Euler de França Belém
Euler de França Belém

Rogério Borges publica reportagem sensacional sobre seleção russa de escritores

Mas dá para mandar para o banco de reservas Anna Akhmátova, Herzen, Bulgákov, Bródski, Blok, Andréi Biéli e Khlébnikov?

Rogério Borges, repórter de “O Popular” e um dos mais qualificados jornalistas da área cultural do país, teve uma ideia notável e a concretizou de maneira brilhante. Como a Copa do Mundo de Futebol vai ser realizada na Rússia, decidiu publicar uma reportagem listando 11 grandes escritores “russos”, os titulares, e um “banco de reservas” de alta qualidade. Há grandes reparos a fazer no texto? Não, pois é muito bom. As ressalvas a seguir não o invalidam.

1 — Hoje, com o fim da União Soviética, é complicado dizer que um escritor é “russo” só porque escreveu (ou escreve) em russo (afinal, todo escritor que escreve em espanhol é da Espanha?). Nikolai Gógol é tratado como russo por Rogério Borges, aliás como a maioria dos críticos e historiadores da literatura russa, mas a Ucrânia (que não ama a Rússia) o reivindica como um de seus principais escritores. Liev Trotski é russo? Na verdade, nasceu na Ucrânia. Mas, entre Gógol e Trotski, é notório que os ucranianos ficam com o primeiro, que não tem nenhuma responsabilidade pela Revolução Russa de 1917.

O que se escreveu acima muda alguma coisa? Nada. A síntese do jornalista sobre Gógol é, no geral, precisa. O problema é que sinopses nunca são (é provável que não têm como ser) perfeitas.

2 — “Almas Mortas”, de Nikolai Gógol, acaba de ganhar uma tradução direta do russo. Trata-se certamente de um trabalho de fôlego de Rubens Figueiredo, um dos mais qualificados tradutores da literatura russa. Mas há outra tradução, direta do russo, feita por Tatiana Belinky, que nasceu em São Petersburgo e escreveu muito bem em português.

A versão de Rubens Figueiredo está saindo pela Editora 34; a de Tatiana Belinky saiu, anota Rogério Borges, pela Perspectiva (tenho a edição da Nova Cultural).

3 — Quando uma seleção só tem craques é natural que craques fiquem no banco (na Seleção Brasileira de 1970 era assim). Rogério Borges diz que Marina Tsvetaeva (usa-se também Tsvetáieva e Tzvietáieva) é “a mais relevante autora de versos russa de sua geração”. É? Há quem defenda que Anna Akhmátova tem maior importância poética ou histórica. Mas, como poesia não é Fla X Flu, não se pode dizer que o repórter está errado, e sim que pensa diferente dos que preferem Anna Akhmátova. Vale conferir a perícia da poeta.

Do ciclo Os mistérios do ofício, de Anna Akhmátova: “Não me importa o exército das odes,/Nem o jogo torneado da elegia./Nos versos, tudo é fora de propósito,/Não como entre as pessoas, — me dizia.//Saibam vocês, o verso, é do monturo/Que ele se alenta, sem vexame disso,/Como um dente-de-leão pegado ao muro,/Anserina, bardana, erva-de-lixo./Grito de zanga, um travo de alcatrão,/Um bolor misterioso que esverdinha…/Eis o verso, furor e mansidão,/Para alegria de vocês e minha.” (1940 — Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman; “Poesia Russa Moderna”). Versão de Lauro Machado Coelho para o mesmo poema: “De que servem exércitos de canções/e o encanto das elegias sentimentais?/Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,/e não do jeito como todo mundo faz.//Se vocês soubessem de que lixeira/saem, desavergonhados, os versos,/como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,/como a bardana ou o cogumelo.//Um grito que vem do coração, o cheiro fresco da alcatrão,/o bolor oculto na parede…/E, de repente, a poesia soa, calorosa, terna,/para a minha e para a tua alegria.” (“Poesia — 1912-1964”.)

Outro poema de Anna Akhmátova: “A verdadeira ternura não se confunde/com coisa alguma. É silenciosa./Em vão envolves com cuidado/os meus ombros e meu colo nesta estola./Em vão palavras carinhosas/Dizes sobre o nosso primeiro amor./Como conheço bem esses insistentes/e insatisfeitos olhares teus.” (1913 — “Poesia — 1912-1964”, tradução de Lauro Machado Coelho.)

4 — Rogério Borges escreve que Marina Tsvetáeva “teve apenas duas obras publicadas por aqui: ‘Marina” (Travessa dos Editores, tradução de Décio Pignatari) e “Indícios Flutuantes” (Martins Fontes, tradução de Aurora Fornoni Bernardini). Há outros livros, “O Poeta e o Tempo” (201 páginas), da Editora Âyiné, e “Vivendo Sob o Fogo” (Martins Fontes, 763 páginas), com traduções da expert em russo Aurora Fornoni Bernardini. Há poemas esparsos em coletâneas excelentes, como “Poesia Russa Moderna” e “Poesia da Recusa” (Editora Perspectiva, tradução de Augusto de Campos). A rigor, portanto, Marina Tsvetáieva não é muito mal editada no Brasil. Ao contrário, é bem editada, com excelentes tradutores.

Augusto de Campos traduz de Marina Tsvetáieva, entre outras poesias, “Tentativa de ciúme”: “Como vai você com a outra?/Fácil, não é? — Um golpe de remo! —/E de pronto a linha da costa/Se foi e você já nem se lembra//De mim, ilha flutuante/(No céu, por certo, não no mar)!/Almas! Almas! — antes amar/Como irmãs, não como amantes!//Como vai você com a mulher/Comum? Sem nada de divino?/Sem soberana, sem sequer/Um trono (você foi o assassino),//Como vai, meu bem? Tudo a gosto?/E o dia a dia — sempre igual?/Como você se arranja com o imposto/Da banalidade imortal?//“Mil sobressaltos, incertezas —/Basta! Vou arrumar um teto!//Como vai, com quem quer que seja —/O eleito pelo meu afeto?//A comida é melhor, mais familiar?/Diga a verdade. Como vai/Você com a imitação vulgar —/Você, que subiu o Sinai?//Como é viver com uma estranha?/Você a ama? Não disfarce./O chicote de Zeus da vergonha/Nenhuma vez lhe zurze a face?//E a saúde, vai bem? Que tal/A vida — uma canção? A ferida/Da consciência imortal/Como a suporta, meu querido?//Como vai você com o adereço/De feira? A taxa é muito cara?/Como é aspirar o pó do gesso/Depois do mármor¹ de Carrara?//(Deus talhado em barro, termina/Em pedaços!) Como é o convívio/Com a milionésima da fila/Para quem já conheceu Lilit?//As novidades da feira/Se acabaram? Farto de portentos,/Como é a vida corriqueira/Com a mulher terrena, sem sexto//Sentido?/Vamos, tudo cor/De rosa? Ou não? Aí, nesse oco/Sem fundo, amor, como vai? Pior//Ou igual a mim com o outro?//Não colherás no meu rosto sem ruga/A cor, violenta correnteza./É caçadora — eu não sou presa./És a perseguição — eu sou a fuga.//Não colherás viva minha alma!/Acossado, em pleno tropel,/Arqueia o pescoço e rasga/A veia com os dentes, o corcel//Árabe.” (¹Augusto de Campos escreve “mármor”, e não mármore.)

5 — Há problemas com as grafias dos nomes dos escritores (e políticos) russos. Embora mencione traduções recentes, da Editora 34 e da Companhia das Letras (originalmente saíram pela Cosac Naify) — não há citação das editoras Nova Alexandria e Kalinka —, Rogério Borges mantém grafias antigas, que, no Brasil, só “O Popular” adota, não se sabe por quê.

a — “O Popular” usa “Alexander Pushkin”. Tradutores categorizados, como Boris Schnaiderman e Nelson Ascher, preferem, em “A Dama de Espadas” (Editora 34), Aleksandr Púchkin. “Pushkin”, e não Púchkin, é típico das edições em inglês.

b — Os tradutores do russo registram Ivan Turguêniev, com acento. “O Popular” opta por grafar sem acento.

c — É mais usual Liev Tolstói, com acento, e não Tolstoi, sem acento, como está em “O Popular”. O jornal chega a escrever “Tosltoi”. O romance é “Anna Kariênina”, com acento, não “Anna Karienina”.

d —  Historiadores e tradutores estão trocando “Josef Stalin”, como está em “O Popular”, por Ióssif Stálin.

e — Nikolai Gógol perde o acento na reportagem do “Pop”.

f — Isaac Bábel — e não “Babel”.

g — Maksim Górki, e não “Máximo Gorki”.

h — Tchekhov, e não “Tchekov”. Aliás, Rogério Borges usa as duas formas. O dramaturgo é mais importante do que o contista? Fica-se com a impressão, lendo o texto do “Pop”, que sim. Talvez seja mesmo. Mas fico com os que celebram mais o contista. Sem desconsiderar, claro, sua obra teatral.

i — Svetlana Aleksiévitch (e não Alexievich, como anota o “Pop”) escreveu “Vozes de Tchernóbil” (e não “Chernobil”, como publica o jornal).

6 — Rogério Borges anota que “a poesia” não tem “o mesmo protagonismo dos tempos antigos”. Ele estaria discorrendo sobre a Rússia? Neste país, ao menos, os poetas continuam como deuses. Mesmo fora da nação de Liev Tolstói, será verdade que a poesia perdeu mesmo o protagonismo? Não ficamos sabendo o que significa “tempos antigos”. Seria o dos românticos ingleses?

7 — O nome do autor do livro “Maiakóvski — O Poeta da Revolução” não é “Alexandr Mikailov”, e sim Aleksandr Mikhailov. Ao contrário de Boris Schnaiderman e brothers Campos, o “Pop” não acentua Maiakóvski (seguindo, aliás, a edição da Editora Record). Os tradutores, por sinal, optam por Vladímir, com acento, e não “Vladimir”.

8 — “As circunstâncias de sua morte (suicídio ou assassinato?) permanecem cercadas de mistério”, informa Rogério Borges a respeito de Maiakóvski. Não há registro de que tenha sido assassinado. Ele se matou porque estava descontente com os rumos do socialismo na União Soviética, com as críticas à sua poesia, que seria mais “formalista” do que “engajada”. É provável que o jornalista tenha confundido a morte do bardo com a morte de Maksim Górki? Este, sim, teria sido envenenado a mando de Stálin.

9 — A mais recente tradução da obra mais conhecida de Aleksandr Soljenítsin, “O Arquipélago Gulag”, saiu pela Sextante de Portugal, com tradução (do russo) de António Pescada. Mas não há notícia de que o livro tenha sido traduzido no Brasil pela Sextante local. Há rumores, no “Estadão”, de que vai sair pela Editora Carambaia. A tradução que circula no Brasil, publicada como “Arquipélago Gulag”, sem o artigo “o”, é da Livraria Bertrand (de Portugal) e foi publicada entre nós pela Difel e pelo Círculo do Livro. Os tradutores são Francisco A. Ferreira, Maria M. Llistó e José A. Seabra.

10 — O texto de Rogério Borges passa a impressão de que Aleksandr Soljenítsin viveu a vida inteira na Rússia-União Soviética. Ele viveu vários anos no exterior.

11 — Se Nikolai Gógol é mencionado como romancista e contista, é esquecido como dramaturgo. A Editora 34 publicou “Teatro Completo”, com tradução de Arlete Cavaliere.

12 — Quais estudiosos consideram “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak, como “o mais bem realizado livro produzido” na Rússia “no século 20”? Rogério Borges não menciona nenhum. O romance não é ruim e sua estrutura lembra a arquitetura literária russa do século 19 — uma espécie de “Guerra e Paz” dos tempos socialistas.

Rogério Borges não diz, mas Boris Pasternak é conhecido, em todo o mundo, mais como poeta do que como prosador. O jornalista poderia ter cobrado a publicação de sua poesia no Brasil. Há raros registros de sua poética no livro “Poesia Russa Moderna” (Brasiliense, 292 páginas), com traduções de Boris Schnaiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos.

Restante do poema de Boris Pasternak: “Alguns seguirão, passo a passo,/As pegadas do teu passar,/Porém não deves separar/Teu sucesso de teu fracasso.//Não deves renunciar a um mínimo/pedaço do teu ser,/Só estar vivo e permanecer/Vivo, e viver até o fim” (tradução de Augusto de Campos)

Leia “Definição de poesia”, de Boris Pasternak, na tradução de Haroldo de Campos: “Um risco maduro de assobio./O trincar do gelo comprimido./A noite, a folha sob o granizo./Rouxinóis num dueto-desafio//Um doce ervilhal abandonado/A dor do universo numa fava./Fígaro: das estantes e flautas —/Geada no canteiro, tombado.//Tudo o que para a noite releva/Nas funduras da casa de banho,/Trazer para o jardim uma estrela/Nas palmas úmidas, tiritando.//Mormaço: como pranchas na água,/Mais raso. Céu de bétulas, turvo./Se dirá que as estrelas gargalham,/E no entanto o universo está surdo.”

“O grande pecado político de Pasternak foi o de criar um enredo em que o protagonista é obrigado a colaborar com os bolcheviques, sacrificando sua felicidade”, sustenta Rogério Borges. “Pecado político” em qual sentido? Se for no sentido de que o romance acabou banido pelos stalinistas dos tempos ditos pós-stalinistas, está certo. É uma vergonha, para os russos, o fato de que o romance tenha sido publicado primeiro na Itália, graças ao empenho do editor Giangiacomo Feltrinelli.

13 — Alguém importante ficou de fora, mesmo como reserva? Talvez o poeta Óssip Mandelstam. O célebre poema sobre Stálin, com versão de Augusto de Campos: “Vivemos sem sentir o chão nos pés,/A dez passos não se ouve a nossa voz.//Uma palavra a mais e o montanhez/Do Kremlin vem: chegou a nossa vez.//Seus dedos grossos são vermes obesos./Suas palavras caem como pesos.//Baratas, seus bigodes são risotas./Brilham como um espelho as suas botas.//Cercado de um magote subserviente,/Brinca de gato com essa subgente.//Um mia, outro assobia, um outro geme,/Somente ele troveja e tudo treme.//Forja decretos como ferraduras:/Nos olhos! Nos quadris! Nas dentaduras!//Frui as sentenças como framboesas./O amigo Urso abraça suas presas”. Nota do tradutor: “A tradução literal desta última linha equivale a: “O largo peito do ossétio” (cidadão de Ossétia, da Geórgia, região de origem de Stálin). Variante literal: “Um abraço de Ossétia às suas presas”.

Óssip Mandelstam foi condenado e “morreu num campo de trabalhos forçados, em Vladivostok, vítima de tifo, em dezembro de 1938”. Varlam Chalámov escreveu um conto, “Xerez”, sobre as últimas horas do poeta. Está no livro “Contos de Kolimá” (página 108).

O médico e crítico Roberson Guimarães menciona um grande escritor, Mikhail Bulgákov, cujo romance “O Mestre e Margarida” (Editora 34, 408 páginas), com tradução de Irineu Franco Perpétuo, saiu há pouco no Brasil. Há a tradução de Zoia Prestes (filha de Luiz Carlos Prestes), também do russo, publicada pela Alfaguara (e com revisão de Irineu Franco Perpétuo). Há outra tradução, feita por Mário Salviano Silva, a partir do inglês, para a Editora Nova Fronteira (a Abril Cultural republicou).

O poeta e crítico Ióssif Bródski merece ocupar, como escritor (e não como personalidade histórica), o lugar de Aleksandr Soljenítsin. Ele ou Mikhail Bulgákov. Poetas que foram esquecidos: Aleksandr Blok, Andréi Biéli, Vielimir Khlébnikov, Andréi Vozniessiênski e Guenádi Aigui. O extraordinário Herzen não é citado pelo “Pop” nem para “gandula”. “Nós”, de Ievguêni Zamiátin, que influenciou “1984”, ficou para escanteio. Varlam Chalámov, autor do magnífico e doloroso “Contos de Kolimá” (Editora 34, tradução de Denise Sales e Elena Vasilevich), ficou no vestiário. Daniil Kharms nem desceu do ônibus da seleção. Ficou lá, escondidinho, ao lado, quem sabe, de Ievguêni Ievtuschênko (autor do poema “Assassinato”: “Ninguém dorme mais bonito do que tu./Mas temo/que acordes agora, exatamente,/e me toques com um olhar indiferente, assim de leve, de passagem,/e cometas o assassinato da beleza”. Do livro “Poesia Soviética”, tradução de Lauro Machado Coelho) e Bella Akhátovna Akhmadúlina.

Apesar das imprecisões, dou nota dez para a reportagem de Rogério Borges, sobretudo pela ideia de forjar uma seleção russa para além do futebol.

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Adalberto de Queiroz

Bravo!