Euler de França Belém
Euler de França Belém

Romance de Ievguêni Zamiátin é uma crítica corrosiva do totalitarismo soviético

O escritor russo escreveu o livro em 1920 e só conseguiu publicá-lo, no exterior, em 1924. É uma obra proferia sobre o horror da sociedade totalitária

Os dois primeiros livros, escritos por um renomado historiador britânico, comentam a obra e a vida de Ievguêni Zamiátin, autor do romance “Nós”. O terceiro livro contém o conto “A Caverna”, com tradução direta do russo

Apesar de sua importância como escritor, o russo Ievguêni Zamiátin, que morreu em Paris aos 53 anos, tem sido publicado com parcimônia no Brasil. Seu romance mais conhecido, “Nós” (saiu primeiro em inglês, não em russo, em 1924), foi lançado por três editoras: GRD, em 1973, Anima, em 1983, e Alfa Ômega, em 2004. Agora, a versão em russo sairá pela Editora Aleph, sob a responsabilidade de Gabriela Soares da Silva. Na “Nova Antologia do Conto Russo —1792-1998” (Editora 34, 646 páginas), organizada por Bruno Barretto Gomide, há a tradução (feita por Mário Ramos, de maneira competente, a partir do russo) de “A Caverna”, de 1920.

Bruno Barretto sintetiza, de maneira precisa, a prosa do autor de “A Caverna”, tido como um de “seus melhores contos”: “Za­miátin jogou em sua ficção com a justaposição de tempos históricos distintos, analogias primitivistas e um tom geral apocalíptico, tudo isso vazado em uma linguagem experimental repleta de metáforas e imagens de choque”. Trecho inicial da tradução de Mário Ramos: “Geleiras, mamutes, desertos. Negros penhascos noturnos, se­melhantes a prédios. Nos pe­nhascos, cavernas. Ninguém sabe quem trombeteia, à noite, no desfiladeiro de pedra entre esses penhascos e, farejando o caminho, ergue uma branca poeira de neve: talvez, um mamute de tromba cinzenta, talvez, o vento. Ou talvez o próprio vento seja o rugido gelado de algum mamute mamutesco”.

No livro “Contos Russos — Os Clássicos” (Ediouro, 521 páginas), o escritor Lúcio Cardoso traduz o mesmo conto. A tradução provavelmente é do francês, mas, apesar de indireta, tem qualidade.

Ievguêni Zamiátin: prosador russo que confrontou a ditadura de Stálin


“Tenho medo”

Na introdução do romance “Nós”, na edição da Anima, há uma instrutiva introdução de Mirra Ginsburg. A autora começa citando a rebelde da história, que diz: “Não existe uma revolução final. As revoluções são infinitas” e “Não quero que ninguém queira por mim. Quero querer por mim mesma”.

Na Revolução de 1905, Za­mi­átin chegou a ser preso pelo czarismo. Tornou-se líder da Ir­man­dade (ou Irmãos) Serapião, que pregava a “liberdade de criação”, o “direito do artista de perseguir uma visão individual”, a “variedade”, as “experiências com a forma”.

Zamiátin escreveu uma espécie de credo no ensaio “Tenho medo”: “A verdadeira literatura só pode existir onde é criada, não por oficiais laboriosos e dignos de confiança, mas por loucos, ermitãos, heréticos, sonhadores, rebeldes e céticos”.

Em “Amanhã”, Zamiátin escreveu: “Aquele que encontrou hoje o seu ideal é como a mulher de Lot, já transformado em estátua de sal… O mundo só se mantém vivo graças aos heréticos”. Em “A meta”, criticou os comunistas que exigiam uma literatura subserviente: “A Revolução não precisa de cães que ‘se sentam’ a espera de um petisco ou porque temam o açoite. Precisa de escritores sem medo. O que importa é que o seu trabalho… perturbe o leitor ao invés de tranquilizar e embalar sua mente”.

“Nós”, diz Mitta Ginsburg, é “uma sátira cáustica sobre uma sociedade esquemática — donde necessariamente totalitária — escrita em 1920-1921”. O romance “não foi” aceito “para publicação”. Mas como, numa ditadura, publicar alguém que escreve: “Encilhamos o elemento outrora selvagem da poesia”.

Mitta Ginsburg assinala que “Nós”, uma crítica da sociedade controlada, “é muito mais do que uma obra política. É uma obra filosoficamente complexa de infinita sutileza e nuance, alusões e reflexões. É uma tragédia humana profundamente comovente, e um estudo da variedade de emoções humanas”.

“‘Nós’ é mais multifacetado, menos desesperador do que o ‘1984’ de Orwell. Apesar do final trágico, ‘Nós’ traz em si uma nota de esperança. Os que morreram, não foram destruídos como seres humanos — morreram lutando sem se submeter”, afirma Mitta Ginsburg. Apesar da crítica convincente, a impressão que tenho é outra: é provável que sobre “fé” na possibilidade de resistência, mesmo que os resultados sejam os piores possíveis, mas não há nenhuma crença de que é possível mudar a sociedade a partir da ordem estabelecida. Se há esperança, como sugere Mitta Ginsburg, tem a ver com a ideia de que é preciso superar a sociedade totalitária. A mensagem talvez seja, como sugere a crítica, esta mesma: “O homem não será destruído”.

Ievguêni Zamiátin: autor do romance “Nós” e do conto “A caverna”

Em 1931, com o apoio de Maksim Górki, Zamiátin escapou para Paris, escapando do Gulag certo. “Seus últimos anos transcorreram em grande solidão e privação. Morreu de doença cardíaca em 1937.” A imprensa soviética não noticiou o fato.

Orlando Figes

O historiador britânico Orlando Figes escreve, no livro “El Baile de Natacha — Una Historia Cultural Rusa” (Edhasa, 828 páginas, tradução de Eduardo Hojman): “A ficção científica de Zamiátin tomava elementos da tradição russa para desenvolver uma crítica humanista da utopia tecnológica soviética. Seu romance distópico ‘Nós’ tem muito de Dostoiévski em sua argumentação moral. O conflito central do romance, entre o Estado racional, provedor e altamente tecnologizado e a bela sedutora I-330, cuja desviante e irracional necessidade de liberdade ameaça subverter o poder daquele Estado absolutista, é uma continuação do discurso do ‘Grande Inquisidor’ e ‘Os Irmãos Karamázov’ sobre o interminável conflito entre as necessidades humanas de segurança e liberdade”.

Numa nota de rodapé, Orlando Fi­ges acrescenta: “É possível que o tí­tu­lo do romance ‘Nós’, de Zamiátin, tenha sido inspirado, ao menos em parte, em Dostoiévski, em particular nas palavras de Verjovensky e Sta­vro­gin (em “Os Demônios”) quando des­creve sua visão da futura ditadura revolucionária. Talvez de uma maneira mais ób­via, o título poderia ser uma referência ao culto revolucionário do coletivo”.

Orlando Figes revela que, em 1929, a Associação dos Escritores Proletários começou uma onda de ataques aos escritores que não se submetiam à linha do Partido Co­mu­nis­ta. Zamiátin e Pílniák eram difamados de maneira intensa. “Ambos autores haviam publicado obras no estrangeiro que foram censuradas na União Sovética: ‘Nós’, de Zamiátin, apareceu em Praga em 1927, e ‘Caoba’, de Pílniák, um amargo comentário sobre a decadência dos ideais revolucionários do Estado soviético, foi publicado em Berlim em 1929.”

No livro “A Tragédia de um Povo — A Revolução Russa: 1891-1924” (Record, 1103 páginas, tradução de Valéria Rodrigues), Orlando Figes assinala: “Em ‘A caverna’, Zamiátin descreveu a Petrogrado da guerra civil como um povoado da era glacial, habitado por trogloditas que cultuavam a ‘divindade das furnas’ — o fogareiro — e queimavam livros para se manterem aquecidos e vivos. O herói da história, Martin Martínitch, amante do opus 74, de Scriabin, vê-se forçado a roubar toras de madeira na vizinhança”.

“Nós”, afirma Orlando Figes, é um “pesadelo utópico”. “O romancista russo descreveu um mundo sob o domínio de entes robotizados — os ‘Nós’ — numerados e programados nos mínimos detalhes. A sátira pareceu tão perigosa que o livro foi proibido de circular, na Rússia, durante mais de 60 anos”.

Em “A Tragédia de um Povo”, Orlando Figes anota que, “quando Zamiátin escreveu ‘Nós’, existia uma Liga do Tempo, cujos 25 mil membros, distribuídos em 800 ramificações locais, mantinham um cartão em que anotavam co­mo haviam passado cada minuto do dia—7h, saí da cama; 7h01, fui ao banheiro. Os membros desta sociedade usavam imensos relógios de pulso. Intitulando-se ‘guardiões do tempo’, iam às fábricas e repartições, tentando evitar que os trabalhadores e funcionários desperdiçassem segundos preciosos”.

Pipes e Machado

No livro “A Voz da Rússia — Vida e Obra de Anna Akhmá­tova” (Algol Editora, 507 páginas), Lauro Machado Coelho, sublinha que “os dois primeiros escritores visados” pelo stalinismo “foram Ievguêni Zamiátin, que fizera uma caricatura da sociedade comunista em ‘My’ (‘Nós’), de 1924; e Boris Andrêievitch Pílniák, cujo ‘Krásnoie Diêrievo’ (‘O Pé de Mogno’), publicado na Alemanha em 1929, criticava a desintegração dos ideais socialistas e a corrupção durante a NEP”.

O historiador Richard Pipes, no livro “História Concisa da Revolução Russa” (Record, 403 páginas, tradução de T. Reis), destaca que “a ficção soviética, enfatizando a violência, procurou mostrar como a Revolução e a guerra civil haviam destruído antigos valores e costumes. Exemplo do romance antiutopia, ‘Nós’, de Zamiátin, retratava o mundo de pesadelo vislumbrado por [Aleksei] Gastev [metalúrgico e poeta]. Publicado no exterior, inspirou ‘1984’, de George Orwell.

Dmitri Volkogonov

O historiador e general russo Dmitri Volgonov, na biografia “Stálin — Triunfo e Tragédia: 1879-1939” (Nova Fronteira, 372 páginas), informa que Stálin “ficou perturbado com um artigo de Zamiátin, intitulado ‘Tenho medo’, publicado num pequeno jornal de Leningrado. Zamiátin recebeu permissão para deixar o país em 1932 [ou 1931]; ele foi para a França e nunca mais voltou; de lá, em carta a Stálin, disse que não poderia continuar escrevendo ‘atrás de grades’”.

“Guerra Fria e Política Edi­to­rial — A Trajetória da Edições GRD e a Campanha Antico­munista dos Es­tados Unidos no Brasil” (Eduem), de Laura de Oliveira, também menciona “Nós”.

Malcolm Bradbury e James McFarlane

O livro “Modernismo — Guia Geral” (Companhia das Letras, 556 páginas, tradução de Denise Bottmann), organizado por Malcolm Bradbury e James McFarlane, faz referências a Zamiátin. A obra contém ensaios de vários autores. No final do artigo “A poesia da cidade”, G. M. Hyde faz breve comentário sobre o escritor: “Quase um século depois de Púchkin, Maiakóvski enuncia uma reformulação marxista das aspirações iluministas. A cidade capitalista deve cair: seu lugar será ocupado pela comunidade socialista. Nenhum artista ainda construiu essa cidade, embora vários (por exemplo Zamiátin, em “Nós”) tenham satirizado a matemática de seu projeto”.

Donald Fanger, no texto “A cidade da ficção modernista russa”, anota: “O escritor russo, cuja responsabilidade moral para com o povo se afigurara central durante boa parte do século 19, no século 20 tornou-se artista: antes sincero e direto, agora era artificioso e engenhoso. A maioria dos grandes poetas fez experiência com a prosa — Biéli, Briussóv, Sologub, Pasternák, Kliebnikóv, Kuzmin, Mandelstam — e prosaístas como Remizóv, Bábel, Olesha, Zamiátin e Pílniák também procederam a experiência de natureza dificilmente menos radical”.

No mesmo ensaio, Fanger frisa que “na prosa, durante e após as mudanças de 1917, à sombra de uma efervescência poética ininterrompida, as tentativas mais sérias assumiram a forma de contos, quadros rápidos, fragmentos. Nessas formas mais curtas, dois admiráveis escritores, Óssip Mandelstam e Ievguêni Zamiátin, criaram dois epílogos memoráveis ao epitáfio de Biéli — numa época em que a própria São Petersburgo já fora rebatizada como Petrogrado e logo viria a se tornar Leningrado. (…) A prosa de Zamiátin, embora mais volumosa e variada, é de caracterização mais fácil, devido ao compromisso de princípio do autor com a inovação, com uma teoria da revolução permanente nas artes. Seu ensaio ‘Sobre literatura, revolução e entropia’ (1924) defende vigorosamente a heresia como ‘o único remédio (de gosto amargo) para a entropia do pensamento humano’”. Zamiátin escreveu: “A característica formal da literatura viva é igual à sua característica interna: a negação da verdade, isto é, a negação do que todos sabem e do que eu sabia até este momento. A literatura viva abandona os trilhos canônicos, abandona a estrada principal”. Fanger acrescenta: “A melhor arte de sua época (incluindo a sua) foi por ele batizada de ‘neo-realismo’ ou ‘sintetismo’, uma espécie de impressionismo moderno”.

Trecho do ensaio de Zamiátin: “As velhas descrições lentas e rangentes são coisas do passado: hoje a regra é a brevidade — mas toda palavra deve ser sobrecarregada, de alta voltagem. Devemos comprimir num único segundo o que antes cabia num minuto de sessenta segundos. E assim a sintaxe fica elíptica, volátil; as complexas pirâmides dos períodos são desmontadas pedra por pedra em frases independentes. Quando você se move depressa, o canonizado, o costumeiro ilude a visão: daí o simbolismo e o vocabulário inusuais, muitas vezes desconcertantes. A imagem é incisiva, sintética, com um único traço saliente. […] O léxico consagrado pelo costume foi invadido por regionalismos, neologismos, ciência, matemática, tecnologia”. Fanger assinala que “a obra do próprio Zamiátin ostenta todas essas características. Atendendo a uma sensibilidade menos complexa do que a de Mandelstam, apresenta uma técnica e uma concepção análogas às de uma obra gráfica tão magistral quanto a do pintor e retratista Iúri Annenkóv”.

Sobre o conto “A Caverna”, Fanger diz: “Esse esboço, estranho e impressionante no entrelaçamento de imagens da narrativa, representa um último comentário artístico sobre a natureza e o destino de São Petersburgo, através de um panorama de extinção glacial”.

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