Euler de França Belém
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Record lança livro sobre o governo de Figueiredo, o último general-ditador

Elio Gaspari menospreza o governo de Figueiredo. Bernardo Braga Pasqualette escreveu um livro de 789 páginas sobre a Presidência do general

Autor de cinco ótimos livros sobre a ditadura civil-militar, o jornalista Elio Gaspari não tem apreço pela Presidência de João Baptista de Oliveira Figueiredo. Seu governo seria anódino. O fato é que o presidente pode até ser relativamente anódino, mas o seu período não é. Pelo contrário, é rico.

Com seu jeitão grosseiro, de Bolsonaro que chegou ao generalato — era mais preparado do que o atual gestor nacional —, Figueiredo foi escolhido pelo grupo da “Sorbonne” para substituir o presidente Ernesto Geisel exatamente porque era, digamos assim, “aberturista”. No governo, ao contrário dos adeptos da linha dura, daria seguimento ao processo de distensão iniciado pelo governo dúplice, quer dizer, de Geisel e de Golbery do Couto e Silva.

No caso do Riocentro, costuma-se sugerir que Figueiredo hesitou, tanto que Golbery do Couto e Silva deixou o governo. Sugiro que se nuance a história. De fato, o presidente escondeu a verdade sobre o ato terrorista da linha dura militar. Ao mesmo tempo, em troca de não punir os militares envolvidos, enquadrou-os. Ali, a dura apenas, a Abertura foi mantida.

No poder, apesar do discurso que simulava certo radicalismo, quiçá mais retórico, Figueiredo deu continuidade à Abertura — aprofundando-a. Tanto que possibilitou as eleições para governador em 1982 e, depois, não trabalhou para impedir a eleição de Tancredo Neves à Presidência no Colégio Eleitoral.

Em poucas palavras, e aos trancos e barrancos, Figueiredo garantiu a Abertura e, por isso, merece mesmo um estudo detido. A Editora Record promete para o fim do mês o lançamento do livro “Me Esqueçam — Figueiredo: A Biografia de uma Presidência”, uma pesquisa, com suas 789 páginas, aparentemente abrangente.

O autor da obra, Bernardo Braga Pasqualette, não é um historiador profissional. Ele é mestre em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), professor de pós-graduação em Direito da PUC-Rio e advogado da Petrobrás. Oxalá não tenha escrito um livro apenas grande, e sim alentado e bom.

Sinopse da editora Record

“‘Me Esqueçam: Figueiredo’ é o relato biográfico de uma Presidência que ressignificou a vida de um oficial do Exército cuja maior aspiração era ascender na carreira militar, mas que o destino alçou ao cargo político mais cobiçado do país.

“Da antagônica combinação entre desejo e realidade, emana o caráter sui generis de João Baptista Figueiredo, último presidente a comandar o Brasil durante o regime militar. Apaixonado por equitação, certa vez confessou preferir os cavalos ao próprio povo que jurara servir, o que diz muito sobre a sua controversa personalidade.

“Em meio a declarações erráticas e frequentes oscilações de humor, agravadas em decorrência de problemas cardíacos, Figueiredo levou adiante o processo de abertura política e, entre bombas e atentados, cumpriu o que prometera em sua cerimônia de posse: ‘Hei de fazer desse país novamente uma democracia’. Fez. Tendo anistiado adversários políticos, foi incapaz de anistiar a si próprio e bateu a porta pedindo publicamente que o esquecessem. O esquecimento pretendido por Figueiredo, entretanto, privaria o país da memória de um dos períodos mais controvertidos da vida política nacional 0151 o capítulo final da ditadura militar.

“Se biografias costumam retratar de forma cronológica a vida do personagem biografado, ‘Me esqueçam: Figueiredo’ trilha caminho distinto: dedicando-se ao período compreendido entre 1979 e 1985, busca detalhar a complexa persona do protagonista do ocaso do regime militar. Para isso, o autor, Bernardo Pasqualette, se debruçou sobre diversas fontes de pesquisa, inclusive documentos da época e registros de processos judiciais. Realizou também dezenas de entrevistas com pessoas que conviveram de perto com o ex-presidente, como José Sarney, Delfim Netto, Fernando Henrique Cardoso, Ernane Galvêas, Carlos Langoni, Alfredo Karam e Elio Gaspari, entre outros.”

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