Rinaldo Rodrigues vestido de oficial nazista é uma ofensa aos judeus

O dono da R&N Esportes e Promoções vestiu-se como nazista, acrescentou até um bigode à Hitler, e depois disse que era uma “brincadeira”

Marcos L Susskind

Talvez você tenha visto o Rinaldo Rodrigues vestido como Oficial Nazista, com o cabelo e o bigode daquele que pretendeu exterminar meu povo. Eu escrevi uma carta, enviei diretamente a ele.

Rinaldo Rodrigues vestido de oficial nazista | Foto: Reprodução

Rinaldo Rodrigues:

Você não me conhece, nunca me viu, mas me ofendeu profundamente. Eu vi a foto imbecil na qual você se “fantasia” como o sanguinário cafajeste que assassinou 26.600.000 de pessoas, 6.000.000 dos quais judeus como eu.

Entre estes 6 milhões estavam meus avós, meus tios e todos os meus primos. Se eu já tivesse nascido, provavelmente também teria sido exterminado. Isto, por si só, deve lhe dar uma ideia do nojo que eu tenho por este crápula e da dor que a imagem traz a mim e a dezenas de milhares de outros brasileiros como eu, filhos e netos que não tiveram a felicidade de sentar no colo de um avô ou comer uma sopa feita pela avó. Sabe o motivo? Porque um sanguinário diabólico, vestido como você, os matou.

Você diz tratar-se de “uma brincadeira” — talvez a mesma “brincadeira” de acorrentar um negro para “brincar” de navio negreiro ou estuprar um gay para “brincar” de macho. Você pode querer que alguém pense ser uma brincadeira, mas é — em qualquer dos casos mencionados — uma agressão que não se apagará fácil.

Você, Rinaldo, não é criança. É empresário na R&N Esportes e Promoções, onde o R é você e o N é sua esposa Natália. Sua filha Elvira tem a idade de um dos meus tios que foi morto na câmara de gás de Auschwitz-Birkenau. Você pensou como se sentiria de ver sua filha indo ser morta, empurrada e açoitada por nazistas vestidos exatamente com sua “fantasia”? Como se sentiria vendo alguém com a mesma fantasia anos mais tarde? Entre meus 12 ou 13 primos assassinados por serem judeus — um “crime” do qual é impossível se redimir — havia quatro que tinham entre 5 e 7 anos. Me parece que é a idade de seu filho Pedro, não é? Pois imagine o Pedro ajoelhado com outras cerca de 150 crianças com pás e picaretas maiores que eles, cavando sua própria cova onde, minutos depois serão jogados vivos para serem fuzilados sem que seja necessário transportar os corpos. Os sorridentes soldados também vestiam a sua “fantasia”.

Auschwitz: neste campo de extermínio os nazistas da Alemanha de Adolf Hitler assassinaram milhares de judeus | Foto: Reprodução

Em 2007 eu escrevi um artigo — “Perdoar e desculpar” — e explico que não é igual. Talvez muita gente o perdoe, mas muito poucos conseguirão desculpá-lo.

Eu insisto que você viaje os 100 km que separam Sorocaba da Rua Coronel Lisboa em São Paulo. Lá está o Lar Golda Meir, um residencial para velhinhos judeus. Muitos deles passaram por campos de concentração, levados em vagões de gado, passaram fome, viram seus filhos e cônjuges receberem um tiro na testa para que alguns soldados dessem risada da “brincadeira”. Vá lá, converse com eles e peça perdão pelo que fez. Mas não peça desculpa — não te desculparão. Peça só perdão. E relate, em sua volta o que sentiu ao conversar com a velhinha cuja filha de três meses foi furada por uma baioneta em sua frente, como foi conversar com aquele senhor que foi separado de sua esposa e quatro filhos, cremados menos de uma hora depois de chegar ao campo onde “O trabalho liberta”.

Os mais jovens sobreviventes que estão lá não devem ter menos de 93 anos e devem estar bem fraquinhos. Mas, por favor, não vá com sua “fantasia”, pois, apesar da fraqueza, eles juntarão suas últimas forças e você não sairá vivo de lá. Eles se vingarão com suas bengalas e seus andadores e o atropelarão com suas cadeiras de rodas. Portanto, vá sem sua “fantasia de brincadeira”.

Eu vou esperar seu relato na volta. Não, eu vou exigir seu relato na volta.

P. S.: — Se você não for por si próprio, espero que alguém vá a Sorocaba para trazê-lo a São Paulo. Na minha ingenuidade, acho que não faltarão voluntários para lhe oferecer uma “carona”.

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