Euler de França Belém
Euler de França Belém

Revolução Russa de Stálin devorou o poeta Maiakóvski

“Maiakóvski viveu e morreu poeta. Ele colocou uma ‘bala como ponto final’ de sua vida, uma vida breve e clara como um relâmpago”, constata seu biógrafo

No prefácio de “Maiakóvski — O Poeta da Revolução” (559 páginas), do russo Aleksandr Mikhailov, com tradução esmerada de Zoia Prestes (a filha de Luiz Carlos Prestes), o poeta e crítico literário Alexei Bueno nota “a riqueza metafórica e rítmica da poesia de Vladímir Maiakóvski, sua mestria no uso de hipérboles, seu humor cáustico, seu virtuosismo no jogo de palavras”. Àquele leitor que não quer apenas saber os fatos da vida do poeta, que dizia detestar fofocas, recomendo três livros: “Poemas”, de Maiakóvski, com traduções de Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos, “Poesia Russa Moderna”, com traduções do mesmo trio, e “Antologia Poética”, de Maiakóvski, com tradução de E. Carrera Guerra.

Maiakóvski matou-se, aos 36 anos, em 1930, quando Stálin, senhor do poder, havia expurgado adversários de peso como Liev Trotski e enquadrava aqueles que pensavam diferentemente da ortodoxia do partido. Não bastava apoiar o ditador, era preciso aceitar que se tratava de Deus e Jesus Cristo do socialismo.

 

Por que Maiakóvski se matou, com um tiro no peito, se havia condenado o suicídio do poeta Sierguéi Iessiênin, em 1925? Mikhailov escreve, com pertinência: “A pessoa que deixa voluntariamente a vida leva consigo o mistério de sua decisão. Nenhuma explicação (inclusive as de Maiakóvski) penetra na essência real da atitude tomada. Elas somente entreabrem a cortina sobre o segredo, mas o próprio segredo permanece escondido atrás do final triste da vida. (…) Encontramos os motivos, mas o segredo permanece em segredo”. O biógrafo anotou: “Ninguém nunca saberá qual foi o último e fatal motivo desta atitude” (o suicídio). “Assim como disse de Iessiênin [que se matou]: ‘Não nos dirão os motivos desse impulso nem o laço, nem a navalha aberta”.  Aleksandr Mikhailov conta que “Anna Akhmátova escreveu alguns versos que não entraram num poema: ‘Iremos juntos pela Tagantsevka, pela Iesseninka ou pelo grande caminho de Maiakóvski’. Marina Tsvetáieva, no início da guerra, em junho de 1941, disse a Akhmátova: ‘Como eu agora precisava trocar de lugar com Maiakóvski”. Ela também se matou.

Há dois pontos centrais. Primeiro, a Revolução que Maiakóvski havia colaborado para criar e formular saía dos eixos e trabalhava para enquadrar, cercar e subordinar a literatura, sugerindo que só a literatura proletária era literatura. O poeta tentou se enquadrar, fez poemas engajados-proletários, produziu cartazes revolucionários, mas sua criatividade, tida como excessiva e contagiante, chocava os comunistas retrógrados e não era entendida pelas massas. Escritores geniais como Maiakóvski têm seu estoque de ingenuidade política e acreditam que podem influenciar as revoluções e os políticos, sem perceberem que, adiante, as revoluções, como a Bolchevique, começam a devorar seus próprios filhos. O saturno comunista de Lênin e Stálin devastou escritores, matando-os, enviando-os para morrer no Gulag ou exilando-os. Maiakóvski avaliou, errado, que poderia se adaptar. Acabou rejeitado pela política da literatura proletária, mais proletária, em termos de qualidade, do que literatura. Chegaram a boicotar a encenação de sua peça teatral “Os Banhos”. O biógrafo Mikhailov diz: “As circunstâncias de sua vida pessoal eram-lhe incontornáveis. Vivia em profundo estado de depressão e passava por uma crise de criação em face de confronto com o poder soviético, mesmo sem ainda ter a consciência do que seria no futuro, mas sentindo uma enorme pressão que privava a literatura do ar de liberdade”. Imagine, para um criador do porte de Maiakóvski, ter de produzir uma poesia de baixa qualidade, para ser compreendido pelas maiorias e aceito pela burocracia, que ele abominava. Essa burocracia medíocre não aceitava a sua sátira, seu modernismo.

Observe-se que, embora fosse praticamente um poeta oficial, bardo do establishment comunista, “Maiakóvski foi proibido de viajar para o exterior e poderia ter avaliado essa proibição como um ato de desconfiança política”. O poeta assinalou, certa feita: “… em razão do meu caráter briguento fui atacado por tantos cachorros e acusado de tantos pecados que tenho e não tenho, que minha vontade é viajar para algum lugar e ficar lá dois anos para não ouvir xingamentos”.

Durante a leitura de sua peça “Os banhos”, indagado sobre a razão de tê-la denominado drama, redarguiu: “Para ficar mais engraçado. Os burocratas não seriam um drama em nosso país?” De fato, começava a não agradar os homens-chaves da Revolução — alguns deles mais stalinistas do que Stálin.

Política do isolamento

Segundo, Maiakóvski nutria paixão por duas mulheres casadas — Lília Brik e, nos últimos anos, Verônica Vitoldovna Polonskaia, a Nora. Quis se casar com Nora, chegou a procurar um apartamento, mas sua depressão e certa violência, assustadora num gigante como ele, incomodavam a atriz, que o amava.

Aleksandr Mikhailov frisa que “a campanha para isolar Maiakóvski da literatura, ou seja, também da vida, assumia um caráter cada vez mais cruel. Na imprensa, tentavam convencê-lo de que não tinha mais o que escrever e nas apresentações alguns engraçadinhos, com intenções de ofender, perguntavam ao poeta quando, finalmente, ele daria um tiro na testa… Parecia que estava sendo pressionado pelo peso monstruoso das circunstâncias que colocavam em dúvida o caminho escolhido e reprimiam a energia de suas ações”. Os jornais boicotavam suas ações poéticas.

Num trecho do poema “A plenos pulmões”, Maiakóvski vocifera: “Conheço a força das palavras, conheço seu toque/Não são aquelas a quem os camarotes aplaudem/De palavras como essas os caixões erram/o passo com seus quatro pés de carvalho”. Os camarotes, instigados pela polícia literária do stalinismo, já não apreciavam o verbo, para além do verborrágico, de Maiakóvski. Ele estava sendo alijado da vida “oficial” e começava a ser “escondido”.

Provavelmente, ao sentir que a Revolução não era o paraíso libertário que imaginara e que era infeliz no amor, roído pela depressão, Maiakóvski optou por matar-se. Tinha certa consciência de que o futuro o aguardava… para entendê-lo. Mas, depois de sua morte, quando não mais incomodava, Stálin o transformou no poeta da revolução e, numa carta a Iejov, escreveu: “Peço que dê atenção à carta de Lília Brik. Maiakóvski foi e continua sendo o melhor e mais talentoso poeta da época soviética. A indiferença com a sua obra é um crime”.

Maiakóvski pode ter sido assassinado? Aleksandr Mikhailov duvida: “Existe uma versão que afirma que Maiakovski não se matou, mas que foi morto. Esta versão conduz até a figura cruel de I. S. Agranov, que frequentava a casa dos Brik. A versão é hipotética e não é provada pelos fatos. Segundo ela, exclui-se um fato importante, que é o estado geral de Maiakóvski nesta época, sua profunda depressão. E, além das demais fontes, a fonte mais segura são as memórias de Polonskaia, uma pessoa íntima que encontrou-se diariamente com o poeta em diferentes estados de ânimo, durante os dois últimos meses de sua vida. Como prova, transcrevo (…) uma frase sua: ‘… eu tinha medo de seu temperamento, de seu despotismo em relação a mim’”. O biógrafo ressalva que o poeta não era assim, quando estava bem. “Era incrivelmente atencioso e elegante com as mulheres”

Maiakóvski e Lília Brik: uma de suas paixões

Provavelmente, ao sentir que a Revolução não era o paraíso libertário que imaginara e que era infeliz no amor, roído pela depressão, Maiakóvski optou por matar-se. Tinha certa consciência de que o futuro o aguardava… para entendê-lo. Ele deu um tiro no peito. “A bala — a única colocada no tambor (ah, essa “roleta-russa”!) — encontrou o caminho direto até o coração”, relata Aleksandr Mikhailov. Os jornais do dia 15 de abril de 1930 publicaram: “Ontem, 14 de abril, às 10 horas e 15 minutos, em seu escritório (Lubianski Proezd, nº 3), suicidou-se o poeta Vladímir Maiakóvski”.

Mas, depois de sua morte, quando não mais incomodava, Stálin o transformou no poeta da revolução e, numa carta a Iejov, escreveu: “Peço que dê atenção à carta de Lília Brik. Maiakóvski foi e continua sendo o melhor e mais talentoso poeta da época soviética. A indiferença com a sua obra é um crime”. Lília Brik, por sinal, disse: “A ideia de suicídio era uma doença crônica de Maiakóvski”. Ele tinha “pânico da velhice”

“Maiakóvski viveu e morreu poeta. Ele colocou uma ‘bala como ponto final’ de sua vida, uma vida breve e clara como um relâmpago”, constata seu biógrafo.

Lília Brik e o poeta Vladímir Maiakóvski em Paris

O bilhete do suicida

Vladímir Maiakóvski matou-se no dia 14 de abril de 1930 e deixou um bilhete.

“A todos

De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso.

Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém), mas não tenho saída.

Lília, ame-me.

Ao governo: minha família são Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia.

Caso torne a vida delas suportável, obrigado.

Os poemas inacabados entreguem aos Brik, eles saberão o que fazer.

Como dizem:

caso encerrado,

o barco do amor

espatifou-se na rotina.

Acertei as contas com a vida

inútil a lista

de dores,

desgraças

e mágoas mútuas.

Felicidade para quem fica.” — Vladímir Maiakóvski, 12/IV — 30

Não entendem nada

Entrei na barbearia e disse, sem espera:

“Por gentileza, penteie-me as orelhas.”

O meloso barbeiro ficou cheio de abelhas,

seu rosto se alongou com uma pêra.

“Mentecapto!

Palhaço!” —

saltaram as palavras.

Insultos relincharam pelo espaço,

e l-o-o-o-o-ngamente

ouviu-se o rinchavelho

de uma cabeça que brotou por entre a gente

como um rabanete velho.

O poema é de 1913, quatro anos antes da Revolução Russa de 1917. Mas a burocracia soviética, que queria poemas úteis à causa, podia compreender a sátira de Maiakóvski? Não, certamente. Tradução de Augusto de Campos.

Hino ao crítico

Da paixão de um cocheiro e de uma lavadeira

Tagarela, nasceu um rebento raquítico.

Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.

A mãe chorou e o batizou: crítico.

O pai, recordando sua progenitura,

Vivia a contestar os maternais direitos.

Com tais boas maneiras e tal compostura

Defendia o menino do pendor à sarjeta.

Assim como o vigia cantava a cozinheira,

A mãe cantava, a lavar calça e calção.

Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira

E a arte de penetrar fácil e sem sabão.

Quando cresceu, do tamanho de um bastão,

Sardas na cara como um prato de cogumelos,

Lançaram-no , com um leve golpe de joelho,

À rua, para tornar-se um cidadão.

Será preciso muito para ele sair da fralda?

Um pedaço de pano, calças e um embornal.

Com o nariz grácil com um vintém por lauda

Ele cheirou o céu afável do jornal.

E em certa propriedade um certo magnata

Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,

E logo o crítico, da teta das palavras

ordenhou as calças, o pão e uma gravata.

Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco

Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,

E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso

Mordiscar-lhe de leve os tornozelos loucos.

Mas se se infiltra na rede jornalística

Algo sobre a grandeza de Púchkin ou Dante,

Parece que apodrece ante a nossa vista

Um enorme lacaio, balofo e bajulante.

Quando, por fim, no jubileu do centenário,

Acordares em meio ao fumo funerário,

Verás brilhar na cigarreira-souvenir o

Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.

Escritores, há muitos. Juntem um milhar.

E ergamos em Nice um asilo para os críticos.

Vocês pensam que é mole viver a enxaguar

A nossa roupa branca nos artigos?

Poema de 1915, tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman.

(Comentário publicado no Jornal Opção em 2008)

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Adalberto de Queiroz

Um artigo forte e necessário aos estudiosos e aos apenas curiosos das coisas da Poesia e dos males da União Soviética sob o Totalitarismo Stalinista. E mesmo que sem “culpa” direta na morte do poeta, resta saber que “Os camarotes, instigados pela polícia literária do stalinismo, já não apreciavam o verbo, para além do verborrágico, de Maiakóvski.
Ele estava sendo alijado da vida “oficial” e começava a ser “escondido”.