Euler de França Belém
Euler de França Belém

Romance revela que coronel mandou matar irmãos do publicitário Hugo Brockes

“A Vida Breve de Olga Tereza” é um livro que poderia ter sido escrito pelo russo Fiódor Dostoiévski. Trata-se de uma história real. Bernardo Sayão também não sai bem da história

O teste de um romance baseado em fatos reais é: resiste como literatura ou se trata de mera tentativa de reproduzir a realidade? “A Vida Breve de Olga Tereza”, baseado na vida da família do ex-guerrilheiro (barbaramente torturado no batalhão do Exército em Goiânia), publicitário (sócio de José Mário Cunha na extinta OM&B) e escritor Hugo Brockes e na história do coronelismo em Goiás, sobrevive como literatura. É obra de imaginação e os leitores, ao menos a maioria deles, certamente a entenderão assim. Leitores comuns buscam menos a história com “h” e mais a estória com “e”. O autor sabe, depois de tantas obras publicadas, que literatura é mimese, não é mero “transplante” da realidade para a ficção. Não é cópia. É história paralela, alternativa. A literatura baseada em histórias reais é uma “competidora” da história. Às vezes se torna uma fonte de iluminação da história.

O leitor que aprecia literatura vai encontrá-la. O leitor que busca histórias sobre coronelismo e personagens reais, as terá. O leitor que se interessa a um só tempo por história e literatura, pelo imbricamento entre as duas, não sairá descontente. A história não impede a fruição literária. E a literatura não falseia o entendimento da história.

De cara, é preciso notar a memória formidável de Hugo Brockes e, sobretudo, o que faz desta memória. O autor poderia ter construído uma história heroica, dignificante, a respeito de seus familiares — pais, Sigmund Langer (“fervoroso admirador de Adolf Hitler”, mas, na prática, um homem pacífico, criativo, mas nada astuto; preferia ser passado para trás a prejudicar alguém) e Maria Geny, e nove irmãos. Os Langer são vistos assim: “Desilu­didos retirantes do nada para o nada, vagando nos sonhos frustrantes, insípidos e malfazejos” (nota-se aí poesia extraída da dor). Pode-se di­zer que a história em si é heroica, resultado da luta para sobreviver no Cerrado num tempo de imensas dificuldades. Mas o autor não edifica heróis e suas personagens, pelas quais sente um carinho óbvio, são matizadas, apresentadas com virtudes e defeitos. São mais ricas exatamente porque não têm santidade. São humanas, contraditórias. E, frise-se, os indivíduos não são meros joguetes da história. Apesar de alguma impotência, e até de certo fatalismo, são agentes, sujeitos.

A história está presente no ro­mance. Há o registro da crueldade do coronelismo em Goiás. Um ho­mem poderoso mandou fazer uma sela especial para montar em pessoas. A história é verdadeira, mas soa como ficção, como realismo mágico. Cidades como Blumenau, em Santa Catarina, e, em Goiás, Pirenópolis, Anápolis e Ceres são mencionadas. Fala-se de ouro e rutilo e da criação de gado e da produção de arroz. Há os coronéis que tomam as terras das pessoas e as torturam e as matam. Em Dianópolis, o Duro, pessoas ligadas a Abílio Wolney foram assassinadas brutal e friamente. Totó Caiado mandava e desmandava. Fala-se da Guerra da Coreia, na qual os Estados Unidos se envolveram.

A família de Sigmund Langer (neto do biólogo e médico Fritz Müller, que manteve vasta correspondência com o cientista britânico Charles Darwin; as cartas trocadas entre os pesquisadores estão na Universidade Columbia, nos Estados Unidos) é uma das vítimas do coronelismo. Um dos coronéis está de olho nas suas terras. Como o patriarca não atende aos recados, para que as deixasse, patrocina-se um crime inominável. Uma macumbeira fere três crianças — Augusto, Gessy e Fritz — e passa carniça nos machucados, sabendo que infeccionariam. Os três meninos morreram, sob intensa agonia. Aí começa o que se pode nominar de derrocada da família. A esquizofrenia de Maria Geny (“o que lhe dói, o que ela jamais se acostumará é com a solidão do ermo”), a partir daí, agudiza-se. Mais tarde, sob as ordens do engenheiro Bernardo Sayão, visto como um homem glacial, o governo autoriza a ocupação de parte das terras dos Langer. A área foi utilizada para a instalação da Colônia Agrícola Nacional do Estado de Goiás.

O romance não é, porém, um mero registro da “maldade” dos coroneis, embora isto não possa ser ignorado, pois os Langer são afetados por suas ações. Na verdade, é a história do cotidiano de uma família de desbravadores de Goiás nos primeiros cinquenta anos do século 20. O Estado é apresentado como “rico, dadivoso e violento” e “a terra dos destemidos e dos facínoras”. O livro (um livro-vingador? Talvez seja mais um livro-purgador), como literatura, ganha corpo quando trata mais do cotidiano dos Langer do que da história dos coronéis. Aí ganha ares de tragédia grega no coração do Cer­rado. Uma história que certamente a­gradaria Fiódor Dostoiévski — com martírio e, ao final, alguma redenção.

“A Vida Breve de Olga Tereza”, um título que, de pronto, sintetiza a história, não é um romance experimental, ao estilo das obras de James Joyce (“Ulysses”), William Faulkner (“O Som e a Fúria”) e Guimarães Rosa (“Grande Sertão: Veredas”). A linguagem é moderna (e o texto não é, no geral, linear) — e o menino Hans lembra, não vagamente, o Huckleberry Finn de Mark Twain —, mas Hugo Brockes é, acima de tudo, um bom contador de histórias (um narrador), mais próximo de um, digamos, Thomas Mann. É um prosador tão categorizado que a história “agarra” o leitor, como se não quisesse soltá-lo até o término do romance.

Há a influência do realismo mágico, do realismo fantástico — tão caros a escritores latino-americanos, como o brasileiro José J. Veiga e, notadamente, o colombiano Gabriel García Márquez de “Cem Anos de Solidão”. A garota Olga Tereza “dialoga” com os pássaros por meio do canto. Quando ela solta a voz integra-se à natureza e os pássaros param para escutá-la ou cantam juntos. O cavalo Pronto e o burro Cabrito são “perspicazes” e “interagem” com os homens. Sigmund Langer, embora agnóstico, cultiva, depois de certos acontecimentos, o espiritismo. Há lugares “malditos”. É provável que o escritor esteja menos interessado em realismo mágico e sim, muito mais, em apresentar Olga Tereza como uma pessoa diferenciada, sensível e perceptiva. Ruiva, de olhos claros, Olga Tereza é bonita, mas não belíssima. Mas todos — menos a mãe, Maria Geny, que a maltrata — se encantam com suas maneiras agradáveis e sua integração à natureza.

A rigor, o romance não conta uma história, mas várias histórias, conectadas pela habilidade do narrador. Como de praxe, e apesar do título — que sugere, de imediato, uma tragédia —, o narrador vai desvelando os casos, quase causos, aos poucos, como se cada história fosse autônoma, uma espécie de romance composto de vários contos. Mas as histórias são costuradas e levam, afinal, a uma história, uma grande história, que, se adaptada para o cinema, dará um belo drama.

O que Hugo Brockes capta, com mestria, é a diversidade da vida, suas complexidades. Pode-se verificar que o romance toma posição em relação aos fatos, mas o que impera mesmo é a capacidade do autor para mostrar, mais do que demonstrar, como a vida é, como as coisas funcionam. Há julgamento moral, de fato, sobretudo na “condenação” dos poderosos. Mas o romance vai além disso. Muito além.

Romances tratam de paixões, amores e desamores. “A Vida Breve de Olga Tereza” relata casos de amores, por assim dizer, fraturados. O marido de Anna Langer, mãe de Sigmund, a abandona. A mãe de Maria Geny morre, deixando o marido desolado. Ela é adotada por uma família. Menina, aprende sobre o amor lendo romances de Alexandre Dumas, como “Os Três Mosqueteiros”, emprestados por Donana Brandão (vista como uma mulher dissoluta, tinha uma biblioteca), quiçá uma feminista que não se dava o nome de feminista. Ela assiste filmes, como “Sangue e Areia”, com os atores americanos Tyrone Power e Rita Hayworth. Sigmund, em viagem pela Europa em busca de recursos financeiros para seus negócios na área de mineração, apaixona-se por uma condessa inglesa. A paixão é correspondida, mas ela rejeita acompanhá-lo ao Brasil, por avaliar o país como selvagem, ou melhor, sem os confortos da vida moderna (o narrador está relatando a vida nos primórdios do século 20). Seu filho Sigmund Júnior namora uma jovem, mas, sem explicações, o relacionamento é rompido. Olga Tereza apaixona-se por um mandrião, que, depois de enganá-la, abandona-a.

Fernando Leite/Jornal Opção

A história dissecada por Hugo Brockes é dolorosa (mas o humor às vezes é introduzido com certa finura, quase sempre por meio de Hans, o menino levado que roubava, aplicava pequenos golpes e, aos 4 anos de idade, bebia). Os Langer conquistam o sertão, mas também são devorados, diria o “antropofágico” Oswald de Andrade, por ele. Fica-se com a impressão que a história esteve por anos presa no cérebro (“querendo” contá-la) e no coração (“tentando” segurá-la) do autor do romance. Resgatá-la, com o máximo de detalhes possíveis, é, de certa maneira, o fecho de uma vida. Uma espécie de cerimônia do adeus, diria Simone de Beauvoir.

As personagens principais são tão matizadas, com virtudes e defeitos tão conectados, que se torna difícil tratar um deles como herói do tipo clássico. Sigmund Langer é um grande personagem, talvez até heroico. Olga Tereza, que não viveu 20 anos, poderia ser uma heroína, como as personagens dos romances lidos por Maria Geny. Mas, como se tivesse vida própria, e é provável que tenha (não parece puro joguete do narrador), se recusa a ser uma heroína. Personagem tão mágica quanto trágica, Olga Tereza bebe formicida Tatu, depois de ter sido espancada pelo irmão Walter, um jovem brilhante (leitor do filósofo alemão Nietzsche, entre outros autores) com sérios problemas mentais. Rolf e Hans (parecidos com garotos de um filme de François Truffaut), meninos que contribuem para o sustento da família, são figuras heroicas, sobretudo Rolf, um menino-homem. A heroína em si é a história. A história toda.

Olga Tereza vive alegre, em contato com a natureza. Canta muito bem. Até o dia que aparece Sebastião, um homem mais velho, e a “ilude” (ou Olga Tereza deixa-se iludir). Ficam noivos, mas o único objetivo do velhaco era ter relações sexuais com a garota. (Os pássaros o atacam, advertindo tanto ele quanto a jovem.) Em seguida, a rejeita. Olga Tereza sente-se destruída, pois, depois de relutar, havia se apaixonado pelo malandro. Bebe formicida, pela segunda vez, e morre. Todos lamentam, inclusive os pássaros. O romance quase “para” quando o narrador conta a história do falecimento da garota. A vida perde a “harmonia”, o “ritmo”.

A morte de Olga Tereza poderia ter destruído a família, já tão desolada por outros fatos adversos. Na verdade, provoca uma espécie de renascimento dos Langer, que mudam-se para Curitiba, para viver com Herta, irmã de Hans.

“A Vida Breve de Olga Tereza” é um romance doloroso e, paradoxalmente, belo. À primeira vista, é apenas uma história lamentável, que poderia ter sido escrita por Dostoiévski, o de “Crime e Castigo” e, sobretudo, o de “Os Irmãos Karamázov”. Na verdade, acaba sendo uma história escrita com realismo e, ao mesmo tempo, certa candura. O livro sobre Olga Tereza é sobre o que somos, porque nos tornamos o que somos. É sobre como tentamos controlar nossas vidas, sobre como a história tenta nos controlar, mas, no final, a vida segue adiante, rebelde, sem controle, sem planejamento, e portanto mais rica. É um livro sobre a família Langer, mas poderia ser a história da família do leitor, acatando a especificidade de cada uma. “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, anotou, com perspicácia, o escritor russo Liev Tolstói no romance “Anna Kariênina” (Companhia das Letras, 840 páginas, tradução de Rubens Figueiredo). Hugo Brockes inscreve-se, na literatura brasileira, como um de seus grandes narradores. Mas o romance talvez seja o seu canto de cisne, e não exatamente pela idade do autor — 80 anos. Um psicanalista diria, por certo, que o romance é uma das mais longas sessões de análise da história. Quem sabe, quem sabe, quem sabe.

Serviço

O romance pode ser adquirido nas livrarias Leitura, no Goiânia Shopping, e Nobel, no shopping Bougainville, em Goiânia.

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