Euler de França Belém
Euler de França Belém

Revista IstoÉ sugere que Lula é dono de mansão em Punta Del Este, no Uruguai. Convence? Não

Ex-presidente da República seria proprietário de uma casa, na Saint-Tropez da América do Sul, que vale 2 milhões de dólares. Seu testa-de-ferro seria o empresário Alexandre Grendene. Cheiro de ficção no ar

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A função do jornalismo é escarafunchar, detalhar os bastidores daquilo que as pessoas, inclusive jornalistas, querem esconder. Mas só denúncias bem calçadas tornam as reportagens interessáveis para os leitores. A matéria “A conexão Uruguai da família Lula”, da “IstoÉ”, pode ser séria — o repórter Germano Oliveira é seriíssimo —, mas a impressão que se tem, ao concluir a leitura, é de que se trata de um material exploratório, meramente uma pauta em desenvolvimento, mas que, dada a pressa em furar a concorrência, se publicou rápido. A revista informa que procuradores do Ministério Público Federal “apuram se uma mansão em Punta Del Este, no Uruguai, pertence a Lula”.

A revista afirma que a investigação começou em agosto. “A mansão — segundo colaboradores do Ministério Público Federal que estiveram em Punta Del Este — pertenceria a uma offshore ligada ao empresário Alexandre Grendene Bertelle, um dos donos da indústria de calçados Grendene. A casa… possuiu um terreno de 7,5 mil metros quadrados e fica localizada na Calle Timbó, conhecida por Villa Regina, com valor estimado em US$ 2 milhões.” A reportagem apresenta uma evidência efetiva de que a casa é de Lula? Não me parece. A residência pode até ser do ex-presidente da República e líder do PT, mas não há consistência na, digamos, denúncia. Pode ser que, adiante, se apresente fatos novos — ou velhos, sabe-se lá — que contribuam para esclarecer a história que, da maneira que está apresentada, lembra quase um conto de fadas.

“IstoÉ”, que tem publicado reportagens de qualidade sobre a Lava Jato, sobre os bastidores inclusive, sublinha, baseada no relato de um procurador anônimo, que “o caso… se encontra na fase de coleta de provas”. Germano Oliveira assinala que, “na Procuradoria da República, a investigação está sendo tratada com total discrição”. Não fosse o repórter competente e sério, diria que há uma gota de cinismo: como “total discrição” se a revista publica uma longa reportagem de capa, com fotografias?

Ouvida pelo repórter, a assessoria de Lula disse que “o ex-presidente não tem nenhuma casa ou conta no exterior e que todas as propriedades dele estão em São Bernardo do Campo e são devidamente declaradas”. O ex-presidente parece mesmo sonegar informações sobre o sítio de Atibaia e sobre o tríplex do Guarujá. Porém, no caso da mansão da Saint-Tropez da América do Sul, a história parece mesmo nebulosa, mas a favor e não contra Lula da Silva.

Grendene e o BNDES

Pedro Grendene e Lula da Silva e a guitarra de um músico

Pedro Grendene e Lula da Silva e a guitarra de um músico

É provável que, daqui pra frente, vão aparecer imóveis “de” Lula na China, na Índia, em Angola, na Venezuela e, quem sabe, na Lua e em Marte. Talvez seja mais adequado esperar um pouco mais as investigações, não para evitar o escândalo em si, mas para ser justo com o denunciado — e com os denunciantes —, para, com as provas cabais, detonar a história.

A revista informa que, “durante o governo do petista, Grendene obteve empréstimos subsidiados do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no valor de 3 bilhões de reais”. Trata-se de muito dinheiro; entretanto, se o bilionário Alexandre Grendene tem condições de honrar os empréstimos, não há problema algum. De qualquer forma, há uma investigação a respeito.

Alexandre Grendene: o suposto laranja de Lula da Silva

Alexandre Grendene: o suposto laranja de Lula da Silva

O que a “IstoÉ” está sugerindo é que Alexandre Grendene é o laranja ou o mecenas de Lula da Silva. O empresário seria outra espécie de Jonas Suassuna e Fernando Bittar, os supostos donos do sítio de Atibaia, que na verdade seria do ex-presidente.

De fato, Alexandre Grendene mantém um bom relacionamento com Lula da Silva, não se sabe exatamente por quê. “Grendene foi um dos empresários que doaram parte dos 10,8 milhões de reais que custearam o filme ‘Lula — O Filho do Brasil’. Ele também colaborou com o Fome Zero, carro-chefe da política social do petista no início do primeiro mandato — uma espécie de embrião do Bolsa-Família. Ainda no primeiro governo petista, o guitarrista Lenny Kravitz doou sua guitarra para o programa de combate à pobreza, que leiloou o instrumento em maio de 2005. O empresário Pedro Grendene pagou R$ 322 mil pela guitarra, uma cobiçada Epiphone Flyng V preta autografada, mas o episódio, como tantos outros envolvendo o PT, terminou na Lava Jato. A força-tarefa passou a investigar o destino da renda obtida com os instrumentos. Análise de e-mails de Bumlai, amigo de Lula, mostrou que houve uma disputa entre a ONG Ação Fome Zero e o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome pelo direito dos recursos levantados com os leilões. Em resposta à ‘IstoÉ’ na quinta-feira, 27, a assessoria de Grendene disse que ele estava no exterior. Um assessor da diretoria da empresa afirmou, no entanto, que a história de que Grandene seria uma espécie de testa-de-ferro do ex-presidente petista no Uruguai não ‘passa de um absurdo completo’”.

Se a história for verdadeira, tudo bem: Lula da Silva tem de responder judicialmente, como amplo direito de defesa. Mas que há cheiro de ficção, de uma ficção bem bola, isto há. Não se trata de invenção da revista, ou mesmo do Ministério Público Federal, e sim praticamente uma reprodução das velhas e saborosas lendas urbanas ou das notórias teorias da conspiração. Não ficarei surpreso se a próxima reportagem “imaginar” que o petista-chefe é dono do Copacabana Palace.

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