Euler de França Belém
Euler de França Belém

A redescoberta da obra do escritor que rejeitou o boom literário de García Márquez e Vargas Llosa

Literatura de Néstor Sánchez começa a ser republicada na Argentina e filme vai relatar sua vida. Sua prosa era elogiada por Julio Cortázar, Severo Sarduy, Antonio Di Benedetto e Emir Rodríguez Monegal

Néstor Sánchez, escritor argentino, viveu como “vagabundo” nas ruas  de Nova York e flanou por Paris, Roma, Amsterdã, Barcelona e Caracas

Néstor Sánchez, escritor argentino, viveu como “vagabundo” nas ruasde Nova York e flanou por Paris, Roma, Amsterdã, Barcelona e Caracas

Néstor Sanchez (1935-2003) é considerado um dos mais importantes escritores da Argentina e “do” boom da literatura latino-americana, ao lado de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, que contaram com os préstimos da agente literária espanhola Carmen Balcells e da imprensa europeia para se consagrarem internacionalmente. No entanto, suas obras, algumas até objeto de culto e vulgarizadas por Julio Cortázar, não se tornaram tão celebradas quanto os romances “Cem Anos de Solidão”, do colombiano, e “Conversa no Catedral”, do peruano. O motivo não são seus livros, apontados como de qualidade pelos críticos, e sim o próprio autor, que não se interessou pela intensa publicidade dos criadores do boom.

Diego Erlan, da revista “Ñ”, do “Clarín”, edição de 12 de julho deste ano, escreveu uma reportagem, “Néstor Sánchez — Testimonios para releer al autor más elusivo”, no qual comenta que há uma tentativa de resgatar o autor e sua obra. “Uma antologia, um filme e um livro de testemunhos confirmam sua centralidade nas vanguardas argentinas”, afirma o jornal argentino.

Nascido em Buenos Aires, Néstor Sánchez é autor de “Nosotros dos” (considerada sua obra-prima), “Siberia Blues”, “El Amhor, los Orsinis y la Muerte” e “Cómico de la Lengua”, tidas como (mais) experimentais. Os quatro livros foram elogiados por Severo Sarduy, Sylvia Molloy, Antonio Di Benedetto e Julio Cortázar. O crítico Emir Rodríguez Monegal, que estudou detidamente as obras dos autores do boom, “considerava Sánchez um dos quatro expoentes máximos de sua geração porque havia logrado criar uma narrativa substantiva em que presente e passado se mesclam para sublinhar que a realidade central do mundo da ficção é a linguagem”.

No livro “Sobre Sánchez”, o crítico OsvaldoBaigorria conta que, depois de certo reconhecimento internacional e da considerável recepção crítica, o escritor viveu como “vagabundo” em Nova York e flanou por Madri, Amsterdã, Paris, Roma, Milão, Caracas e Barcelona. Uns diziam que havia morrido. Outros garantiam que estava “louco”. A reviravolta em sua vida parece ter sido provocada pela descoberta do trabalho do místico russo George Gurdjieff (1866-1949). Diego Erlan ressalva que a vida de Néstor Sánchez precisa ser mais bem investigada, com objetivo de se chegar à verdade e expurgar os vários (e supostos) mitos. Se isto não for feito, sua vida ficará mais próxima dos personagens ficcionais de “Cem Anos de Solidão”. De alguma forma, o autor se tornou personagem, à procura de autores ou biógrafos que reorganizem os múltiplos Néstor Sánchez. Se não impede o trabalho do biógrafo consciencioso, o silêncio do autor sobre si dificulta a empreitada.

Entrevistado pelo “Clarín”, Claudio Sánchez, filho do escritor, conta que recebeu uma carta do pai, em julho de 1982, proveniente de Los Angeles. Não tinha notícias dele desde 1972. “A vida não tem nenhum sentido fora da busca da consciência”, escreveu.

Na carta, Néstor Sánchez contou da descoberta de Gurdjieff e criticou o que chamou de “velhas ilusões” — tidas como estúpidas —, como “amor”, “lar”, “família”. A descoberta das ideias do místico russo o levaram a viver nas ruas. Ao filho, recomendou que aprendesse um idioma, continuasse estudando música e que cultivasse o corpo. “Mandou-me um montão de exercícios, e eu, a cada três semanas, tinha de mandar os resultados.” Estava estabelecendo uma relação não de pai e filho, e sim de mestre e discípulo.

Claudio Sánchez vai republicar a obra do pai pela Editora La Comarca. “Solos de Remington” inclui “seus primeiros relatos, outro publicado só na Venezuela, um manuscrito inédito e um experimento que o filho fez com fragmentos do pai no qual tenta plasmar o que Sánchez chamava de ‘escritura poemática’”.

Pablo Ingberg, poeta e tradutor, afirma que Néstor Sánchez “era um radical, um extremista”, cuja literatura envolve o leitor até o fundo da alma”. Ingberg e Mariano Fiszman organizaram “Visiones de Sánchez”, um livro de testemunhos. A obra, aliada ao documentário “Se Acabó la Épica”, de Matilde Michanié, “procura iluminar certas zonas desconhecidas” de sua literatura e de sua vida, sempre imbrincadas. O filme deve estrear, na Argentina, antes do fim do ano. Mesmo depois de pesquisar sobre o autor, Michanié diz que Néstor Sánchez permanece, como homem e escritor, um “mistério”.

Michanié afirma que, quando se trata de Néstor Sánchez, não dá para separar vida e arte. Para o escritor, obra e vida “são a matéria prima de uma busca intensa — essencial — com o objetivo de encontrar o sentido de ambas. A inquietude turbulenta na vida de Sánchez é o que mais me comove e mobiliza”, afirma Michanié. A diretora do filme diz que o escritor entranha sua prosa de poesia. “Sánchez experimenta a busca do sentido da existência com a palavra e com sua vida. Por isso é preciso ler sua obra com liberdade e atenção. Não é simples, entra e sai pelas margens, sem aviso, revoluciona ao extremo a narrativa”, sugere a cineasta. Forma e conteúdo, na prosa de Néstor Sánchez, são uma coisa só.

A republicação das obras de Néstor Sánchez, com o acréscimo de inéditos, e a ampliação das publicações críticas, com a inclusão de depoimentos daqueles que conviveram com o escritor, poderão iluminar tanto sua literatura quanto sua vida, estranha vida. O leitor, se segue uma vida tradicional, pode perceber o argentino como uma espécie de “desertor”, como uma pessoa que desistiu da literatura. Talvez, do ponto de vista do escritor, a busca interior, embora tenha sacrificado a literatura, fosse mais importante. Daí o “abandono” da literatura e da vida convencional.

“Solos de Remington” reúne vários escritos de Néstor Sánchez, um autor que buscou escapar das fórmulas literárias dos escritores do boom latino-americano

“Solos de Remington” reúne vários escritos de Néstor Sánchez, um autor que buscou escapar das fórmulas literárias dos escritores do boom latino-americano

Como há poucas informações sobre a vida de Néstor Sánchez, qualquer linha é apreciada pelos pesquisadores e, sobretudo, para seu biógrafo, que certamente está “nascendo”. A escritora Luisa Valenzuela deu um depoimento sobre a estadia de Néstor Sánchez na Universidade de Iowa. Ele havia recebido uma bolsa, entre 1969 e 1970. “Suas paixões eram a literatura, a música (jazz), a poesia e ele era contratudo o que restava.” Era extremamente perceptivo no campo da arte e da vida.

Em “Visiones de Sánchez”, o psicanalista e escritor Germán García escreve: “Me agradava e ainda agrada em sua literatura a frase musical deliberada e uma desarticulação da sintaxe que é impossível não relacionar com a de Macedonio Fernández”.

“O programa existencial de Sánchez, para García, se resume nestas palavras: a busca de um mestre, a morte e o dever da amizade”, anota Diego Erlan.

Por que, embora tenha feito sucesso entre os autores do boom da literatura latino-americana, como García Márquez e Vargas Llosa, o reticente Néstor Sánchez não se consagrou como um “autor” desta espécie de “sistema literário” e, quem sabe, “mercadológico”? Ingberg garante que, numa mesa de bar, o autor de “Siberia Blues” contou-lhe o motivo de ter se afastado dos “gênios” do boom. “Em Barcelona, Sánchez foi convidado para uma conversa com Mario Vargas Llosa na qual o autor de ‘A Cidade e os Cachorros’ se proclamou como autor ‘comprometido’ [política e socialmente]. Quando lhe pediu sua opinião sobre o tema, Sánchez disse que a ideia era uma paparruchada [besteira, baboseira, estupidez]. Nesse preciso momento excluiu-se do mercado do boom.”

Néstor Sánchez disse que havia uma resistência à sua literatura e isto “inclusive no âmbito das editoras, para as quais sou considerado uma espécie de perigo para o bom negócio da facilidade e dos lugares comuns que abundam” na literatura dos autores do boom. O escritor não queria pertencer ao realismo mágico de García Márquez ou ao realismo flaubertiano/faulkneirano de Vargas Llosa. Não aceitou enquadrar-se às fórmulas de personagens voadores e, embora tenha escrito uma literatura consistente, não obteve a fama de seus pares latino-americanos.

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