Euler de França Belém
Euler de França Belém

Sai a biografia de Mário de Andrade escrita por Jason Tércio

Mário de Andrade deve ser visto como poeta, prosador, crítico, orientador cultural e pensador

Sai finalmente a grande biografia de Mário de Andrade, de autoria do escritor e jornalista Jason Tércio. “Biografia de Mário de Andrade — Em Busca da Alma Brasileira” (Estação Brasil, 544 páginas) só tem uma coisa que não é agradável: o preço — R$ 79,90 (a obra já pode ser pedida nos sites das melhores livrarias do país). Mas, conhecendo a capacidade de pesquisa do autor e a maneira como conecta fatos e os interpreta, certamente o livro vale… até mais.

Mário de Andrade é um autor que pede mais biografias — porque, como ele própria admitia, era múltiplo (por isso está sempre sendo redescoberto). Quiçá trezentos e cincoenta. Talvez milhares. Não à toa um pesquisador estrangeiro ousou e o comparou a T. S. Eliot. Deveria comparado também com Ezra Pound (que “editor” Eliot e James Joyce).

O livro de Jason Tércio possivelmente será um bíblia sobre o autor de “Pauliceia Desvairada”, poesia, e “Macunaíma”, prosa (romance). E o será provavelmente a respeito de vários temas e os vários Mários de Andrades.

1 — Mário de Andrade era gay? Talvez fosse. Quem sabe bissexual ou panssexual? Vivia grandes paixões…

2 — Era prosador e poeta? Do primeiro time. A turma adicta a Oswald de Andrade procura rebaixá-lo. Mas é pura lorota, incentivada pelos concretistas (espécie de ditadura civil da literatura tropiniquim). Mário de Andrade é imenso… por isso sua obra literária (e, até, sua vida) é tão escarafunchada pelos discípulos de Telê Ancona Lopez.

3 — Foi o orientador cultural informal de uma geração? Sim. Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino e Pedro Nava, para arrolar apenas três — um poeta, um prosador e um memorialista —, beberam nas dicas sábias do intelectual chave da Semana de Arte Moderna de 1922. De algum modo, o bardo paulista ajudou a turma a refinar suas prosas e poesias.

4 — A Semana de Arte Moderna de 1922 deveria ser chamada de Semana de Arte Moderna Mário de Andrade de 1922? É provável. Sem o prosador e poeta, não teria sido Semana, e sim algo assim: “Dois Dias de Arte Moderna”.

Mário de Andrade: craque em várias áreas

4 — Era pianista. Não era um Nelson Freire, é claro. Mas era pianista e professor de piano.

5 — Era um gestor cultural de primeira linha? Era, sim. Um trabalhador incansável. Nem sempre bem compreendido, mas um intelectual que colocava a cultura acima, bem acima, das picuinhas nada celestiais do Bananão às vezes varonil.

6 — Pode ser visto como pesquisador da música patropi? Claro que pode. Dos mais extraordinários.

7 — Mário de Andrade soube impulsionar as artes plásticas, por exemplo, das pintoras Tarsila do Amaral e Anita Malfatti? Totalmente.

8 — A obra de Mário de Andrade, assim como sua crítica, continua, aqui e não só ali, um projeto de país. Sim, o escritor buscou reinventar uma língua brasileira — o que, de certa forma, é uma reinvenção do Brasil. O escritor precisa ser visto como um dos pensadores do país. Um pensador da cultura, diga-se.

9 — Mário de Andrade era o rei das cartas? Todo escritor que importava — e ainda importa —, de seu tempo, carteou com o paulista. O escritor dava orientações de graça, com ampla empatia e discernimento crítico.

10 — Mário de Andrade era crítico? Era. Dos bons. Sua orientação é uma crítica severa e, quase sempre, empática.

11 — Mário de Andrade foi um dos grandes autores brasileiros a manter contato com escritores da América do Sul. Mais recentemente, o Brasil, de olho na Europa e nos Estados Unidos, deu as costas à América Latina. O escritor, pelo contrário, mantinha contatos com autores dos países vizinhos.

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