Euler de França Belém
Euler de França Belém

Sai a biografia do guerrilheiro gay Herbert Daniel, aliado do capitão do Exército Carlos Lamarca

Na década de 1960, o integrante da VPR lutou para derrubar a ditadura civil-militar 

Foto: Reprodução

“Revolucionário e Gay: A Extraordinária Vida de Herbert Daniel — Pioneiro na Luta Pela Democracia, Diversidade e Inclusão” (Civilização Brasileira, 378 páginas, tradução de Marilia Sette Câmara), do brasilianista James N. Green, é mais um livro que, por certo, contribui para o entendimento da luta contra a ditadura civil-militar e de outras batalhas do pós-ditadura.

O livro está previsto para ser lançado na primeira quinzena de agosto deste ano. Mas já figura nos sites das principais livrarias. Há uma sinopse, possivelmente produzida pela editora, que transcrevo na íntegra abaixo. A vida do mineiro Herbert Eustáquio de Carvalho, o Herbert Daniel — que morreu em março de 1992, aos 45 anos — é mesmo, como assinala o título do livro, “extraordinária”, dado o fato de que era um revolucionário político e, digamos, comportamental. Lutou pela revolução comunista e, mais tarde, pelos direitos dos gays.

Mas a publicidade do livro repete um velho clichê da esquerda: Herbert Daniel, como seus companheiros de guerrilha, como o capitão do Exército Carlos Lamarca, teria sido “um importante personagem na luta pela democracia”.  É provável que, mais tarde, o jovem político tenha se tornado um baluarte da batalha pela democracia. Mas, entre as décadas de 1960 e 1970, a esquerda revolucionária, como a VAR-Palmares, a VPR, a ALN e o PC do B, não lutava pela redemocratização do país — tarefa que cabia, isto sim, ao MDB, quase sempre subestimado pelos historiadores acadêmicos. Os guerrilheiros lutavam contra uma ditadura, a civil-militar, para substitui-la por outra ditadura, a “dos” proletários. Seus modelos não eram a França, a Inglaterra, o Japão, a Suécia e os Estados Unidos, nações de fato democráticas, e sim Cuba, a China e a Albânia, países que viviam sob ditaduras implacáveis com os dissidentes (e até com não-dissidentes que, para efeito de combate político, eram apresentados como dissidentes).

O que escrevi acima não tem o objetivo de diminuir a “importância” de Herbert Daniel, um personagem, mais contraditório e nuançado do que o esquerdista tradicional — quase sempre rígido em termos de comportamento —, que vale mesmo uma biografia. Já critiquei o americano James N. Green, na resenha a outro livro de sua autoria, mas trata-se de um pesquisador sério e, no geral, equilibrado.

Sinopse da editora

“Uma vida dedicada à luta por um país mais igualitário e digno para todas as pessoas. Herbert Daniel foi um importante personagem na luta pela democracia. Na juventude, em meados de 1960, integrou grupos políticos de esquerda, como o Polop, Colina, VAR-P e a VPR, da qual foi um dos líderes, ao lado do comandante Carlos Lamarca.

“Mas a atuação revolucionária no campo político, contrastava com a repressão de sua homossexualidade, que sentia como um ‘exílio interno’, como descreveu depois. Apenas em seu segundo exílio, na Europa, na década de 1970, foi capaz de assumir o relacionamento com o homem que se tornaria seu companheiro e o amor de sua vida, Cláudio Mesquita.

“Um dos últimos brasileiros a serem anistiados, ao retornar ao Brasil em 1981, engajou-se na política eleitoral e no ativismo em defesa do meio ambiente e dos direitos das mulheres, dos homossexuais e da população negra e indígena. Foi ele também um dos responsáveis por articular em todo o país o movimento pela garantia dos direitos de pessoas que vivem com HIV/aids— ação que lhe deu reconhecimento internacional. Faleceu em decorrência de complicações causadas pela Aids, em 1992.

“Herbert Daniel aparece como uma ponte vital que liga antigos revolucionários e novos ativistas de movimentos sociais. Neste livro, o historiador James N. Green apresenta a vida dessa extraordinária e incansável figura, que se dedicou a tornar o mundo melhor e mais digno para todos. Ao mesmo tempo, o autor oferece detalhes sobre como os grupos revolucionários contra o regime militar se articulavam, como era a vida durante a ditadura — no Brasil e no exterior — e como se deu e o que estava em jogo nos processos de anistia e abertura democrática.”

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.