Euler de França Belém
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Rubens Ricupero diz que Abraham Weintraub não deve assumir cargo no Banco Mundial

O diplomata afirma que prefeitos e governadores brasileiros podem ser prejudicados pela incompetência do ex-ministro da Educação

O diplomata Rubens Ricupero, de 83 anos, é autor do livro “A Diplomacia na Construção do Brasil — 1750-2016” (Versal Editores, 724 páginas), que, a despeito da especificidade do título, é uma história do país de alta qualidade. Ex-ministro do Meio Ambiente e da Fazenda, ex-embaixador nos Estados Unidos e na Itália, trata-se de um homem “do” mundo, que sabe das coisas. Pois este indivíduo, experimentado, diz, numa entrevista a André Siqueira, de “O Globo”, que o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub não está preparado para assumir a 15ª Diretoria Executiva do Banco Mundial.

Mais de 50 signatários assinaram uma carta na qual solicitam que o Banco Mundial “e os embaixadores dos países responsáveis por referendar a escolha rejeitem o nome escolhido pelo governo de Jair Bolsonaro”. Entre os assinantes estão Rubens Ricupero, a antropóloga Lília Moritz Schwarcz, o economista Ricardo Henriques, o empresário Philip Yang e entidades como a Conectas Direitos Humanos e a US Network for Democracy in Brazil.

Rubens Ricupero: diretoria do Banco Mundial não é lugar para militantes | Foto: Reprodução

É possível que Bolsonaro não tenha noção da importância do cargo no Banco Mundial e esteja oferecendo-o para Weintraub como “compensação” por ter sido exonerado do Ministério da Educação. Não à toa parte da equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, receia que o ex-ministro prejudique o país. Inquirido pelo “Globo” sobre a indicação de Weintraub, Ricupero é enfático: “É inacreditável e lamentável que o governo mande para lá gente como esse Weintraub. Este posto sempre foi ocupado por gente de valor, economistas muito qualificados, como Pedro Malan [ministro da Fazenda do governo FHC]. Com essa nomeação, se destrói pouco do que já tinha sobrado da credibilidade externa do Brasil. A credibilidade relacionada à parte política, de meio ambiente, direitos humanos, não existe mais por conta da atuação olavista do Itamaraty. Mas ainda restava um pouco de prestígio nessas organizações mais técnicas, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Com a nomeação desde indivíduo, até isso vai por água abaixo”.

A nomeação de Weintraub pode gerar consequências negativas para o Brasil? Ricupero afirma que “sim”. “Cria-se um cenário grave, porque o Banco Mundial é um grande financiador, é uma fonte importante de recursos [para Estados e municípios]. Em 1993, quando fui ministro do Meio Ambiente, quase todo o dinheiro que tínhamos era proveniente de um crédito com o Banco Mundial. Ou seja, governadores e prefeitos ficarão na mão de um sujeito incompetente.”

Representante do Banco Mundial é do Brasil e não do governo federal

Ricupero frisa que, “para muitos governos estaduais e municipais, o Banco Mundial é absolutamente essencial. Que canal de interlocução terão com Weintraub estando lá? Imagine um governador do Nordeste, como Flávio Dino [do PC do B], do Maranhão. Ele vai esperar ser atendido pelo diretor do banco? Este é o perigo de ter um militante no cargo. Nestes postos, é vital que haja alguém objetivo e neutro. O representante do Banco Mundial é do Brasil e não do governo federal. Quando se coloca ali um fanático de extrema-direita, teremos muitos problemas”.

Abraham Weintraub: cotado para disputar o governo de São Paulo | Foto: Reprodução

O Senado precisa aprovar a indicação de um embaixador, o que não ocorre no caso de um diretor para o Banco Mundial. “Mas ser diretor do FMI, do Banco Mundial, é incomparavelmente mais importante do que 90% das embaixadas brasileiras no exterior. Não são muitas as embaixadas que são mais vitais que o posto do banco”, diz Ricupero. Cabe a aprovação de uma Lei Weintraub, quer dizer, uma lei para tentar impedir que uma pessoa incompetente assuma o cargo? O diplomata não fala sobre o assunto. Mas está aí uma pauta para o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.

Apesar da resistência, Weintraub tende a ser aprovado para receber mais de 100 mil reais por mês (1,3 milhão por ano)? É provável. “Os países responsáveis pela aceitação, ou não, são pequenos, como Haiti, Trinidad Tobago [além de Colômbia, Filipinas, Equador, República Dominicana, Panamá, Suriname]. Por isso, acabam não criando caso. A não ser que se crie problema por causa das posições de Weintraub. Em anos recentes, o Banco Mundial abriu muitos canais com ONGs, com a sociedade civil, em temas como direitos humanos, povos indígenas. Isso é muito presente nos Estados Unidos”, relata Ricupero.

A imagem do Brasil no exterior, segundo Ricupero, está na “lama” e pode “piorar”. “Se Weintraub se comportar lá como se comportou aqui, dizendo que tem ódio da expressão ‘povos indígenas’, não há outro caminho que não seja a deterioração da imagem. Aqui ele diz isso e não acontece muita coisa, mas, se disser numa reunião do Banco Mundial, a repercussão será imensa.”

“O Brasil sempre defendeu ter peso maior nas decisões do banco, mas, para isso ocorrer, tem que haver competência. O prestígio é fruto direto da competência pessoal e técnica. Sabemos que esse homem [Weintraub] não tem competência em coisa alguma. Isso ele mesmo disse na reunião de 22 de abril. Ele é da militância, é um sujeito da militância da extrema-direita. O Banco Mundial não é lugar para isso”, sublinha Ricupero. “Mas também não sou capaz de dizer para onde ele deveria ser mandado.” Há sinais de que Weintraub, apoiado por dois filhos de Bolsonaro, o vereador Carlos e o deputado federal Eduardo Bolsonaro, planeja disputar o governo de São Paulo, em 2022.

Se criou problemas para o Brasil e para o governo de Bolsonaro, numa dimensão nacional, é possível que, baseado em Washington, vai criar problemas em escala internacional. É provável que liberais e conservadores brasileiros, os que têm de fato um ideário, um dia se arrependerão de ter apoiado Jair Bolsonaro para presidente da República. Pós-Bolsonaro, a direita tende a ficar com a imagem de “novo dinossauro” descoberto nos trópicos. A direita talvez descubra que seu adversário não é apenas a esquerda, mas também uma direita atrasada e passadista, como a que segue Bolsonaro.

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