Euler de França Belém
Euler de França Belém

Que mundo é o nosso em que um aluno de 15 anos espanca uma professora de 51 anos?

Curiosamente, Márcia Friggi não chama o aluno de “bandido”. Mas a mestra clama por apoio da sociedade e da Imprensa

Márcia de Lourdes Friggi: agredida por um aluno de 15 anos | Foto: Arquivo Pessoal da mestra

A agressão a uma professora da rede pública de Santa Catarina mostra como a violência está banalizada. Márcia de Lourdes Friggi, de 51 anos, é professora de Língua Portuguesa para alunos do Ensino de Jovens e Adultos (EJA) no município de Indaial, no Vale do Itajaí. Um aluno de 15 anos estava com o livro sobre as pernas, sem examiná-lo, e a professora, ciente de que estava usando celular, pediu “por favor” e, em seguida, “por gentileza, coloque o livro sobre a mesa”. O garoto rebateu: “Eu coloco o livro onde quiser”. A mestre tentou conciliar: “Não é bem assim”. O adolescente apelou: “Vai se f…”. Quando ela sugeriu que fosse para a secretaria, ele jogou o livro em sua cabeça.

Na secretaria, na presença da diretora e da secretária da escola, a professora relatou o episódio. O jovem contestou, sugerindo que estava mentindo, apesar das testemunhas. Educadamente, sem alterar a voz, Márcia Friggi inquiriu: “Como mentindo?” Antes que pudesse acrescentar qualquer coisa, o adolescente começou a esmurrá-la. Um dos socos, de tão forte, jogou-a contra a parede. “O meu rosto tu não tens noção de como está agora, totalmente fechado, completamente roxo. E, segundo o médico que fez a sutura, amanhã vai estar pior ainda”, relata a mestra.

Márcia Friggi é uma mulher guerreira e afirma que não vai desistir de ser professora. Mas seu rosto inchado e ensanguentado sugere um ar de desolação e, sobretudo, impotência. Ante a barbárie, que rejeita a gentileza, há pouco a fazer, exceto medidas mais duras, inclusive judiciais.

Numa entrevista ao jornal “Diário Catarinense”, Márcia Friggi disse: “Eu sou uma mulher muito forte, muito guerreira, se eu tiver que ser voz do magistério brasileiro, que está muito abandonado, eu vou ser, até o meu último dia. Inclusive a m´dia está nos abandonando, a sociedade, o governo, as famílias, todos têm culpa. Todos ajudaram a deixar meu olho roxo”. Curiosamente, a professora não fala mal do aluno, não o chama de “bandido”. É uma verdadeira educadora, mas clama por ajuda, não para ela em si, e sim para todos os mestres. O que está pedindo é respeito e proteção. Quer dizer, o mínimo que pode ser oferecido.

Mestra não tem de pedir desculpas

A professora escreveu um texto no qual conta a história:

“DILACERADA

Estou dilacerada. Aconteceu assim:

Ele estava com o livro sobre as pernas e eu pedi:

— Coloque seu livro sobre a mesa, por favor.

— Eu coloco o livro onde eu bem quiser.

— As coisas não são assim.

— Ahhh, vai se f…

— Retire-se, por favor.

Ele levantou para sair, mas, no caminho, jogou o livro na minha cabeça. Não me feriu, mas poderia. Na direção eu contei o que tinha acontecido. Ele retrucou que menti e eu tentei dizer:

— Como, menti? A sala toda viu… Não deu tempo para mais nada. Ele, um menino forte de 15 anos, começou a me agredir. Foi muito rápido, não tive tempo ou possibilidade de defesa. O último soco me jogou na parede.

Estou dilacerada por ter sido agredida fisicamente. Estou dilacerada por saber que não sou a única, talvez não seja a última. Estou dilacerada por já ter sofrido agressão verbal, por ver meus colegas sofrerem. Estou dilacerada porque me sinto em desamparo, como estão desamparados todos os professores brasileiros. Estamos, há anos, sendo colocados em condição de desamparo pelos governos. A sociedade nos desamparou. A vida…

Lembrei dos professores do Paraná que foram massacrados pela polícia, não teve como não lembrar.

Estou dilacerada pelos meus bons alunos, que são muitos e não merecem nossa ausência.

Estou dilacerada, mas eu me recupero e vou dedicar a minha vida para que NENHUM PROFESSOR BRASILEIRO passe por isso

NUNCA MAIS. (Não sei se cometi erro ao escrever, perdoem.)”

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.