Euler de França Belém
Euler de França Belém

Revista Época cita goiano que foi vítima de esquema nacional que envolve a suposta “estatal” Proinfra

O empresário Jorge Valente, dono da Bio Brasil Energia, foi lesado em quase 700 mil reais. Os suspeitos do golpe são Roberto Oliveira e o petista Carlos Rigonato

[Jorge Veloso Valente, empresário de Goiânia, perdeu 700 mil reais. Fotografia da revista Época]

A revista “Época” publicou uma reportagem, “A estatal 171”, assinada por Filipe Coutinho e Thiago Bronzatto, que mais parece saída de um conto ou romance do tcheco Franz Kafka do que da realidade. Porém, embora o golpe seja surreal na aparência, a Proinfra pertence ao quadro do realismo absoluto. E, mais uma vez, tem petista na parada.

Em 15 de maio de 2012, no governo da presidente Dilma Rousseff, o Diário Oficial da União anunciou, aponta a “Época”, “a fabricação de lâmpadas LED para instalação em 5.566 cidades do país”. Custo: 3,7 bilhões de reais. O projeto “fazia parte do pomposo Programa Governamental Brasileiro de Modernização e Racionalização da Iluminação Pública”. A Agência Pública Nacional de Infraestrutura e Tecnologia, Proinfra, faria a contratação. Mais uma estatal? Teoricamente, sim. Na prática, uma jogada de “espertalhões”, segundo os repórteres Coutinho e Bronzatto. Um pouco antes, em 2011, os criadores da Seinfra “conseguiram registrar o site da Proinfra com terminação “.gov.br”.

No escritório da Proinfra, afinal uma “estatal”, havia uma foto oficial da presidente Dilma Rousseff e uma bandeira do Brasil. Entretanto, sublinha “Época”, não se trata de uma estatal.

A Proinfra era ou é dirigida pelo empresário pernambucano Roberto Oliveira, que contava com o apoio do “diretor-geral” Carlos Rigonato, do PT do Paraná. “A Proinfra tinha até CNPJ, mas não existia. Nunca existiu — ao menos como parte da burocracia do governo”, anotam Coutinho e Bronzatto. Por isso está sendo investigada pela Polícia Federal. Privada ou “estatal”, a Proinfra desapareceu do mapa em março deste ano e a Receita Federal cancelou seu CNPJ. O site saiu do ar, quando os dirigentes descobriram que “Época” estava investigando sua história.

Carlos Rigonato era uma espécie de operador “institucional” da Proinfra. Ele aparece em fotografias com a senadora Gleisi Hoffmann e o ministro Paulo Bernardo. “Época” ressalva que não há indícios de que Hoffmann e Bernardo participaram do golpe.

Segundo a revista, Roberto Oliveira “oferecia dois serviços às vítimas: promessas de subcontratação da Macroenergia (butim imaginário de quase de R$ 1 bilhão) e promessa de negócios diretos com a formidável Proinfra (butim imaginário de R$ 10,5 bilhões). Para fechar qualquer dos serviços, os empresários precisavam pagar um pedágio — propina — a eles. Era o ato final e irresistível do golpe”.

“Época” assegura que “muitos caíram no golpe”. Roberto Oliveira pediu a Dennis Haster, ex-presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos e lobista (atividade legal para os americanos), “que indicasse empresas americanas interessadas” na área de energia. A Macroenergia seria contratada para operar os negócios entre os grupos. Haster declarou à revista “que um representante de uma empresa americana morreu logo depois de perder uma ‘grande quantidade de dinheiro” num negócio com o “dono” ou “presidente” da Seinfra.

[Roberto Oliveira, empresário pernambucano e criador da Proinfra. Foto da Época]

Empresário de Goiânia perdeu dinheiro

O proprietário da Bio Brasil Energia, Jorge Valente, é uma das vítimas de Roberto Oliveira, segundo a revista e o empresário de Goiânia. “Desde o começo, ela me era apresentada como uma autarquia do governo federal. Eu nunca conseguia entender a que ministério era ligada”, diz Jorge Valente.

A Bio Brasil Energia, segundo avaliação otimista de Roberto Oliveira, poderia fazer negócios de 1 bilhão de reais. Como empresário gosta de ganhar dinheiro, Jorge Valente, entusiasmado, repassou  “quase 700 mil reais” para empresas ditas “parceiras” da Proinfra. Seu lucro? Nenhum. Prejuízo total.

Mesmo achando estranho o fato de a Proinfra não ter conta bancária própria — o dinheiro era depositado em nome de outra empresa —, Jorge Valente certa vez repassou 100 mil reais para Roberto Oliveira. “Eu tinha boa-fé, fui uma presa fácil. Eu ficava pensando ‘e se der certo?’. Os números eram maravilhosos”, diz o dono da Bio Brasil Energia.

Crente na história de que poderia faturar até 1 bilhão de reais, Jorge Valente viajou com Roberto Oliveira para os Estados Unidos, Canadá, Turquia e Uruguai. “Sempre para levantar os tais negócios prometidos”, anota “Época”. “Ele é destemido, é o perfil de um estelionatário.” O empresário de Goiânia quase perdeu cinco caminhões para Roberto Oliveira, mas, ao perceber a canoa furada, recuou e não entregou os veículos.

O israelense Michael Gamliel, da área de software de segurança, é outra vítima de Roberto Oliveira, segundo a “Época”. Sua empresa, a ABG Computer, “fechou um contrato fajuto de 8 milhões de reais com a turma da Proinfra, para fornecer programas de computador ao governo. O contrato era fajuto, mas não o dinheiro que ele pagou ao esquema: 1,15 milhão de reais, sempre em contas ligadas a Roberto Oliveira”.

Michael Gamliel conta que Roberto Oliveira lhe foi apresentado “como uma pessoa do governo. Ele dizia que, para trabalhar com o governo, tinha de trabalhar com as empresas que já eram parceiras do governo e para isso tinha de pagar para viabilizar o negócio. Eu sou estrangeiro, não entendia como funcionava e acreditei”.

[Gleisi Hoffmann com o petista Carlos Rigonato; a senadora não está envolvida no golpe. Fotografia da revista Época]

Entrevistado por “Época”, Carlos Rigonato disse “que saiu da Proinfra porque os contratos não foram honrados”. E garante que “não recebeu os valores prometidos”. Roberto Oliveira não foi localizado pelos repórteres.

A revista garante que a Polícia Federal “irá atrás” de Roberto Oliveira e Carlos Rigonato.

Kafka nasceu em Praga, mas, para as vítimas de Roberto Oliveira-Proinfra, Praga fica em (ou é) Brasília.

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