Réquiem para Lucas, um gênio do povo, um monumento à inteligência e à curiosidade

Doutor sem ir à escola, poliglota sem aula de idiomas, um garimpeiro saiu de Goiás para o mundo apenas pelo esforço em ler, discutir, adquirir conhecimento

Nilson Gomes

Santa Terezinha de Goiás tem personagens maravilhosos. O melhor deles era Lucas Custódio Rodrigues. Quem passava pelo Vale do São Patrício, dos políticos em carreatas a carrada de artistas, conhecia o Lucas. Gusttavo Lima? Sim. Ronaldo Caiado? Virou amigo. Amado Batista? Também. Nayara Azevedo? Claro. Milionário e José Rico? Ambos. Peões de montaria? Um por um. Ir a Terezinha e não conversar com Lucas era como chegar ao Rio de Janeiro e não ver o Cristo, ir a Roma e não ver um Papa argentino que não é o Messi. Pois na noite desta sexta-feira, 8 de outubro, a Estátua da Liberdade deu adeus a Nova York. Lucas morreu de uma reunião de doenças, Covid entre elas, porque um só mal não o levaria.

Lucas Custódio Rodrigues, um gênio do povo | Foto: Arquivo de Marcos Cabral

O que tornava Lucas tão especial eram duas virtudes, a curiosidade e a inteligência. Falava, ensinava, lia e negociava em três idiomas, além do Português: Inglês, Francês e Espanhol. Prêmio Nobel? Falava sobre os vencedores de Medicina e Física com suas descobertas, não entendia os motivos de grandes beneficiários de guerra vencerem o Nobel da Paz, importava-se de jeito nenhum com os de Literatura, uns escritores dos quais ninguém havia sorvido uma linha sequer – por ninguém entenda-se o círculo de Lucas. Que não era pequeno.

Em que universidade Lucas se tornou poliglota? Na da vida. Sentou-se à mesa com personalidades, mas a mesma vida não lhe legou na infância e juventude a chance de igual gesto em bancos escolares. Ainda assim, era debatedor frequente de economia e administração, geopolítica e estratégias militares, psicologia e relações exteriores. O autor destas linhas estuda economia há décadas e transpirava frio ao ter de rivalizar com Lucas. Sua eloquência era louvável. Esbanjava retórica, usava-a para aplicar extraordinários dribles durante uma discussão, mostrava-se mestre no assunto, porém, jamais fizera cursos sobre Aristóteles ou qualquer dos pensadores – apesar de discorrer acerca dos principais.

Conheci-o por Marcos Cabral, prefeito com três mandatos que num deles implantou na cidade de 10 mil pessoas faculdade municipal com 17 cursos, quatro deles de Engenharia. Lucas ministrava palestras sobre mineração em diversos lugares do mundo, então, por que não se matriculou na academia perto de casa? Teria de, antes, fazer o ensino básico. E outra: sabia mais que os doutores, muuuuuuito mais. Cabral louva a inteligência do amigo e relembra de outro, Paulo Roberto Cunha, que foi deputado federal e prefeito de Rio Verde (PRC o chamava de “meu marqueteiro”). Cortava o Estado para ir a Santa Terezinha conviver com seus personagens. Dialogar com Lucas tinha lugar cativo na agenda. Horas e horas de excelentes papos. Marcos Cabral recebeu a bênção de testemunhá-los. Acompanhou PRC até o fim. E Lucas até agora.

Lucas Custódio (sentado) examina pedras preciosas | Foto: Arquivo de Marcos Cabral

Viúvo, deixa três filhos (Laís, Leidiane e Lucas) e uma legião de fãs – entre os quais me incluo. Sobram casos protagonizados por ele. Estou em alguns, sempre vencido por sua argúcia e sapiência – no entanto, não foram derrotas, mas aprendizado. A turma ria quando Lucas me aplicava um nó. Sem consultar o Google, elencava os primeiros-ministros da Europa e da Ásia (não sei de meia dúzia). Esmiuçava a IIWW (sim, em Inglês), sobretudo as batalhas no Pacífico. Detalhava a ida de Marco Polo à China. E exaltava a Índia, que conhecia de diversas visitas, geralmente a trabalho. O que ia fazer do outro lado do mundo o nosso Marco Polo?

“O Lucas atravessava o planeta em seu ofício de intérprete”, desvenda Marcos Cabral. Apenas três países têm esmeraldas, um deles o Brasil, que possui garimpos em três Estados, Bahia (Campo Formoso), Minas Gerais (região da Itabira de Drummond) e Goiás (cercanias de Santa Terezinha). Lucas nasceu no baiano e no início dos anos 1980 mudou-se para o goiano. Quem vai a Terezinha, gosta. E fica. Ou, ao menos, volta. Lucas ficou. Ficou rico. O boom da extração de pedras semi e preciosas o encontrou na beira do barranco. Sorte de Mega da Virada – de ano é a da Caixa, a de Terezinha se revelava diária. Chegou a ter três boas fazendas. Porém, terra mesmo é o planeta. O dinheiro serviu para Lucas rodá-lo. Que dinheiro bem empregado!

Santa Terezinha produz minério. Tá. E quem adquire a colheita? Estrangeiros, a maioria egressa da Índia. Como o Inglês é o esperanto que deu certo, o idioma universal virou especialidade de Lucas, entre tantas. Chegou cliente internacional para comprar esmeraldas ou qualquer outra pedra? Chama o Lucas. Vai viajar para vender a produção no Rio de Janeiro ou às margens do Ganges? Vai com o Lucas. No destino, ensinava geografia, história e economia daqueles países para os anfitriões. Como adquiria tanto conhecimento? “Estudando”, respondia secamente sem tirar os olhos do jornal. Claro, lia o Jornal Opção, adorava artigos. E consumia cada parágrafo balançando a cabeça. Discordou? Para os lados. Concordou? Para cima e para baixo. Citava os jornalistas goianos com intimidade, a maior delas, a de quem se infiltra no que o outro pensa.

Marcos Cabral ressalta a lealdade de Lucas: “Não mudava de lado quando a gente perdia”. Ah, se teve cargos públicos, olha, alguns. Foi secretário de Esportes, por exemplo. E um exemplo de secretário. Poderia ter sido da Educação. Analfabeto? Oficialmente, talvez, mas na prática não tinha comparação. Português escorreito, vocabulário amplo, criativo ao elaborar frases. Tanto que PRC o chamava de Duda Mendonça — com razão: Lucas era marqueteiro a quem PRC pedia opinião nas campanhas e Cabral ouvia contrito. Garantia que antes de morrer ainda veria Ronaldo Caiado governador. Esperou mais de 30 anos. Sem se curvar. Sem aderir a outros grupos. Viu. Quando Marcos Cabral voltava de Goiânia para Terezinha semanalmente, tinha compromisso certo de detalhar as realizações de Caiado à turma. Lucas vaticinou que o aliado governador chegaria a presidente da República. Talvez alcance, mas Lucas não mais estará aqui a detalhar melhorias em política fiscal, mineração, tecnologia aplicada aos segredos do solo, razão de nossa discórdia.

Para mim, minério é maldição e lugar algum chega a lugar nenhum com commodities.

Lucas ouvia meus argumentos sacudindo para os lados o cérebro brilhante. Pregava: o que está abaixo da superfície salva a Humanidade e nela incluía não apenas os humanos, pois adorava os bichos, a floresta, os rios, as pedras.

Num tempo em que as esculturas toscas em frente a lojas da Havan são os monumentos mais vistos do País, Santa Terezinha só tem a se orgulhar de sua verdadeira Estátua da Liberdade. De sua preciosidade tão valorosa quanto as jazidas que lhe deram fama. Do monumento chamado Lucas Custódio Rodrigues. Tks, teacher.

Nilson Gomes é advogado e jornalista.

Uma resposta para “Réquiem para Lucas, um gênio do povo, um monumento à inteligência e à curiosidade”

  1. Avatar Rêges Lopes disse:

    Lucas foi um homem de visão e conhecimento além do tempo, apesar de pouco estudo, um homem inteligente. O garimpo de esmeraldas na Bahia é em Carnaíba, distrito de Pindobaçú-BA e não em Campo Formoso, onde somente tem o comércio das cobiçadas esmeraldas.

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