Retrato de uma Jovem em Chamas: o que a mulher do século 18 tem a dizer sobre a mulher da pandemia?

A pandemia do novo coronavírus tem cobrado um preço alto da sociedade, mas este parece pesar ainda mais sobre as mulheres

Aline Brentini e Renata Wirthmann

Especial para o Jornal Opção

mulher vinda de ausência de outra, da ausência da história de

outra. mulher vinda de uma não-mulher

 

de um não-corpo

de uma não-voz

“Mulher Submersa” — Mar Becker

“Escrever a história das mulheres? Durante muito tempo foi uma questão incongruente ou ausente. Voltadas ao silêncio da reprodução materna e doméstica, na sombra da domesticidade que não merece ser quantificada nem narrada, terão mesmo as mulheres uma história?” Assim Michelle Perrot e Georges Duby começam o primeiro de cinco volumes da “História das Mulheres”. A coleção procura saber sobre a mulher da antiguidade até o século 20. A grande dificuldade de se escrever sobre as mulheres é que estas nunca haviam sido, até o surgimento dos movimentos feministas, sujeitos históricos. Muito havia sido escrito por homens sobre as mulheres, mais especificamente, sobre suas mulheres, seus objetos de desejo, suas amantes, suas mães. A mulher sempre precedida pelo pronome possessivo “minha” e em relação ao verdadeiro sujeito da história, da narrativa: o homem. Em contrapartida encontramos poucos vestígios de produção feitos pelas próprias mulheres, mais tardiamente autorizadas a leitura e escrita, e incentivadas, por séculos a queimar seus papéis na intimidade do quarto.

Uma mulher na luta para salvar vidas em tempos de pandemia do novo coronavírus | Foto: Reprodução

Com o decorrer dos séculos a voz da mulher foi aumentando de volume, principalmente nos últimos 200 anos. Mas é importante perceber que esse não é um acontecimento linear ou progressivo, muito menos capaz de anular os vestígios do passado. Consequentemente, o lugar da mulher, hora como objeto, hora como sujeito da história, é uma alternância presente até hoje e ainda o será por um tempo indefinido. Essa alternância parece pender, vez por outra, mais para o vestígio da mulher como sombra que como voz e, infelizmente, parece estarmos num desses momentos históricos, devido, dentre outros fatores, aos impactos da pandemia da Covid-19.

A pandemia instaura um período não determinado de extrema insegurança e impõe enormes modificações nas coisas mais cotidianas. Frente a uma doença sem vacina ou medicação e com grande poder de transmissão, o distanciamento social se tornou nosso principal modo de enfrentamento. Uma evidente consequência deste foi a suspensão das aulas presenciais das crianças e adolescentes e substituição por aulas online e tarefas a serem feitas integralmente em casa. Somado a isso, está o acúmulo das tarefas domésticas atribuídas, culturalmente, às mulheres, sem deixar de lado, ainda, a vida profissional, seja em home-office ou presencial, a questão do corpo, da vida sexual e afetiva. A pandemia tem cobrado um preço alto da sociedade, mas este parece pesar ainda mais sobre as mulheres.

Alguns elementos do Brasil atual parecem contribuir para esse desequilíbrio: a desarticulação entre as instituições governamentais acerca do enfrentamento da pandemia; o difícil momento em relação às políticas de gênero; a pressão de grupos religiosos-conservadores sobre às políticas públicas; a crise econômica e, por fim, a crise política. Como explicitação desse desequilíbrio, dos impactos que recaem especificamente sobre as mulheres, podemos apontar, por exemplo, o aumento de gestações indesejadas e da violência doméstica durante a pandemia.

Segundo o projeto Celina “as Nações Unidas estimam que a pandemia possa causar 7 milhões de gestações indesejadas nos próximos seis meses, à medida que as mulheres perdem o acesso à contracepção e aos cuidados de saúde reprodutiva”. No Brasil, assistimos à demissão da equipe técnica de saúde da mulher no Ministério da Saúde devido à publicação, por parte da equipe, de uma nota a favor da saúde sexual das mulheres. A demissão foi uma das consequências da pressão de grupos religiosos-conservadores que parecem lutar contra os direitos reprodutivos das mulheres. Casos de violência doméstica tiveram um aumento de 50% no número de registros desde o início do distanciamento social.

Tomando a tarefa de falar sobre a mulher na pandemia um objetivo necessário e complexo, recorreremos à arte para sustentar tal leitura. Não é objetivo da arte ser útil; entretanto, é interessante observar que, inutilmente ou não, a arte está sempre presente. Talvez como consequência da relação desta com o que há de mais humano: os afetos. Ao tentar capturar os afetos a arte expõe nossas limitações, fracassos, realidades e sonhos, como se, de algum modo, a subjetividade fosse o objeto da arte. O resultado disso é que uma obra de arte é capaz de ultrapassar seu tempo, seus costumes, sua geografia e até sua língua. Assim, um filme que retrata uma história num outro país, numa outra época, é capaz de atualizar nossos afetos mais íntimos e contemporâneos. Em situações limites, como na pandemia da Covid-19, essa capacidade de atualização dos afetos e de localização do humano se torna ainda mais vital, talvez por isso presenciamos uma explosão de manifestações artísticas nos tempos mais duros de cada país e do mundo.

O retrato de uma jovem com um casamento arranjado que ela não queria | Foto: Reprodução

Filme “Retrato de uma Jovem em Chamas”

Dentre as várias possibilidades na arte, recorreremos a um filme específico: “Retrato de uma Jovem em Chamas”, da diretora Céline Sciamma, lançado no Brasil em janeiro de 2020 e já disponível nas plataformas. O filme apresenta um recorte temporal do século 18, porém com questões extremamente atuais sobre a mulher, mais especificamente acerca da ruptura entre a expectativa social sobre a mulher e o seu desejo. Por que este filme remete à pandemia? Porque muitas vezes precisamos da arte para pensar o mundo quando este está próximo demais. Estamos completamente mergulhados na pandemia e vivendo as consequências desta, incluindo a pressão sobre a mulher, sobre seu papel na sociedade e o potencial desnorteamento do seu desejo, em pleno século 21.

O filme é francês, mas nosso olhar é sobre as mulheres no Brasil. O filme sugere a possibilidade de olhar as mulheres sob duas perspectivas, um olhar masculino que coincide com o olhar da sociedade que, rapidamente, atribui à mulher a casa e os filhos, como se essa fosse uma determinação natural; e um outro olhar, feminino, a partir da preocupação da diretora francesa em retratar mulheres fora desse olhar tradicional. É deste outro olhar que precisamos falar para saber mais sobre o que esta mulher do século 18 tem a dizer sobre a mulher da pandemia.

De forma geral, a história do filme é simples. Inicia-se com Marianne, narradora e personagem principal, posando e cedendo seu corpo para suas alunas de desenho. Dizendo a elas o que deveriam ver: “o contorno”, “a silhueta”, “não tão rápido”, “olhe para mim”, “veja a posição do meu braço, minhas mãos”. Marianne é contratada para pintar o retrato de Héloïse, sem que esta saiba, pois Héloïse recusa ser transformada em um quadro, ou ainda, numa imagem/objeto a ser enviada para avaliação do noivo escolhido pela mãe. Restava apenas este retrato para que o contrato se firmasse: ao noivo, seria enviado primeiro o retrato, depois a noiva, Héloïse.

Cena do filme Retrato de uma Jovem em Chamas | Foto: Reprodução

O peso de ser um objeto fica evidenciado pela fusão da história de Héloïse com a de sua irmã. A irmã, destinada a este noivo, se matou e deixou a Héloïse seu destino, “sem pedir desculpas”. O noivo, um patrício milanês, não é retratado no filme mas tem sua vontade bem delimitada: para que Héloïse substitua sua irmã, seu retrato precisa agradá-lo. A mãe acrescenta à história a ideia do destino como eterna repetição: também foi casada com um italiano, que a aprovou pelo retrato, e está determinada a transmitir à filha seu destino. Héloïse luta, à sua maneira, para não sucumbir a tal destino, sem recusar expressamente a determinação imposta pela mãe. Talvez por não querer recusar o destino herdado de sua irmã, ou talvez por não saber bem qual desejo seu sustentaria tal recusa. Está em um lugar sem palavras. O que faz expressamente é recusar fazer-se de objeto para a avaliação dos homens, tanto do noivo quanto dos pintores homens contratados para retratá-la.

Frente à recusa de Héloïse em ser retratada, a mãe contrata Marianne, que se passará por dama de companhia enquanto tenta capturar na memória os traços de Héloïse. Ao oferecer esse olhar, Marianne parece capturar mais que os traços de Heloise, captura também seus afetos. Tal recusa de Héloïse, em ser desenhada e avaliada pelo olhar masculino, nos remete à insistente, maciça e constante presença desse olhar, tanto no século 18 e 21, sobre as mulheres.

Perspectiva masculina sobre a mulher poderia causar aniquilação

Ser mulher, ou melhor, tornar-se mulher, é um difícil esforço de ocupar uma posição de sujeito a partir desse lugar de objeto, determinado pela cultura. Há uma metáfora no filme sobre esse lugar entre o ser mulher e o tornar-se mulher a partir do ato de “flutuar” da personagem Marianne que, quando era levada de barco até a casa de Héloïse, se joga ao mar para recuperar seus materiais de pintura que haviam caído na água. Marianne não sabe nadar, mas podia flutuar. A metáfora se dá pelo lugar dentro-fora da personagem em relação a sua condição de mulher do século 18: suas roupas e seu nome conferiam a ela um lugar de mulher, mas por ter uma profissão e herdar o comércio de seu pai, poderia não se casar e ter suas próprias finanças; publicamente só estava autorizada a retratar mulheres, mas usava a assinatura de seu pai para concorrer em grandes exposições com quadros que incluíam um conhecimento sobre anatomia masculina, proibido às mulheres da época. Nesse jogo entre objeto e sujeito, Marianne e Héloïse, personagens principais do filme, parecem pressentir que a perspectiva masculina sobre a mulher poderia lhes causar a aniquilação, o desaparecimento.

Personagens do filme “Retrato de uma Jovem em Chamas” parecem pressentir que a perspectiva masculina sobre a mulher poderia lhes causar a aniquilação, o desaparecimento | Foto: Reprodução

Assim, embora as duas personagens sejam mulheres, cada uma ocupa um lugar social diferente. Essa diferença leva Héloïse a supor que essa outra mulher, Marianne, não pode, tal como os homens, compreendê-la em sua raiva e sua impotência: “Como você pode escolher, não consegue me entender”. Marianne alterna sua resposta entre “eu entendo você” e “desculpe-me. Odiaria estar em seu lugar”. Essa alternância se deve ao fato de que Marianne está e não está nesse lugar do qual Héloïse se queixa, entretanto, a insatisfação parece ser um lugar comum às duas mulheres. Nenhuma das duas pode ser mulher e, ao mesmo tempo, sustentar seus próprios desejos, escolhas ou nome próprio.

Para a psicanálise essa insatisfação é elementar para a retificação do sujeito, pois é desse lugar de insatisfação que será possível, à mulher, fabricar-se a si mesma. A mulher é aquela que quer colocar seu desejo no discurso e faz constantes reivindicações à cultura por não conceber que a norma geral de fala não lhe possibilita seu lugar desejante. A mulher reivindica uma norma própria para sua sexualidade. Nessa tentativa de compreensão e elaboração o filme retrata a difícil tarefa de tornar-se mulher costurada a difícil tarefa de construir o retrato de Héloïse, de capturar seus traços e seus afetos. O rosto retratado de Héloïse continha, simultaneamente, traços masculinos e femininos, amorosos e hostis, delicados e pesados. Retratá-lo equivaleria a possibilidade de fazer existir A Mulher.

Qual A Mulher do século 18? Certamente ela não existe. Tal qual não existe A Mulher da pandemia. Qualquer tentativa de determiná-la é um esforço de aniquilação. Esse parece ser o desafio das mulheres na pandemia, o de não parar de não se escrever, de forma a evitar uma solução final e totalizante. Retomando o que a mulher do século 18 tem a dizer para a mulher no contexto limite atual, citamos Joan Scott: “A política tem sido descrita como a arte do possível; eu preferiria chamá-la de negociação do impossível, a tentativa de chegar a soluções que – em sociedades democráticas – aproximam os princípios da justiça e da igualdade, mas que só pode sempre falhar, deixando assim aberta a oportunidade de novas formulações, novos arranjos sociais, novas negociações. As melhores soluções políticas na atualidade reconhecem os perigos de insistir em uma solução final e totalizante”.

Aline Brentini é psicóloga egressa da Universidade Federal de Catalão (UFCAT) e mestranda em Psicologia na Universidade Federal de Goiás (UFG). Renata Wirthmann é psicanalista e professora-doutora do curso de Psicologia da UFCAT. É colaboradora do Jornal Opção.

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