Euler de França Belém
Euler de França Belém

Revista prega alvo na testa de porteiro do condomínio onde morava suspeito de matar Marielle Franco?

“Veja” encontra o porteiro, publica sua fotografia na capa, mas reportagem não consegue explicar por que Alberto Jorge mentiu

A revista “Veja” tem uma das melhores equipes de reportagem do país e, apesar de criticada por leitores ideologizados, sempre fez jornalismo de primeira linha. Os repórteres Leandro Resende e Sofia Cerqueira, com participação de Jana Sampaio, são responsáveis por um furo com a reportagem “Achamos: o paradeiro do porteiro do condomínio de Bolsonaro”. Insistamos: trata-se de jornalismo, de bom jornalismo.

A “Veja” achou, antes de qualquer outro meio de comunicação — e até da polícia —, o porteiro Alberto Jorge Ferreira Mateus, que, embora aposentado, trabalha há treze anos no condomínio Vivendas da Barra, onde mora o presidente Jair Bolsonaro. Por sinal, aprecia o político.

Ronnie Lessa e Élcio Queiroz: principais suspeitos do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes | Fotos: Reproduções

Abordado pela equipe da “Veja”, Alberto Jorge disse: “Eu não estou podendo falar nada. Não posso falar nada”. No dia em que a deputada Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados, no Rio de Janeiro, em 14 de março de 2018, o ex-policial militar Élcio Queiroz esteve no Vivendas da Barra, à procura de seu “chefe”, o ex-policial militar Ronnie Lessa. Este mora na casa 66, mas Queiroz teria dito que iria à casa 58, a de Jair Bolsonaro. (Ronnie Lessa está preso como suspeito de ser o assassino de Marielle e Anderson. Élcio Queiroz teria dirigido o automóvel para o atirador.)

Alberto Jorge relatou que, quando Élcio Queiroz chegou, ligou na casa 58 e atendeu o “seu Jair”. Na verdade, o porteiro mentiu. Bolsonaro, o “seu Jair”, estava em Brasília, pois era deputado federal. Por que mentiu? A questão, a mais relevante, a “Veja”, depois de ouvir várias pessoas, não conseguiu responder. Homem simples, de história aparentemente decente, o porteiro teria sido induzido a mentir por Ronnie Lessa e aliados?  Ou teria se confundido? Não sabemos. A revista esclarece que Élcio Queiroz falou, na verdade, com outro porteiro, Tiago Izaias. A voz do áudio é dele. “A voz é minha”, confirma.

Marielle Franco e Anderson Gomes: crimes até hoje sem solução | Fotos: Reproduções

A reportagem, embora tenha revelado quem é o porteiro e publicado sua fotografia na capa, é pouco esclarecedora. Entretanto, embora não tenha sido a intenção da revista e dos repórteres, que limitaram a contar uma história, o desdobramento de se exibir o porteiro de maneira tão escancarada pode ser não positivo.

Alberto Jorge mora no bairro Gardênia Azul, numa área “dominada por milícias” (Ronnie Lessa é influente lá). Depois da reportagem, numa zona em que o Estado oficial disputa poder com um Estado paralelo — às vezes perdendo e, eventualmente, com parte de seus agentes aderindo ao crime —, o porteiro tem condições de continuar morando no mesmo setor, ao menos neste momento? É provável que não.

Se brincar, e sem querer, a revista pode ter “pregado” um alvo na testa de Alberto Jorge. A imprensa precisa ter mais cuidado: o porteiro pode ser testemunha de alguma coisa — que pode agravar a situação de Élcio Queiroz e Ronnie Lessa. Por isso, longe ser mostrado, tem de ser protegido. Ele está com medo — e certamente tem razão.

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