Roma, declínio e queda, barbárie e religião

O texto de Gibbon transpõe em muito a fronteira entre as narrativas factual e ficcional — seu livro é história e, ao mesmo tempo, uma imensa obra literária

Halley Margon

Especial para o Jornal Opção, de Barcelona

Qualquer um que se lembre do prazer da leitura de “Lolita” (ver dois textos da semana passada e da anterior) com certeza terá se recordado também de um outro livro tão primorosamente escrito quanto traduzido: é claro que estou me referindo à obra-prima da historiografia “Declínio e Queda do Império Romano” (Companhia das Letras), de Edward Gibbon (1737-1794 — viveu 56 anos), e à tradução de José Paulo Paes.

Claro, “Declínio e Queda”, à diferença de Lolita, é uma narrativa não ficcional e nesse sentido o que nele deveria se buscar não é exatamente o gozo da leitura detectado na perfeição da escrita, e sim a precisão da informação, a profundidade da análise, o alcance do desvendamento dos fatos narrados. Ou nas palavras do próprio Gibbon: “Entre a multidão de fatos históricos, alguns existem, e são de longe a maioria, que nada mais provam além de sua condição de fatos. Há outros… cuja influência se estende pelo sistema todo e que estão correlacionados de modo tão íntimo a ponto de imprimir movimento às molas de ação”, e esses são muito raros. Ainda mais raro, prossegue, é encontrar quem “saiba distingui-los em meio ao vasto caos de acontecimentos a que estão confundidos para considerá-los em si, desentranhados do restante”.

Não resta dúvida que ele próprio tratará de cumprir com excelência a tarefa que desenha para o mister do historiador. E apenas por tanto já mereceria intensos aplausos. Ocorre que seu texto transpõe em muito essa fronteira fazendo de um livro que é de história ao mesmo tempo uma imensa obra literária. (E aqui seria criminoso não citar “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, onde o mesmíssimo e raro fenômeno se repete.)

Publicado no final do século 18, “Declínio e Queda” segue sendo um clássico da historiografia. Adam Smith, seu contemporâneo (A Riqueza das Nações foi publicado em 1776, mesmo ano da publicação do primeiro volume do Declínio…) escreveu a Gibbon dizendo que, “pela universal aquiescência de todos os homens de gosto e saber que conheço ou com os quais me correspondo”, seu livro o coloca  “à frente de toda a tribo literária atualmente existente na Europa”.

Edward Gibbon: historiador britânico que tinha vocação de escritor, quer dizer, era também escritor | Imagem: Reprodução

Confesso admirador das virtudes romanas (como diz o jornalista Dero Saunders na apresentação de 1952, ao contrário de “certos historiadores cuja estudada imparcialidade parece não passar de uma cortina” em  “Gibbon não há truques escondidos dentro da manga… suas predileções estão sempre à vista”), para ele a destruição da civilização romana é o resultado do avanço simultâneo dos bárbaros e da religião (do cristianismo).

A capital do império

Robert Hughes (e outros historiadores) diz que se “pensarmos numa população total de 1,4 milhões de pessoas na Roma de Trajano (98-117 d.C.), provavelmente não estaremos muito longe da verdade”. Cinco séculos depois, quando Constantinopla no auge “despontava como a cidade dominante da Europa”, sua população não ultrapassou meio milhão de habitantes. Menos da metade, portanto, dos que residiam na sede do império romano naqueles tempos de glória. Mas por então, no século VI, em plena decadência, já havia duas centúrias convertida ao monoteísmo cristão e após as invasões bárbaras, Roma não parava de perder interesse e população. Desmilinguia-se vertiginosamente.

Não há mais quem a deseje. Passa a ser depreciada e ridicularizada por todo o mundo onde antes era vista com admiração. Todos a abandonam tão breve quanto possam. Imperadores que atraíam a simpatia do mundo civilizado e passariam a posteridade pela equidade, sabedoria, cultura (como Adriano, Antonino ou Marco Aurélio, são substituídos  por figuras patéticas, risíveis quando não também cruéis e repugnantes. O mundo passa a rir de Roma e de seus mandatários.

Robert Hughes: pesquisador que escreveu livros sobre Roma e Barcelona | Foto: Reprodução

Alguns afirmam que em termos populacionais a cidade se viu reduzida às dimensões de uma vila com pouco mais de 50 mil habitantes. No século 16, segundo Gibbon, “não ultrapassava os 170 mil habitantes”. Em 1870 tinha pouco mais de duzentos mil. Mas enganou-se o historiador. A situação era muito pior. A população de Roma em meados do cinquecento, na verdade, era de pouco mais de 85 mil moradores.

A Roma dos irmãos Graco ou a de César era politeísta e diversa — mas também violenta e escravagista, como de resto todo o mundo antigo. Amava a diversidade. Constituía-se na diversidade. Sempre fora politeísta. Atraía gente e culturas do mundo todo. O fim da República não modificou esse fato fundamental da cultura romana. Também no Império, em Roma nunca houve espaço para a imposição de um único Deus – igual que na Grécia clássica, cuja cultura Roma nos seus melhores períodos não apenas cultuava como enriquecia. E assim permaneceria até os Antoninos ou um pouco depois. Lentamente, porém, o cristianismo vai limando suas arestas mais agudas, amenizando sua mensagem, deixando para trás sua fase plebeia cujas origens já estão bem distantes entre os esquecidos essênios. A pregação de Paulo cede lugar ao discurso de Pedro, os cristãos são incorporados à boa sociedade romana, e o cristianismo está quase pronto para ser a religião oficial do Estado. Logo se dará o casamento, para todo o sempre.

Para Gibbon o declínio e a queda da mais bem-sucedida organização social da antiguidade estava indissoluvelmente associado ao avanço da barbárie e da religião.

Outra forma de referir-se ao processo é dizendo que quando as tribos do norte começaram a penetrar o território do império a resistência com a qual se depararam foi a de um Estado que havia sido ocupado pela religião, uma sociedade cujas energias criativas tinham sido redirecionadas para o fanatismo e para a lamentação. O Império se desfez como um castelo de cartas. Carcomida por dentro, abatida e triste, tomada pela culpa, bandos de crentes lotam as ruas e os templos da cidade clamando de joelhos a presença da punição.

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Os costumeiros anunciadores do apocalipse, tão alertas aos sinais enviados pelos céus, frente à surpreendente praga vinda do oriente (comunista) curiosamente estão calados. Não exatamente calados, porque apelam insistentemente aos fiéis lançando bravatas contra a gravidade da pandemia, prometendo que o risco de contágio não precisa ser levado a sério. Cobram a desobediência civil contra as leis sanitárias (da própria Organização Mundial da Saúde) que ordenam o fechamento do comércio e o isolamento social, e sobretudo implorando que os fiéis não abandonem os templos.

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A subnotificação dos contagiados pelo coronavírus tem ocorrido desde o começo da pandemia, da China à Espanha. Na China, diz-se agora, houve manipulação e claro encobrimento dos dados reais, em outros lugares houve dificuldades no acerto quanto aos critérios a serem adotados e demora no ajuste dos dados. Mas, até onde se sabe, em nenhum país a subnotificação atingiu níveis tão gritantes quanto no Brasil.  Diga-se de passagem, virou rotina: de uns poucos anos para cá o Brasil só aparece no noticiário internacional com notícias negativas, quando não ridicularizantes. O fato é que essa subnotificação começa a chamar a atenção da imprensa internacional.

Por isso o “El País”, o principal jornal aqui da Espanha e um dos mais respeitados da Europa, publicou no começo da semana uma longa matéria sobre o assunto.

“Todos os países têm problemas de subnotificação de casos, mas existe o medo de que o problema no Brasil seja muito mais sério. Os problemas de saturação em hospitais e necrotérios, os 13.000 novos túmulos extras anunciados pela prefeitura de São Paulo e os poucos testes realizados indicam que o impacto da epidemia no Brasil é muito maior do que o que os números oficiais retratam.”

“Os casos reais podem ser 12 vezes mais do que os contabilizados”, continua o jornal, baseando sua estimativa num relatório recente “de um consórcio de universidades e institutos de pesquisa.”

Duas ou três semanas atrás a “Folha de S. Paulo” publicou um número que dava um pouco a dimensão da subnotificação. No mesmo período e espaço de tempo em que os Estados Unidos tinham aplicado 1.070 testes por grupo de 100 mil habitantes o Brasil tinha aplicado 29 testes por grupo de 100 mil habitantes. E o que não é menos importante, à política adotada pelo governo brasileiro interessa e muito essa subnotificação brutal. Porque desde o começo essa política se sustenta num enorme esforço não de conter a expansão do contágio, mas para convencer os brasileiros de uma estúpida superstição: a de que a pandemia não é mais que uma gripe passageira.

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