Euler de França Belém
Euler de França Belém

Ruth Rendell, grande dama do romance policial, tinha uma regularidade literária impressionante

Se eu tivesse duas vidas, uma seria dedicada à leitura de literatura (a chamada alta literatura), de história e de filosofia. A outra seria reservada para a leitura de romances policiais. Embora vista como “subespécie” da grande literatura, como se fosse uma arte do segundo time — ou nem arte, e sim apenas entretenimento —, a literatura policial é, no geral, de alta qualidade. Com acerto, costumam citar como de nível inquestionável Edgar Allan Poe, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Georges Simenon, James M. Cain, David Goodis, James Ellroy, Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Rex Stout, Dennis Lehane, Lawrence Block e John Dunning. Uma lista de primeira, sem dúvida, mas fica um pouco mais pobre se não incluir escritoras excelentes como Agatha Christie, Patrícia Highsmith, P. D. James e Ruth Rendell, o quarteto fantástico, Patricia Cornwell, Minette Walters e Andrea H. Japp. A prosa policial tem uma lógica implacável e uma arquitetura delineada com precisão. Escritores iniciantes, se quiserem aprender como se arma e se elabora uma história, deveriam ler, com lupa e caneta na mão, os clássicos policiais. Não há oficina literária mais instrutiva.

No sábado, 2, morreu uma das grandes damas do crime, quer dizer, da literatura policial: a inglesa Ruth Rendell, de 85 anos. Ela havia sofrido um acidente vascular cerebral em janeiro e estava internada.

Apontada como rainha dos thrillers psicológicos, Ruth Rendell era, acima de tudo, uma autora de uma prosa refinada, exata, e, ao mesmo tempo, rica em vieses, em nuances. Seus livros parecem perfeitos — tal a precisão milimétrica.

Pode-se dizer que, embora Ruth Rendell tenha escrito uma literatura popular, ou relativamente popular, se for incluída entre os grandes autores, não os chamados inventores, como James Joyce, William Faulkner e Guimarães Rosa, ninguém fará cara feia, exceto os críticos intransigentes e academicistas. Características dos livros de P. D. James, Patricia Higsmith e Ruth Rendell são, além da precisão, da lógica irretorquível, a qualidade literária e a construção de personagens consistentes. Os enredos, mesmo quando aparentemente ilógicos, têm uma amarração extraordinária. Ninguém “segura” o leitor tão bem quanto os autores de romances policiais. Ruth Rendell era uma mestre em fisgar o leitor e torná-lo seu escravo durante toda a leitura dos romances. Ninguém, em sã consciência, larga um livro da autora pela metade. Mais: procura terminá-lo rapidamente.

A literatura de Ruth Rendell tem uma regularidade que impressiona. Seus livros em geral são bons ou, no mínimo, razoáveis. Nunca ruins.

O inspetor Reginald (Reg) Wexford, principal personagem de Ruth Rendell, não fica nada a dever aos grandes personagens literários. Aliás, de tão vivo, de tão próximo de nós, fica-se com a impressão de que é um personagem histórico, de que existe na vida real. A magia literária de Ruth Rendell é tão intensa que às vezes o leitor fica com a impressão de que está acompanhando a história no momento mesmo em que ela está acontecendo.

“As pessoas gostam de meus livros porque estão ligados ao personagem de Reg Wexford. Sua vida, sua família, que foram construídas ao longo dos livros, apaixonam os leitores. Se você pensar bem, as histórias mais populares no mundo são as que contam o destino das famílias, os destinos do homem que evolui dentro de uma comunidade”, disse Ruth Rendell.

Uma curiosidade: Ruth Rendell era apreciadora da literatura da americana Donna Tartt, autora de “O Pintassilgo”.

 

Livros de Ruth Rendell editados no Brasil

O leitor brasileiro tem sorte: Ruth Rendell é um dos escritores mais traduzidos no país. Confira uma lista de alguns seus livros, que podem ser encontrados nas livrarias e sebos.

A Árvore das Mãos

A Dama de Honra

A Hora do Lobo

A Morte é Minha Amante

A Verdade Através da Névoa

Amor e Morte

As Máscaras de Morte

As Pedras do Caminho

Carne Trêmula

Feitiço Mortal

Herança de Sangue

Lágrimas

Mais Forte Que a Morte

Não Fale com Estranhos

Noturno Para Margaret

O Creme do Crime

O Gafanhoto

O Lago das Sombras

O Livro de Asta

O Tapete do Rei Salomão

Sem Perdão

Simisola

Um Assassino Entre Nós

Um Bando de Corvos

Uma Agulha Para o Diabo

Uma Despedida Para Sempre

Vamos Passear no Bosque

 

Almodóvar e Chabrol levaram Ruth Rendell ao cinema

O romance “Carne Trêmula”, de Ruth Rendell, foi levado ao cinema, de modo bem-sucedido, pelo diretor espanhol Pedro Almodóvar.

O francês Claude Chabrol adaptou “Analfabeta” com o título de “La Cérémonie” (“Mulheres Diabólicas”, em português).

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Chico Lopes

Concordo com tudo. Prolífera, Rendell escrevia sempre muito bem. Vários livros dela tornaram-se quase clássicos para mim, como Feitiço Mortal, Um bando de corvos, Carne viva, Não fale com estranhos, Simisola (relato de um impressionante caso de escravidão na Inglaterra contemporânea). Acho-a superior a Agatha, que, com seu talento, nunca saiu mentalmente de uma certa Inglaterra ideal, xenofóbica, classista demais para meu gosto. Ruth tinha antenas para a vida inglesa atual, sempre pinçando temas fortes e polêmicos e nos dando o prazer de narrativas ótimas. Quanto às adaptações para o cinema, as duas melhores foram “Mulheres diabólicas” e “Dama de… Leia mais