Euler de França Belém
Euler de França Belém

Romance revela que, reencarnado, Hitler se tornou presidente do Brasil

O romance “Do Inferno ao Planalto” sugere que o ditador da Alemanha, ao contrário de se suicidar, virou presidente do Brasil

Quem frequenta as livrarias argentinas, como El Ateneo, a mais bela, e a Cuspide, além dos excelentes sebos, sabe: Adolf Hitler, o austríaco que se tornou ditador na Alemanha de Goethe, Heine, Thomas Mann, Bach, Brahms e Beethoven, não se suicidou em 1945, temendo ser capturado pelos Aliados, sobretudo pelos soviéticos, que considerava como “selvagens”. Não, é tudo mentira. O líder nazista mudou-se para a Argentina e morou em vários lugares, como Bariloche. Há livros que dizem isto com a maior cara de tacho e sem apresentar evidências documentais e testemunhos confiáveis. O que importa mesmo é vender, não é expor a verdade — que está, logicamente, nas biografias, como a obra-prima de Ian Kershaw, e nos livros de História, como os de Richard Evans, Andrew Roberts, Antony Beevor e Richard Overy. Para piorar — ou melhorar, sabe-se lá — as cousas, há quem acredite, e registre em reportagens nebulosas, que o marido de Eva Braun morou em Mato Grosso. Que fique claro que, embora nascido em Campo Grande, Jânio da Silva Quadros não se encontrou com o homem do bigodinho esquisito. O renuncista morou em Curitiba e, em 1947, já era vereador em São Paulo — com caspas e tudo mais, mas ainda sem a vassourinha. O gajo tinha 30 anos.

O problema, se problema é, dos livros dos argentinos — quase sempre jornalistas — é que se pretendem, os autores, sérios. Se fossem apresentados como ficcionais, não teria problema algum. A ficção negocia com a verdade, mas não é sua serva. A ficção pode inclusive mentir, contar o que não houve, e, quem sabe, o que poderia ter acontecido. Uma história alternativa. Philip Roth, no romance “Complô Contra a América”, especula sobre uma derrota de Roosevelt e uma vitória de Lindberg. Como teriam sido os Estados Unidos com um governo pró-fascista? A contra-história ou a a-história é sempre interessante, às vezes iluminando os escaninhos obscuros da história. O escritor brasileiro André L. Braga, de olho na história mas escrevendo ficção, publicou o romance “Do Inferno ao Planalto” (Chiado Book, 272 páginas).

Pois é: os argentinos não vão gostar, pois Hitler teria se escondido lá. Mas André L. Braga, na sua ficção, reencarna Hitler no Brasil. Na figura de filho do diabo, não se sabe se de Lúcifer ou de Belfagor (o conto de Maquiavel é dos mais interessáveis). Talvez os dois.

Nos alegres trópicos, Hitler se torna parlamentar, mas com um objetivo de longo prazo: ser presidente do Brasil. Sujeitinho convencido, não é? Mas convém notar que Jânio Quadros foi vereador em São Paulo.

André L. Braga: ficção como “análise” alternativa do presente?| Foto: Reprodução

Marcus Vinicius Bolsoy, depois de se tornar vereador, acaba chegando à Câmara dos Deputados. Na ilha da fantasia conhecida como Brasília, o suástico patropi apresenta tão-somente dois projetos — ambos rejeitados, quiçá por carência de conteúdo legal e de legitimidade. O romance conta que o majestoso político queria, por tudo, aprovar a cura gay. Mas não conseguiu.

O sobrenome Bolsoy talvez seja o senão do personagem. Apesar da advertência do autor, de que o romance é uma obra de ficção — “Doutor Fausto”, de Thomas Mann, é uma obra de ficção, mas é uma crítica corrosiva ao nazismo e ao artifício dos que pactuam com o poder para se tornarem grandes —, o Bolsoy não deixa nem o leitor pensar um tiquinho que seja.

Políticos, como os siameses Hitler e Bolsoy, precisam de contenciosos para crescerem. Sem adversários, que tratam como inimigos a serem destruídos, não se tornam impactantes. Pois Bolsoy logo arranja uma briga federal com a deputada Cláudia Salgado, relatora da Comissão Parlamentar de Direitos Humanos.

Brigando num dia e no outro também, e com o apoio da assessora de imprensa Priscila, Bolsoy, um outsider, decide se candidatar a presidente da República. Ninguém acreditava no arrivista, nem ele mesmo. Mas as circunstâncias eram favoráveis a um, digamos, salvador da pátria. O reaça entendeu que era sua vez: “E ali então nascia a lenda, o herói do povo. E o povo precisa de heróis, salvadores da pátria, que têm a coragem de dizer tudo aquilo que o povo quer ouvir, tudo aquilo que gostaria de falar, mas que sempre acaba engasgado na garganta, por falta de uma voz que os represente. E o povo precisa sentir-se representado”. Mais: “Ele deveria se tornar o herói solitário, que compreende os anseios de uma nação e busca o que é de direito ao cidadão de bem. Seu lema seria, a partir daquele momento e até sua eleição à Presidência, lutar pelo bem do Brasil, e por um Brasil para os homens de bem”, relata o romance.

Agora, o principal: a história de André L. Braga sustenta-se como literatura? Findado o tempo de Bolsoy, quando será lembrado talvez somente pelos historiadores e cientistas políticos, o romance continuará forte, vivo — como “Doutor Fausto”, por exemplo? Ainda não dá para saber. Mas tentar entender o presente, por meio da literatura, é também um exercício interessante.

Uma resposta para “Romance revela que, reencarnado, Hitler se tornou presidente do Brasil”

  1. Aline Cunha e Silva disse:

    Excelente livro, excelente escritor!

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