Moro, juiz, e Dilma Rousseff, ex-presidente da República: o primeiro é vítima da maledicência das máquinas políticas, potencializada pelas redes sociais, e a segunda não tem do que reclamar a respeito da notícia sobre sua aposentadoria

As redes sociais são mais do que uma espécie de esgoto sanitário das perversões humanas. Elas integram pessoas, contribuem para disseminar informações e, mesmo, às vezes são fontes para reportagens. Mas não há lugar mais adequado para adubar informações falsas. Em questão de minutos, as pessoas estão comentando, não raro com fúria, os assuntos expostos. Quanto mais sensacionais os fatos, ou aquilo que são apresentados como fatos, mais discussão e posicionamento produzem. Há pouco, divulgaram que o juiz federal Sergio Fernando Moro, da Operação Lava Jato, ganha 102 mil reais por mês (no Facebook e no Twitter, posts contrapõem: “Dilma Rousseff recebe ‘apenas’ 5 mil reais como aposentada”). Como há um juiz em Mato Grosso que recebeu, num mês, mais de 500 mil reais, a “notícia” sobre Sergio Moro era mesmo “crível”. Jornais, como “O Globo”, e portais, como o UOL, estão criando instrumentos de verificação das contrafações divulgadas como verdade na internet.

Na quarta-feira, 23, o UOL Con­fere publicou a reportagem “Sergio Moro ganha mais de R$ 100 mil por mês?”, assinada por Aiuri Rebello. O teto salarial do funcionalismo público — a base é o ganho mensal dos ministros do Supremo Tribunal Federal — é de R$ 33.763,00. Na verdade, o juiz recebe 28 mil reais por mês. Em julho, seu contracheque indica um salário de R$ 28.947,55, com indenização de R$ 5.261,73 e vantagem eventual de R$ 8.362,63. Depois dos descontos (Previdência, imposto de renda e retenção por teto constitucional), o magistrado recebeu R$ 28.404,97.
Em dezembro de 2016, Sergio Moro recebeu R$ 102.151,58. À remuneração mensal, de R$ 28.947,55, somaram-se R$ 5.261,73 (indenização) e R$ 83.379,50 (pagamentos eventuais, como férias, gratificação natalina). Numa nota, o juiz esclareceu que é raro receber o valor de 102 mil reais. “Meu salário gira em torno dos R$ 27 mil, R$ 28 mil, é isso que ganho”, disse.

A reportagem, inclusive com a apresentação de contracheques, esclareceu a história. O salário de Sergio Moro está fixado, mensalmente, em 28 mil reais; só pontualmente pode receber um pouco mais (e até bem mais). Não recebe, portanto, 102 mil reais por mês. As redes sociais estão erradas — maldosa (mais) e/ou inocentemente (menos).

Numa nota oficial, a Justiça esclareceu: “O Tribunal Regional Eleitoral da 4ª Região informa que as regras do teto constitucional são cumpridas de acordo com a Constituição Federal. As eventuais verbas recebidas acima do teto constitucional dizem respeito às exceções da incidência, previstas no artigo 8º da Resolução 13”.

Sergio Moro é uma vítima frequente de militantes de vários partidos — PT, PMDB e PSDB possivelmente na linha de frente — e vai continuar assim por mais tempo, enquanto não terminar a Operação Lava Jato. O objetivo das críticas é, mais do que desestabilizá-lo — o magistrado é uma figura intimorata —, tentar desmoralizá-lo ante a opinião pública e, com isto, enfraquecer a Lava Jato. É jogá-lo na vala comum dos empresários e políticos corruptos. Felizmente, inclusive para os inocentes úteis das redes sociais, o UOL Confere esclareceu o fato de maneira peremptória.

Aposentadoria

A mentira sobre o salário de Sergio Moro acabou conectada à reportagem “In­vestigação confirma aposentadoria irregular de Dilma”, escrita por Robson Bonin, da revista “Veja”. A ex-presidente da República afirma que é perseguida tanto pelo governo do presidente Mi­chel Temer quanto pela publicação da Editora Abril. Mas, diferentemente da história do magistrado de Curitiba, a in­formação não é falsa. A aposentadoria da petista foi feita a toque de caixa, passando por cima de outros 400 mil pedidos de aposentadoria. Como se trata de uma ex-presidente, o caso reveste-se de certa gravidade.

No dia 31 de agosto de 2016, o Senado cassou o mandato de Dilma Rous­seff e, no dia seguinte, 1º de setembro, “o ex-ministro da Previ­dên­cia Carlos Gabas e uma secretária pessoal da ex-presidente Dilma Rousseff entraram pela porta dos fundos de uma agência da Previdência na Asa Sul, em Brasília. O que o ex-ministro da Previdência faria ali? Vasculhando o sistema do INSS, um grupo de servidores logo descobriu algo errado: no intervalo de poucos minutos que o ex-ministro e a secretária de Dilma estiveram na agência, o processo de aposentadoria da ex-presidente foi aberto no sistema e concluído sigilosamente. Graças ao lobby de Gabas e a presença da secretária, que tinha procuração para assinar a papelada em nome da petista, em poucos minutos, Dilma deixou a condição de recém-desempregada para furar a fila de milhares de brasileiros e tornar-se aposentada com o salário máximo de 5.189 reais”, revela a revista “Veja”, baseada em sindicância do governo federal.

Se a informação não é falsa — ao contrário, é verdadeira —, do que Dilma Rousseff reclama? No lugar de discutir a “jogada” de Carlos Gabas e da servidora Fernanda Doerl, do INSS, “que manipulou irregularmente o sistema do INSS para regularizar o cadastro da petista”, segundo a “Veja”, a ex-presidente prefere atacar a revista.

A “Veja” prestou um serviço ao mostrar como agem os poderosos, inclusive os que se consideram éticos. Ética, no Brasil, é para os outros — não para nós. Mas há motivo para continuar “mastigando” a história — que, comparada com outros casos escabrosos, é frango de granja — com o objetivo de depreciar Dilma Rousseff? Não há. Pois, quanto à aposentadoria em si, não há o que discutir. Aos 68 anos e quase 37 anos de serviços prestados, Dilma Rousseff tem o direito de se aposentar e receber 5 mil reais por mês.

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And

OS 70 mil de penduricalhos somados ao salário para driblar a lei do teto não existem neh?

Gutemberg

Quaisquer vencimentos acima do teto, deveriam ser devolvidos aos cofre PÚBLICOS, o que não acontece, eles, como “Juízes” deveria ser exemplos de honestidade… lamentável…

Claudia

Acho que o engano é seu. Veja o programa Roda Viva exibido dia 29/01/2018, pessoas extremamente confiáveis, não são estes divulgadores falsos de internet. Só quem compartilha notícias falsas, são pessoas interessadas em atacar adversários mais fortes e que não possuem argumentos.