O rádio teve Waldir Amaral, Jorge Curi e Fiori Gigliotti, narradores formidáveis. A Globo não tem ninguém com o carisma de Galvão Bueno

Jorge Curi e Waldir Amaral (nascido em Pilar de Goiás): grandes narradores de jogos de futebol na Rádio Globo | Foto: Reprodução

Na minha casa, pré-televisão, era assim: tínhamos um rádio, daqueles grandes, e meu pai, Raul, apreciava ouvir notícias e, à noite, a “Voz do Brasil”. Ele sabia, de cor e salteado, os nomes dos principais deputados e senadores (admirava Nelson Carneiro, o do projeto do divórcio) do país, e estava sempre comentando sobre seus projetos e ideias. Depois que deixava o rádio, eu podia ouvir as notícias de futebol nas rádios Globo e Bandeirantes e música numa emissora, se me lembro bem, de Moscou.

Na minha época de menino, entre as décadas de 1960 e 1970, a gente torcia para times em vários Estados. O meu clube preferido era o Santos, por causa de Pelé e Clodoaldo. Mas também apreciava o Fluminense, do Rio de Janeiro, o Atlético, o Galo de Belo Horizonte, e o Grêmio, de Porto Alegre. Raul comprava a revista “Veja”, na banca de Eliziano, meu padrinho de crisma e uma pessoa gentilíssima (sua banca ficava na rodoviária antiga da cidade), e permitia que eu adquirisse a “Placar”. Eu lia  a revista, mesmerizado, e era praticamente um expert em futebol de todo o país (sabia sobre o Sampaio Corrêa, do Maranhão, e sobre o CRB, de Alagoas). A parede de meu quarto era cheia de pôsteres de times de vários Estados. Era tão cheia que, às vezes, eu tinha de trocar algum para colocar um novo.

Fiori Gigliotti: o craque que brilhava fora do campo e jogava com a voz | Fotos: Reproduções

Nos dias de jogo, era quase uma festa, eu me concentrava ao lado do rádio para ouvir as narrações de Waldir Amaral, Jorge Curi, Antônio Porto (que, mais tarde, se tornou colunista do Jornal Opção, sempre fumando charuto), José Carlos Araújo e, de São Paulo, Fiori Gigliotti. Os três primeiros eram da Rádio Globo e eu os idolatrava. Frise-se que eu e meus colegas, quase todos, ouvíamos os jogos pela Rádio Globo, consequentemente os times do Rio de Janeiro eram os preferidos da turma. Lembro-me que, quando eu dizia que torcia para o Santos, as pessoas perguntavam, invariavelmente: “Por que não torce para o Flamengo [o que tinha mais torcedores], para o Fluminense, para o Vasco ou para o Botafogo?” Quando eu dizia que tinha uma “quedinha” pelo Fluminense, e até pelo América, elas diziam: “Ah, bom”.

Ouvir os jogos pelo rádio era um espetáculo à parte. Havia o jogo em campo, com craques como Pelé, Coutinho, Clodoaldo, Rivellino, Gerson, Tostão, Piazza, Dirceu Lopes, Jairzinho (o jogador que eu mais admirava, mas não gostava de assumir, pois ele era do Botafogo, o grande rival do Santos) e, mais tarde, Reinaldo, do Atlético Mineiro. E havia a narração, que, de alguma maneira, era um outro “jogo”, tal a magia transmitida por Waldir Amaral e Jorge Curi. Eu ria à socapa ao ouvir o comentarista de arbitragem, Mário Vianna, criticar (e atacar) os juízes, chamando-os de “ladrões” — “lamanos”. Mário Vianna, “com dois enes”, esclarecia-se, era uma espécie de Pedro de Lara (o jurado mal-humorado de programas auditório da televisão) do futebol.

Mário Vianna: crítico feroz dos árbitros | Foro: Reprodução

O rádio era um mundo encantado, que, na minha meninice, eu pensava eterno. Sei que, hoje, poucas pessoas sabem alguma coisa sobre Waldir Amaral, Jorge Curi, Fiori Giglioti e Mário Vianna. Devido ao avançar da vida, chega-se a hora do esquecimento. Viver, curtir o presente, é abandonar o passado, transformando-o numa coisa “morta”, às vezes um retrato na parede, como Itabira. Mas, talvez devido à minha boa memória, recordo, com prazer, dos jogos e das narrações dos “artistas” da Rádio Globo e da Rádio Bandeirantes.

Um dia, na década de 1970, meu pai adquiriu, finalmente, uma televisão, salvo engano Telefunken, e ficamos extasiados. A imagem não era lá grande coisa. Certa feita, estávamos assistindo um jogo da seleção e os chuviscos quase não deixavam a gente ver direito a bola e os jogadores. Então, alguém subiu no telhado da casa e mexeu na antena (se a antena era interna, colocava-se um pedaço de palha de aço, “bombril”, na sua ponta); às vezes, melhorava, outras não. Por sugestão de uma pessoa — talvez Geraldinho Fernandes, amigo de meu pai e casado com minha adorável tia Hilda, tenha dado a ideia, pois era um homem prático —, decidimos assistir os jogos pela televisão, mas com o som do rádio. Percebemos, de cara, que os jogos pelo rádio eram mais emocionantes e as bolas nem sempre passavam “raspando” na trave. Havia um pouco de ficção, de arte representativa, meio teatralizada, na narração esportiva. Mas nós não condenávamos isto; pelo contrário, aprovávamos com prazer.

Aos poucos, a televisão, na área esportiva, ocupou parte do espaço do rádio (que, felizmente, continua “vivo”). Mesmo assim, nos estádios, ainda é possível ver pessoas assistindo ao jogo em campo, mas acompanhando a narração e os comentários pelo rádio. Certa feita, durante um jogo entre o Atlético Goianiense e o Santos, ao perceber a empolgação de um torcedor, pedi para ouvir um pouco. Ele me passou o rádio e eu acabei tão empolgado quanto ele (gol ouvido pelo rádio é um esplendor, quase o nirvana). Não me lembro se o narrador era Edson Rodrigues — um gênio do rádio esportivo em Goiás. Mas não esqueço de que o torcedor teve de pedir o rádio, pois eu havia me esquecido de devolvê-lo. Ele ainda brincou: “Da próxima vez, trago dois”. Rimos.

Como sabia Madame de Stäel, todos (ou quase), um dia, serão esquecidos (felizmente, Homero e Virgilio, assim como Balzac e o café, não o foram). Waldir Amaral (“o relógio marca”, “tem peixe na rede”, “indivíduo competente”, dizia), Jorge Curi e Fiori Gigliotti (li, com imenso prazer, o livro “Fiori Gigliotti — O Locutor da Torcida Brasileira”, de Mauro Beting e Paulo Rogério. É uma “hagiografia”, mas, ainda assim, é excelente) permanecem guardadinhos num canto de meu cérebro. Quando falo sobre eles, parece que escuto suas vozes, tão belas quanto incisivas, ecoando na, digamos, minh’alma. Há pouco, recorri ao YouTube, para ouvir as narrações do trio, e, confesso, fiquei ligeiramente emocionado. O passado se fez presente para mim, como se aquele tempo, congelado, estivesse vivo, vibrando no interior do meu ser.

Galvão Bueno: narrador esportivo a TV Globo | Foto: Reprodução

Lembrei-me de Waldir Amaral (nascido em Pilar de Goiás — 1926-1997), Jorge Curi (1920-1985) e Fiori Gigliotti (1928-2006) quando li que a TV Globo está “dispensando” Galvão Bueno (só vai cobrir a Copa do Mundo do Catar), herdeiro da tradição dos narradores citados. Num mundo de emoções controladas, Galvão é visto como chato por muitos, mas poucos narradores conseguem transmitir tão bem a emoção de um jogo quanto ele. O narrador vive o jogo, participa dele, como se estivesse em campo, e fosse, ao lado do técnico, o 12º jogador. Talvez tenha se perdido um pouco, nos últimos anos, ao narrar menos e comentar mais, competindo com os comentaristas contratados. Tornou-se, de certa forma, por demais invasivo.

A Globo está retirando Galvão de cena por causa do salário e da idade. A rede está processando uma renovação há algum tempo, esvaziando seu principal narrador. Não está errada e, com a internet, há espaço para o profissional continuar trabalhando. Recentemente, ouvi (mais do que vi), no UOL, trechos do jogo entre o Palmeiras e o Chelsea, pelo campeonato mundial, e fiquei espantado com a quantidade de palavrões ditos pelo narrador (e sem o menor sentido). Faltou o mínimo de elegância verbal e sobrou brutalidade. Diz-se que Galvão é um narrador-torcedor. De fato, é. Todos são, talvez ele seja mais. Mas raramente ele perde a compostura.

Vamos sentir falta de Galvão Bueno — 72 anos em julho? É provável, ao menos por algum tempo. Mas ele será esquecido como Waldir Amaral e Jorge Curi? É possível.

Renata Silveira vai narrar jogos do Brasileirão | Foto: Reprodução

Apostando nos novos tempos — democráticos —, a Globo escalou Renata Silveira para narrar jogos do Campeonato Brasileiro de 2022. Trata-se, informa o Portal dos Jornalistas, da “primeira mulher a narrar futebol masculino na emissora, em tevê aberta”.

Renata Silveira narrou jogos no canal SporTV e no Premiere. Nunca vi. Mas me disseram que é craque. Poderá, com o tempo, se tornar a substituta de Galvão Bueno? É provável que sim. Dos narradores atuais, que são bons, nenhum tem o carisma de Galvão Bueno.

O futebol era um clube do Bolinha. Não é mais. Sei mais sobre a notável jogadora Marta, uma espécie de Pelé, do que a respeito de alguns jogadores “importantes” da seleção masculina. Renata Silveira, dado seu talento, certamente ocupará um espaço cada vez maior na Globo. Uma narração menos explosiva, quiçá mais cadenciada, talvez seja necessária em tempos tão violentos (nos e fora dos estádios).

A Globo também terá uma comentarista mulher — Ana Thaís Matos. Ela e Renata Silveira integram o time de Cleber Machado, Luís Roberto e Gustavo Villani.

Fórmula 1, Galvão Bueno e Sérgio Maurício

Por fim, uma última palavra sobre o locutor esportivo que, mesmo saindo da Globo, depois da Copa do Catar, diz que não está se aposentando. Poucos profissionais narraram tão bem a Fórmula 1 quanto Galvão Bueno. Ele se emocionava — e sua comoção parecia genuína — e emocionava o telespectador.

Sérgio Maurício, narrador de Fórmula 1 da Band | Foto: Reprodução

Sérgio Maurício (apoiado pelo excelente comentarista Reginaldo Leme), o narrador da Fórmula 1 da Band, segue pelo sendeiro de Galvão Bueno. Tenho apreço pelo seu trabalho e o considero um profissional de excelente nível. Mas falta uma certa contenção e ele parece à beira de um ataque de nervos, mesmo quando não há emoção alguma na pista (voltei a ver as corridas por causa da garra do holandês Max Verstappen. Quase sempre torço para o britânico Lewis Hamilton, talvez numa espécie de homenagem inconsciente à minha amada bisavó Tuosa, que era negra, mas as provas, com ele vencendo tudo, estavam modorrentas).

Não sei por qual motivo, e talvez haja alguma razão plausível, Sérgio Maurício não para de chamar Lewis Hamilton — o melhor piloto da Fórmula 1 atual (seu carro, no momento, não o ajuda; ajustado, talvez nem Verstappen e Charles Leclerc conseguirão segurá-lo — de “patrão”. Com um pouco mais de sobriedade, Sérgio Maurício se tornará um apresentador à altura de Galvão Bueno.