Euler de França Belém
Euler de França Belém

Sai em português a poesia de Lezama Lima, o maior escritor cubano

Com tradução de Adriana Lisboa e Mariana Ianelli, a antologia poética é publicada pelo selo Demônio Negro

Pense em Guimarães Rosa (e, claro, Machado de Assis, espécie de pai-fundador da literatura patropi de alta calibragem). Pensou? Pois Cuba, uma ilha menor do que Goiás, tem o seu “anjo” Rosa (claro, as formas da escritura não são equivalentes): o gigante José Lezama Lima (1910-1976), autor de “Paradiso” (Estação Liberdade, 612 páginas), o mais importante romance da história da literatura do país de Cabrera Infante, Alejo Carpentier, Virgilio Piñera, Severo Sarduy e, entre tantos, Leonardo Padura. É um livro que fica de pé e não pede bênção para “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, “Ulysses”, de James Joyce, “O Som e a Fúria”, de William Faulkner, “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, e, voilà, “Grande Sertão:Veredas”, de João Guimaraes Rosa.

Lezama Lima: poeta, prosador e crítico cubano | Foto: Reprodução

O leitor brasileiro tem uma sorte infinita: “Paradiso” chegou às suas mãos numa tradução escorreita de Josely Vianna Baptista. A tradução é tão boa, dialoga tão bem com o original, que, aqui e ali, fica-se com a impressão de que Lezama Lima escrevia não em espanhol, e sim em português. Sua linguagem barroca — e para além do barroco — brilha intensamente na língua de Graciliano Ramos e Clarice Lispector.

Pois é: se se tem “Paradiso” (entre otras cositas), o que falta? A poesia finíssima de Lezama Lima.

Não falta mais. Chega em março, pelo selo Demônio Negro, “Dupla Noite — Antologia Poética”, com seleção e tradução de Adriana Lisboa e Mariana Ianelli.

Leia o que Mariana Ianelli escreveu no Facebook

Mariana Ianelli: uma das tradutoras de  Lezama Lima | Foto: Facebook

“Uma beleza no horizonte. Primeira antologia poética de José Lezama Lima no Brasil, chegando em março, pela Demônio Negro. Tão bonito, feliz e cheio de sentido esse livro agora se materializando, depois de anos de intenso trabalho ao lado de Adriana Lisboa.

“Estão contemplados nessa seleta afetiva cinquenta anos de criação do poeta cubano em poemas representativos de sua trajetória, além de poemas da admiração e da amizade que Lezama dedicou a pessoas do seu convívio íntimo, intelectual e literário.

“A antologia (bilíngue) conta também com um posfácio do cineasta e artista cubano Marcel Beltrán e um texto introdutório a quatro mãos, meu e da Adriana Lisboa.

“O lançamento virtual acontece no final de março, mas já é possível reservar um exemplar pelo site da editora: www.demonionegro.com.br”. Não sei você, leitor. Mas eu já estou pedindo o meu exemplar. Porque é um dos grandes lançamentos editorais de 2022. Um portento literário.

Lezama Lima: poeta, prosador e ensaísta

Ensaios de Lezama Lima, com tradução de Josely Vianna Baptista | Foto: Jornal Opção

Ah, sim, no título deste texto se diz que Lezama Lima é o maior escritor cubano. De fato, é. Mas não dá para ignorar a qualidade literária de Alejo Carpentier e Guillermo Cabrera Infante, é claro. Claríssimo. Mas veja que curioso: o escritor cubano que mais li é Severo Sarduy, por ter sua obra completa, em espanhol. O autor morreu em 1993, aos 56 anos. Deles, o que mais me diverte, por sua ironia fina, é Cabrera Infante (que chega a debochar do grande Carpentier). Mas o que me encanta mesmo, como poeta e prosador, além de ensaísta, é Lezama Lima.

Ah, que tu escapes

Lezama Lima

Ah, que tú escapes en el instante

en el que ya habías alcanzado tu definición mejor.

Ah, mi amiga, que tú no quieras crer

las perguntas e esa estrella recién cortada,

que va mojando sus puntas en otra estrella enemiga.

Ah, si pudiera ser certo que a la hora del baño,

cuando en una misma agua discursiva

se baña el inmóvil paisagem y los animales más finos:

antílopes, serpientes de passos breves, de pasos evaporado,

parecen entre sueños, sin ânsias levantar

los más extensos cabelos y el agua más recordada.

Ah, mi amiga, si en el puro mármol de los adioses

hubieras desejado dejado la estatua que nos podia acompanhar,

pues el viento, el viento gracioso,

se extiende como um gato para dejarse definir.

(De “Enemigo Rumor”)

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