Euler de França Belém
Euler de França Belém

Reis da internet sabem que sucesso é efêmero e por isso querem arrancar casquinha do capitalismo

Blogueiros, cantores e youtubers fazem tudo para obter sucesso e ganhar dinheiro rapidamente. Sabem que a distância entre o topo e a queda é pequena

Arte de Mike Davis

Não adianta reclamar do que se tornou dominante nas redes sociais — enfim, na internet. Alcança-se sucesso rapidamente, em várias áreas, mas o esquecimento também chega de maneira veloz. O sucesso é um fogo fátuo, algo assim. Por isso, de maneira intuitiva ou instruídos por profissionais especializados, artistas, quase-artistas, blogueiros procuram tirar o máximo da fama instantânea. Eles sabem que, se hoje ganham dinheiro, amanhã poderão acordar na chapada — comendo o pão que o diabo às vezes amassou.

A dica dos experts é simples e eficiente: deem declarações, estapafúrdias ou inteligentes — o importante é que sejam polêmicas —, que, jogadas nas redes, alcancem repercussão imediata. A qualidade das “informações” não tem a mínima relevância. Não há nenhum interesse por sua importância real para as pessoas. Seminal é aparecer, ser discutido e atrair mais seguidores — como os fãs agora são conhecidos.

Arte de Mike Davis

O cantor que é quase-gay

O cantor de sucesso “toma” a namorada de um jovem desconhecido, que, de repente, se torna conhecido. Parece até satisfeito por ser apresentado como “corno”. Não um “corno” qualquer. Um “corno” famoso, em escala nacional e, quem sabe, até internacional. O artista, para apimentar ainda mais e não sair das listas tops, diz que, na cama, vale tudo. Ele “informa” que faz qualquer coisa, insinuando que é “quase-gay”. Só não aceita ser passivo. É, diga-se, um machão, mas daqueles que, em tempos idos, era nominado de “metrossexual”. Avisa, de cara, que gosta de mulheres e de sexo, com um advérbio de quantidade, “muito”, acompanhando a fala.

O resultado é que o cantor não sai das páginas dos jornais e dos blogs — muitos deles sérios, até sisudos. Como não divulgar o que “todo mundo” está lendo ou querendo ver? Não se pode ficar “por fora”.

Arte de Igor Morski

A atriz da TV Globo e a lingerie mignon

A atriz global, uma loira de sucesso, volta e meia aparece estreando uma lingerie nova e sempre mignon. Em vídeos sensuais, apresentados como tendo “abalado” as redes sociais — por terem sido vistos em escala geométrica, o que talvez encantasse o britânico Thomas Malthus (como o economista e sociólogo era clérigo, é preciso acrescentar que ficaria encantado com os números, mas talvez não com o “peladismo”) —, a loura, por sinal boa atriz, conquista todos. Pela beleza e pelas poses. A lingerie? É provável que ninguém tenha visto.

Por que a loira, sendo boa atriz, aparece sensualizando nas redes sociais? Talvez para não ser esquecida. Quem sabe para ajudar a vender algum produto ou para atrair anunciantes? Quiçá porque algum prazer ao saber que está sendo observada por milhares, até milhões.

A cantora bonita e o sexo anal

Arte de Rafal Olbinski

A cantora bonita, sucesso como empresária, sempre aparece de calcinha e em poses sensuais — com homens e mulheres, todos guapos. Em seguida, para “esquentar” o ambiente, anuncia que faz “sexo anal”. Mas, antes, precisa ser conquistada pelo parceiro. Já disse também que “ama” homens e mulheres.

Por que, se é uma cantora de sucesso, precisa de tais artifícios? Por um motivo prosaico: para aparecer sempre, para não sair da boca do povo. Mesmo sem uma consciência digamos marxista, tais jovens, inteligentes e nativos na web, entendem que tudo é mercadoria. Tudo pode ser vendido nas redes. Se você não consegue vender, então você é vendido por uma empresa ou por um indivíduo. Então, para não ficar trás e aproveitar o momento — o sucesso e a morte do sucesso são hermanos indissociáveis, em velocidade às vezes supersônica —, todos, ou quase todos, se divulgam como podem (até grandes artistas baianos, que ficarão na história, aliás, já se estabilizaram, ou seja, são história, estão aproveitando a onda, para não ficar para trás, para não ser afogados). Por que deixar o filé só para o Google, para o Twitter, para o YouTube e para o Facebook? Vamos todos — ou quase todos — aproveitar. No reino do capitalismo (que se tornou o inconsciente humano), quem não é mercadoria é visto como “traste”, quer dizer, não tem serventia.

Blogueiro-ideólogo e as hemorroidas do youtuber

Pintura de Igor Morski

O blogueiro famoso acabou por se tornar uma espécie de ideólogo da esquerda e um crítico severo — e, apesar da superficialidade, respeitado — da direita. Tudo que diz ecoa em jornais, revistas, blogs e redes sociais. Se tornou o vade mecum da intelectualidade de esquerda. Os que o detestam — e até odeiam — contribuem para seu sucesso ao, atacando-o, divulgarem o que “pensa” e “sente”.

Milionário, o blogueiro ostenta sua BMW (vale mais de 300 mil reais), apresenta um computador super avançado (custa cerca de 100 mil reais) — como se fosse um filho dileto que acabou de ser aprovado no vestibular —, exibe a mansão (de 10 milhões de reais) e, com certa discrição, fala de sua fortuna. Porque tudo o que fala, ressaltando o sucesso, atrai mais seguidores, quer dizer, mais sucesso e, portanto, mais dinheiro. Nas redes, percebe-se que, mais do que seguidores, tem torcedores — quiçá até mais do que certos times de futebol. Agora, ele diz que está doente — e talvez esteja, afinal ninguém é de ferro. Vender “humanidade” na internet é outro negócio. Espertamente, ele diz: ganho muito, mas reparto um pouco. Bonitinho, não é? Um fofo.

Há até o youtuber que faz sucesso informando que operou as hemorroidas. A história é tão boa, mas tão boa, que, volta e meia, o jovem bem-sucedido, que já se separou de uma bela jovem e se casou com outra — tudo deve ser dito (as redes sociais estão tomando pacientes dos psicanalistas e dos psiquiatras) —, retorna ao médico para outra cirurgia (claro, exibe a fotografia deitado com a bunda pra cima). Ninguém nunca viu hemorroidas tão grandes, longevas e, também, célebres.

Arte de Rafal Olbinski

O filósofo alemão Theodor W. Adorno, que estudou a indústria cultural como poucos, morreu em 1969, com 65 anos. Se vivo estivesse, certamente ficaria “doido” com as novas relações que o capitalismo criou para homens e mulheres. O que diria? Não dá para saber, é claro. Ficaria chocado com a exposição — inclusive comercial e por agentes individuais — da intimidade? Diria que o capitalismo finalmente conquistou todos, ao transformar tudo, inclusive valores morais, em mercadoria?

Quem está ganhando dinheiro com a exposição dita “excessiva” não liga a mínima para o que se disse acima — e faz muito bem. Porque os bem-sucedidos agora sabem que o sucesso pode não durar muito tempo. Por isso é preciso tirar o máximo de proveito da exposição. Os jovens hábeis não estão na bolsa de valores, como Facebook e Google. Então precisam encher a sacola aqui e agora — ainda que tenham de falar das próprias hemorroidas ou da pintola (de um cantor sertanejo) que, com auxílio médico, ficou um pouco maior despois de uma cirurgia (o sujeito acabou por perder a namorada). Defeitos e virtudes contam, e muito.

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