Euler de França Belém
Euler de França Belém

Reiner Stach lança biografia-bíblia sobre Franz Kafka, autor de O Processo e A Metamorfose

O cartapácio de quase 2400 páginas contém tudo ou quase tudo sobre o escritor tcheco que escrevia em alemão. A literatura era o centro de sua vida, afirma pesquisador da Alemanha

reiner-stach

Reiner Stach, pesquisador alemão, tenta explicar o curto-circuito entre a vida e a literatura que, nos seus romances e contos, Kafka explorou com mestria

Álvaro de la Rica resenha¹ a biografia “Kafka” (são três volumes, com 2.368 páginas; Editora Acan­tilado), do alemão Reiner Stach, de 65 anos, na edição de domingo, 4, do jornal espanhol “Abc”. Trata-se de uma bíblia sobre Franz Kafka (1883-1924), escritor tcheco que escrevia em alemão, morto em 1924, aos 40 anos. O autor legou aos leitores “O Processo”, “O Castelo” e “A Metamorfose” — três obras-primas incontornáveis e que se tornaram parte do imaginário das pessoas, ao menos no Ocidente. Quem não diz, com certa frequência, a frase “isto é kafkiano”?
O comentário de Álvaro de la Rica começa com uma citação de Dora Diamant, a namorada que cuidou de Kafka, no sanatório de Kierling, “até sua morte”. O escritor, “quando se tratava de literatura, não transigia e não estava disposto a aceitar nenhum compromisso, pois toda a sua existência era afetada por ela”, anotou Dora Diamant². A literatura era tudo para Kafka. Era a vida, a sua vida. O resenhista assinala que aí reside o coração da tese do calhamaço de Reiner Stach.

Numa carta de outubro de 1923 (dez anos antes de Adolf Hitler se tornar chanceler da Alemanha — de maneira democrática), enviada de Berlim (ele queria viver lá, escrevendo — longe das “garras da cidade de Praga”) para a irmã Elli, Kafka escreve: “Faz pouco tempo que tive uma aventura amorosa. Estava sentado ao sol, no jardim botânico, quando passou um grupo de estudantes de uma escola de meninas. Entre as colegiais havia uma bonita, alta, loira, adolescente, que sorriu, com coqueteria, e gritou algo para mim. Naturalmente, devolvi o sorriso com amabilidade. Até que me dei conta do que, na realidade, havia me dito. Ela havia dito: ‘Judeu’”.

Ao modo do cinema

O método biográfico de Reiner Stach, na opinião de Álvaro de la Rica, tem a ver com o cinema. A leitura de quase 2.400 páginas não é nada fácil, ainda mais sobre um escritor complexo como Kafka, que possibilita diferentes interpretações. O crítico nota que, talvez para facilitar a leitura, “o biógrafo parece que utiliza, na apresentação do imenso material acumulado, técnicas cinematográficas”. Atente-se para a palavra “parece”, pois, ainda que Álvaro de la Rica não o diga, pode não ter sido intencional. Afinal, nem toda maneira de tornar uma informação mais palatável tem a ver com cinema. O comentarista ressalta que Reiner Stach, ao se referir ao seu método de narrar a história, “fala” em “narrativa cênica”.

No livro — que não li, e Álvaro de la Rica leu, atentamente —, a cena na qual a estudante alemã “insulta” Kafka, chamando-o de “judeu”, é apresentada como uma cena de cinema, vívida. “São muitos os recursos do cinema que o autor emprega de maneira quase constante: desde o que poderíamos denominar, em muitos momentos do livro, imagens em alta definição até o uso do recurso ao ‘zoom’ ou a imagens claramente panorâmicas. Não se deve esquecer que todo o conjunto da obra de Stach, com os três livros que a compõem, tem a forma de um filme inicial (primeiro se publicou o correspondente ao período central da vida do escritor com o título ‘Os Anos das Decisões’, em 2002), mais uma sequência (referente aos anos finais até a morte, ‘Os Anos do Conhecimento’, de 2008) e, finalmente, ‘Os Primeiros Anos’, de 2014.”

“Kafka”, do expert alemão Reiner Stach, é considerada por alguns críticos como a biografia mais densa do autor de “O Processo” e “A Metamorfose”, obras-primas do escritor tcheco

Reiner Stach usa “o recurso da narrativa fílmica”, avalia Álvaro de la Rica, para conduzir o leitor, rumo ao entendimento de uma vida e uma literatura complicadas, e para levá-lo a mudar de perspectiva. Há várias biografias de Kafka, um dos autores mais estudados. Porém, embora tenha falecido há 92 anos, sua vida não é nada fácil de explicar. Ainda há dados a revelar e sua obra tem sido “estabelecida” (ou “reestabelecida”) por experts alemães (no Brasil, tem sido traduzido, de maneira competente, por Modesto Carone, para a Editora Companhia das Letras, e por Marcelo Backes, para a Editora L&PM).

O analista do “Abc” afirma que Reiner Stach escreveu, “sem dúvida, a melhor biografia de Kafka”. Trata-se, sublinha Álvaro de la Rica, da “melhor introdução ao que chamamos de ‘kafkiano’”. O autor teria usado a técnica do “close-reading”, “a mesma que serviu a Erich Auerbach para desentranhar a história da literatura ocidental em seu célebre ‘Mimeses³’”.
Conhecer Kafka é mais do que saber sobre sua vida — é vasculhar os tesouros obscuros de sua obra, que sempre diz mais a cada leitura. Reiner Stach é elogiado pela crítica por ser um exímio conhecedor da literatura de Kafka e por ir atrás de cada detalhe de sua vida. “Must” (sensacional, imprescindível), nas palavras do crítico do “Abc”, é a palavra que define o livro. A obra seria um ensaio biográfico.

O analista do “Abc” assinala que Reiner Stach não se esconde atrás da imensa bibliografia e não é “dominado” pelo farto material sobre Kafka. O biógrafo “usa” bem o material de e sobre Kafka. Verifica, de modo intenso, “Carta ao Pai”, a correspondência de Kafka, os testemunhos dos que conheceram o autor, o material biográfico apurado por outros pesquisadores [como Wagenbach e Binder], os escritos profissionais de Kafka [suponho que tenha a ver com seu trabalho como advogado, e não com os romances e contos], seu “Diário” e suas obras narrativas ou aforísticas.

Ao contrário dos biógrafos supostamente apressados, Reiner Stach seria consciencioso, no entendimento de Álvaro de la Rica. Em 1995, ao iniciar a pesquisa para escrever a biografia de Kafka, decidiu que os anos iniciais deveriam ficar para mais tarde, assim que os documentos de Max Brod — o amigo que, ao não queimar os originais, tornou Kafka possível — fossem liberados. Na época, eram inacessíveis. O biógrafo optou por examinar cuidadosamente a edição crítica da obra de Kafka, um empreendimento da editora alemã Fischer — a partir de 1982 —, e começou a estudar o período de 1910 a 1915. Sua expectativa era de que, mais tarde, o Arquivo Brod fosse liberado para consulta, o que não aconteceu.

No lugar de desanimar-se, devido à falta de determinados dados, Reiner Stach decidiu ampliar sua pesquisa, investigando tudo o que estava disponível em algum canto da e fora da Europa (em Israel, por exemplo). O resultado são os três livros — uma biografia que se pode chamar de uma bíblia sobre Kafka.

Ao término da resenha, de excelente qualidade, Álvaro de la Rica pergunta: “O que é, em essência, o kafkiano?” Apropriadamente, afirma que é preciso ler o livro inteiro para saber, até porque, embora não diga isto, o kafkiano não é, certamente, uma única coisa. Seria o absurdo da existência, a falta de entendimento entre os homens (a falta de um terreno comum), a poderosa força esmagadora da burocracia, a falta de clareza da vida (talvez vital)?

O crítico do “Abc” resume assim o que chama de quintessência do universo de Kafka: “Trata-se do encontro íntimo, na existência, de um curto-circuito entre o que Kafka chamava a vida (as obrigações dos indivíduos de uma espécie, o desenvolvimento dos laços familiares, a vivência hobbesiana da agressividade do outro) e a literatura entendida como autoconhecimento e contemplação e o desejo incurável de harmonia eterna e do bem”.

Não há notícia de que alguma editora brasileira planeje publicar o cartapácio de Reiner Stach. Como traduziu praticamente toda a obra de Kafka para o português, de maneira cuidadosa, a Companhia das Letras deveria traduzir a biografia de mais de duas mil páginas. Seria uma importante contribuição para a ampliação do entendimento da prosa e da vida escorregadia do autor tcheco que “queria” ser alemão.

Como adquirir

Os três volumes podem ser encomendados, em inglês ou espanhol, nos sites das livrarias Cultura, Amazon e Casal del Libro.
Notas

1 “Franz Kafka: La verdad de un mito”, artigo de Álvaro de la Rica. Vale a pena consultar o texto original — até para checar se, ao traduzir (ou adaptar e condensar) trechos, não cometi impropriedades.

2 “O Último Amor de Kafka — O Mistério de Dora Diamant” (296 páginas), de Kathi Diamant, saiu no Brasil pela Editora Via Lettera.

3 “Mimeses”, de Erich Auerbach, Editora Perspectiva, 520 páginas.

4 Traduzi “y el deseo incurable de armonía eterna y de bien” como “o desejo incurável de harmonia e do bem”.

2 respostas para “Reiner Stach lança biografia-bíblia sobre Franz Kafka, autor de O Processo e A Metamorfose”

  1. Avatar Carlos F. Diniz disse:

    Está incorreta a afirmação de que os três volumes da biografia podem ser encontrados em espanhol. Somente um dos volumes (Años de Decisiones) foi publicado em espanhol. Os outros dois, que foram escritos mais recentemente, só podem ser encontrados em alemão ou inglês. Aguarda-se com grande expectativa que a editora espanhola edite os dois volumes faltantes.

    • Avatar carlos sica diniz disse:

      Retifico post de 12/05/17. A editora espanhola Siglo XXI traduziu somente o segundo volume da biografia. Porém, a Acantilado publicou a traduçao para o espanhol das três partes, condensando-as em dois volumes. O tradutor do alemão é Carlos Fortea.

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