“A expansão da União Europeia hoje é uma ameaça maior para Putin do que a expansão da Otan”, diz o colunista do “New York Times”

Ganhador de três Pulitzer, o mais importante prêmio do jornalismo americano, Thomas L. Friedman, colunista do “New York Times”, manda um recado duro para o presidente Jair Bolsonaro (PL). O autor do livro “O Mundo É Plano” diz, numa entrevista ao “Estadão”, que “estamos vendo um potencial renascimento do Ocidente diante de regimes autoritários que todos pensavam que estavam em ascensão e em marcha. Talvez, a era do ‘homem forte’ esteja acabando, e não apenas começando — e talvez o presidente Bolsonaro devesse tomar nota disso”.

A constatação de Friedman é parcialmente correta. A pose tipo caubói de Marlboro de Bolsonaro agradou durante algum período, e certamente ainda é apreciada por muita gente, mas parece que entrou em fase de decadência. O presidente começou a crescer nas pesquisas de intenção de voto, sugerindo uma aproximação com o líder, Lula da Silva, do PT. Há, porém, um drummond no meio do caminho do que diz o colunista do “Times”. A história é mais cíclica do que progressiva. Há momentos de alta civilização e há recuos bárbaros. Basta citar dois casos exemplares. Primeiro, Ióssif Stálin na União Soviética. Falando em nome do bem da humanidade, da construção do paraíso terrestre — o comunismo —, o ditador georgiano contribuiu para liquidar ao menos 25 milhões de pessoas. Segundo, Adolf Hitler, entre 1933 e 1945, na Alemanha nazista, constituiu uma ditadura sanguinária, responsável pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e pela morte de 60 milhões a 80 milhões de pessoas (entre elas, 6 milhões de judeus pereceram em campos de concentração e de extermínio, como Bergen-Belsen, Sobibor, Treblinka e Auschwitz-Birkenau). Portanto, quando se pensava num renascimento do Ocidente, deu-se o oposto: um tremendo recuo histórico — uma era das trevas políticas e culturais.

Thomas Friedman, jornalista dos Estados Unidos | Foto: Reprodução

Então, é possível sugerir que a era do “homem forte” esteja numa encruzilhada, mas não inteiramente em declínio. Há “surtos” históricos, com eras civilizatórias e eras bárbaras, às vezes combinadas, como agora.

O motivo da entrevista é, naturalmente, a invasão da Ucrânia pela Rússia de Vladimir Putin. Friedman diz que se está diante da primeira guerra realmente mundial. “Os preços da comida e da gasolina estão mais altos hoje em São Paulo porque Putin decidiu invadir um país a meio mundo de distância.”

A conectividade entre países e pessoas ressalta, na opinião de Friedman, que a globalização segue vigorosa. “O que estamos presenciando em termos de tecnologia nesta guerra é fenomenal. Pessoas enviaram 20 milhões de dólares para a Ucrânia apenas alugando quartos que elas não vão usar pelo Airbnb. Satélites foram capazes de refutar as alegações russas de que não mataram civis. Estamos vendo uma espécie de Big Brother.”

Friedman está correto, mas há um tom meio ufanista. Não se fala, em toda a entrevista, das dores dos ucranianos, que estão assistindo sua economia e sua infraestrutura serem destruídas, além da quantidade de mortos e pessoas com as vidas destruídas. Milhares de ucranianos fugiram do país para se livrar das bombas e dos tiros das tropas russas. O renascimento do Ocidente resulta, ao menos em parte, de uma Ucrânia arrasada?

Vladimir Putin e Ióssif Stálin: irmãos políticos | Foto: Reprodução

Friedman assinala que “vamos ter pelo menos mais um ato nessa história, mas não sabemos qual é”. Seria um recuo da Rússia, uma recomposição da geopolítica na região?

O analista diz que os críticos dos Estados Unidos, da Inglaterra, da França e da Alemanha alegam que é preciso ouvir as vozes da China e da União Soviética. “Ele [Putin] se ressente de que os EUA estabelecem” as “regras. Mas qual seria o mundo se ele as estabelecesse? Putin queria basicamente ‘finlandizar’ a Otan e acabou ‘otanizando’ a Finlândia”.

O Ocidente, de acordo com Friedman, está se mostrando superior “em fabricar e entregar armamentos de precisão que a Rússia não consegue. E estamos fazendo isso em nome de princípios amplamente aceitos e respeitados. O Brasil deveria estar a favor desses princípios também. Eu não iria querer apoiar um mundo em que a Argentina pudesse dizer, em algum amanhecer, que quer um pedaço do Brasil”.

“Estamos assistindo a um certo renascimento do Ocidente enquanto porta-voz de soluções democráticas e orientadas para o mercado, e estamos vendo isso como um verdadeiro renascimento em comparação com o que está acontecendo ‘do outro lado do muro’”, postula o colunista americano.

Friedman admite que Putin governou a Rússia, durante parte do tempo, com racionalidade, colocando o Estado a serviço da sociedade. “Nós não estamos mais no contexto de uma revolução democrática. Estamos em um contexto” no qual “um líder [Putin] mata pessoas com guarda-chuvas e cuecas envenenadas.” A Rússia decaiu.

A história de que a Rússia invadiu a Ucrânia porque o presidente Volodymyr Zelensky operava para colocar seu país na Organização do Atlântico Norte (Otan) é uma farsa. Trata-se de “um ‘bicho-papão autofabricado’, porque os Estados Unidos já tinham dito que a Ucrânia não entraria em nenhuma expansão da Otan, e a Alemanha e a França também não teriam permitido isso”.

Segundo Friedman, a Rússia sempre esteve mais preocupada com a entrada da Ucrânia na União Europeia do que na Otan. “Porque se você tivesse um exemplo eslavo bem-sucedido de livre-mercado e democracia na Ucrânia, justo ao lado do modelo eslavo malsucedido e cleptocrático da Rússia, a comparação seria óbvia para todos, e Putin não podia arriscar correr esse risco. (…) A expansão da União Europeia hoje é uma ameaça maior para Putin do que a expansão da Otan.”