Relatório da Fenaj revela que Brasília é onde ocorre mais violência contra jornalistas

O relatório mostra que Bolsonaro é o principal agressor e relata casos de censura na Empresa Brasileira de Comunicação

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), presidida pela jornalista goiana Maria José Braga, divulgou na quinta-feira, 27, o Relatório da Violência Contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa-2021. A conclusão é que os casos de violência permanecem elevados.

“O número de agressões a jornalistas e a veículos de comunicação manteve-se nas alturas em 2021 e, pelo segundo ano consecutivo, foi o maior desde que a série histórica começou a ser feita na década de 1990”, relata a presidente da Fenaj. Em 2021, foram registradas 430 agressões contra jornalistas. No ano anterior, foram 428.

Para Maria José Braga, “a continuidade das violações à liberdade de imprensa no Brasil está claramente associada à ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República”.

A líder da Fenaj enfatiza que “a censura chegou a passar a descredibilização da imprensa, violência mais comum nos últimos relatórios e hoje ocupa o primeiro lugar nos ataques”.

Censura na EBC do Bolsonaro

Sublinhe-se que “a maioria das censuras foi cometida por dirigentes da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), aparelhada pelo governo federal”. Lá, por vezes, notícia de “qualidade” é pró-Bolsonaro. O Jornal Opção apurou que notícia que contenha alguma crítica, mesmo que leve, tem sido ignorada. Há profissionais que, por não aceitarem as novas regras, são mantidos à margem ou foram afastados.

Há o registro de 140 ocorrências de censura e 138 delas ocorreram na EBC — o que reforça a gravidade do caso (trata-se de uma empresa pública). Há quem, lá, diga, nos bastidores, que EBC significa Empresa Bolsonaro de Comunicação. “As censuras representaram 32,46% do total de casos, enquanto a descredibilização da imprensa respondeu por 30,46% (foram 131 ocorrências no total)”, mostra o relatório — que, por sinal, ganhou repercussão no “Jornal Nacional”, na voz de William Bonner, na quinta-feira.

O relatório indica que “cresceu o número de casos de atentados contra jornalistas e de violência contra a organização dos trabalhadores. Foram quatro atentados e oito ataques a entidades/dirigentes sindicais”.

Bolsonaro persiste como “o principal agressor” de jornalistas. “Sozinho ele foi responsável por 147 casos (34,19% do total), sendo 129 episódios de descredibilização da imprensa (98,47%da categoria) e 18 agressões verbais”. Seguidores do presidente também estão entre os agressores.

O presidente, quando ataca jornalistas, costuma adjetivá-los como “canalha”, “quadrúpede”, “picareta” e “idiota”. Extrapolando sua autoridade, mandou um profissional ficar calado — quando jornalistas que se prezem não podem nem devem ficar em silêncio.

Violência contra as mulheres e homens

Os homens (55,89%) são mais agredidos do que as mulheres (26,64%), segundo o relatório. Mas elas sofrem agressões machistas e misóginas. “Em 40 casos (17,47%) os profissionais não foram identificados ou a violência” se deu “contra equipes, o que não permitiu a classificação por gênero”. A presidente da Fenaj ressalta que “os ataques às mulheres têm uma característica peculiar. Elas são atacadas na sua vida pessoal, na sua” condição “de mulher, com xingamentos como ‘vagabunda’, ‘puta’, ‘louca’”.

Cento e cinquenta agressões (56,90%) contra jornalistas ocorreram no Distrito Federal, onde reside e trabalha Bolsonaro. Estão incluídos “os 138 casos de censura registrados na EBC”. No Centro-Oeste, no total, ocorreram 269 agressões. O Sudeste é a segunda região mais violenta contra jornalistas, com 69 ocorrências (23,23%). Nesta região, São Paulo é o campeão em violência, com 45 casos (15,15%). O Nordeste registrou 25 casos de violência (8,42%), com a Bahia sendo o Estado mais violento. O Sul registrou 18 casos de agressões a profissionais (6,06%). O Estado mais violento é o Paraná. O Norte do país é menos violento, com 16 ocorrências (5,39%). O Pará persiste como o mais violento.

O número de agressões verbais, com 18 casos, caiu. O índice de agressões físicas também é menor, com seis casos a menos do que em 2020. Talvez seja possível sugerir que, no caso, há subnotificação. Certas agressões verbais às vezes são vistas como “debates” ou “conflitos naturais”.

O relatório revela que, “em termos porcentuais, as maiores quedas foram nas categorias assassinato, injúria racial/racismo e impedimento ao exercício profissional. Foram registrados dois casos de assassinato e de injúria racial, em 2020, e uma ocorrência de cada, em 2021. Houve ainda sete casos de impedimento ao exercício profissional em 2021, contra 14 em 2020. Nas três categorias houve, portanto, decréscimo de 50%”. Há subnotificação quando se trata de racismo.

Maria José Braga: presidente da Fenaj | Foto: reprodução/ Facebook

De acordo com o relatório da Fenaj, “em 2021, os profissionais da EBC foram vítimas de 138 ataques (37,40%) — seguidos pelos profissionais de televisão, com 94 ataques (25,47%). Em terceiro lugar estão os profissionais de mídia digital, somando 44 ataques. Em 30 casos (8,13%) a mídia dos profissionais não foi identificada”.

“É necessário que haja ação do poder público, das empresas de comunicação e apoio da sociedade brasileira para que haja combate da violência contra jornalistas. 2022 é ano eleitoral e as disputas políticas estarão acirradas e a Fenaj já se coloca de prontidão para apoiar os jornalistas no seu trabalho”, afirma Maria José Braga.

O Jornal Opção faz uma sugestão à Fenaj: que seja feito um levantamento do “uso” — ou tentativa de uso — da Justiça para “calar” jornalistas e jornais. Há processos que, embora descabidos, encontram eco na justiça, às vezes levando à condenação de repórteres. Muito das ações não tem como motivação esclarecer os fatos, e sim, sobretudo, intimidar os profissionais (é uma maneira de conter o jornalismo investigativo). De resto, é uma violência a mais. Em determinadas regiões, nas quais o poder político eventualmente pode influenciar as decisões de magistrados, às vezes sentenças “legais” mas “ilegítimas” são fatores de intimidação. A Fenaj está coberta de razão quando sugere que o Congresso Nacional aprove o projeto de lei que propõe a federalização da apuração dos crimes contra jornalistas. A, digamos, desterritorialização pode, possivelmente, reduzir a violência. Porque, sem a certeza de impunidade, é possível que políticos e empresários se comportem de maneira “civilizada”.

A Fenaj também deveria levantar quais são as redes sociais que mais abrem espaço para ataques (coonestando-os) — e não críticas substanciadas — à atividade jornalística.

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