O austríaco Adolf Hitler se tornou chanceler da Alemanha, em 1933, com amplo apoio das elites alemãs. E mesmo do povão. Logo depois, começou a perseguir os judeus. O físico Albert Einstein, ao perceber que corria risco, escapou para os Estados Unidos, em 1933.

Os judeus foram perseguidos e massacrados pelo governo nazista de Hitler. Seis milhões de judeus foram assassinados em campos de concentração e extermínio — e noutros lugares — pelo governo da Alemanha. É o que ficou conhecido como Holocausto.

Ante a perseguição dos nazistas, que planejavam liquidar todos os judeus europeus, se pudessem, Einstein denunciou o racismo e os crimes cometidos pelo governo de Hitler.

Porém, oito anos antes, em 1925, quando esteve no Brasil, Einstein demonstrou um comportamento racista. O livro “Os Diários de Viagem de Albert Einstein: América do Sul, 1925” contém palavras racistas do físico que formulou a Teoria da Relatividade. Editada pela Editora Record, com 288 páginas, a obra foi organizada por Ze’ev Rosenkranz. A tradução é de Alessandra Bonrruquer.

Convidado, Einstein decidiu viajar pela América do Sul — Argentina, Brasil e Uruguai —, em 1925. Mas sem nenhum entusiasmo. Ele escreveu para um amigo: “Não tenho vontade de encontrar índios semiaculturados usando smoking”. Acabou viajando para atender os rogos das comunidades científicas e judaicas dos países latino-americanos. Havia outra razão, de ordem pessoal: o cientista queria ficar longe de sua secretária, que era sua amante.

O diretor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Aloysio de Castro, recebeu Einstein de maneira cortês e respeitosa. No entanto, no seu diário, o físico escreveu sobre o professor: “Legítimo macaco”. Na época, como se sabe, inclusive pelas pesquisas de Oswaldo Cruz (especializado no Instituto Pasteur, na França) — que debelou epidemias no país —, o Brasil já tinha um corpo de cientistas respeitável, o que o cientista alemão optou por não registrar no seu diário.

Numa entrevista ao repórter Diogo Bercito, da “Folha de S. Paulo”, o editor dos “Diários”, Ze’ev Rosenkranz, disse que os “escritos apresentam uma imagem mais complexa de Einstein, evidenciando seus limites”. Era, pelo que escreveu, adepto de “ideias do racismo científico” em voga na década de 1920 (e depois).

Ze’ev Rosenkranz: organizador dos diários de Einstein | Foto: Reprodução

Einstein circulou pela Argentina, pelo Uruguai e pelo Brasil, de março a maio de 1925. No diário, um caderno pautado, registrou as ocorrências e impressões. A história dele pelado — no quarto do hotel, vasculhando a natureza — é no mínimo curiosa. Ele apreciou (ou não) “a vista da baía, com incontáveis ilhas rochosas, verdes e parcialmente desnudas” (como ele, claro).

Diogo Bercito aponta que Einstein sugeriu que “o clima tinha afetado de maneira negativa as habilidades cognitivas dos brasileiros. Tinham sido ‘amolecidos pelos trópicos’, nas suas palavras”.

Ze’ev Rosenkranz sublinha que “o racismo é parte de sua visão biológica do mundo”. O pesquisador diz que Einstein, embora vivendo no século 20, era “um homem do século 19”. O que, claro, não é justificativa para racismo… senão todos seriam racistas. (Einstein nasceu em 1879 e morreu em 1955. Viveu 21 anos no século 19 e 55 anos no século 20.)

Na década de 1920, no período da visita de Einstein, vários cientistas brasileiros, seguidores do positivismo, eram contrários à Teoria da Relatividade. Entre seus defensores estava o matemático Manuel Amoroso Costa.

Quando estava se preparando para ir embora do Brasil, no dia 11 de maio de 1925, Einstein viu um filme sobre o marechal Cândido Rondon. Tempos depois, indicou o militar e sertanista brasileiro para o Prêmio Nobel da Paz.

Depois de um jantar com o embaixador alemão no Brasil, Einstein escreveu no Diário: “Finalmente livre”. A insatisfação se tornava satisfação porque estava “escapando” dos trópicos “selvagens”.

Como disse um personagem do filme “Quanto Mais Quente Melhor”, de Billy Wilder, “ninguém é perfeito”. Einstein, ao contrário de Hitler e Stálin, não era um monstro. Era um homem do bem com, às vezes, ideias preconceituosas. Ideias que levaram o nazismo a fazer o que fez: matar judeus, ciganos, eslavos, testemunhas de Jeová, homossexuais e adversários políticos. Portanto, não há racismo “bom”, ainda que veiculado por um homem respeitável como o físico alemão.