Euler de França Belém
Euler de França Belém

Putin está mais preocupado com o Império russo do que com a Ucrânia na Otan

Causa principal do ataque da Rússia é “o interesse russo em controlar a política externa e interna dos vizinhos. Como a Ucrânia é o maior” deles, “a Rússia quer controlá-la”

Vladimir Putin, presidente da Rússia: seu “diálogo” é mais com o czarismo do que com o comunismo de Vladimir Lênin | Foto: Reprodução

A jornalista Fernanda Mena, da “Folha de S. Paulo”, entrevistou na terça-feira, 15, o antropólogo ucraniano Volodimir Artiukh, pesquisador de Oxford. O doutor em Antropologia e Sociologia faz uma das melhores análises do conflito entre a Rússia e Ucrânia, que se arrasta há quase um mês.

Predomina, em várias análises, a ideia de que a Rússia atacou a Ucrânia porque esta planejava entrar para a Otan. Mas Artiukh assinala que não é bem assim. “A maior parte da expansão da Otan ocorreu depois dos anos 2000, já durante o mandato de Putin. E os primeiros movimentos dessa expansão não ensejaram nenhuma resposta violenta da Rússia. Nos anos recentes, não houve expansão significativa da Otan. E a Ucrânia não estava, sob nenhum ponto de vista, perto de se tornar um Estado-membro. Todas as lideranças política expressam claramente: a Ucrânia não será admitida na Otan num futuro próximo. Então, é claro que essa expansão contribuiu para aumentar a tensão na região, mas não foi uma causa imediata para a deflagração do conflito.”

Para Artiukh, que não repete as análises convencionais, a causa principal do ataque do governo do presidente Vladimir Putin na Ucrânia é “o interesse russo em controlar a política externa e interna dos Estados [países] vizinhos. E, como a Ucrânia é o maior desses vizinhos na Europa, a Rússia quer controlá-la”.

Olaf Scholz e Joe Biden: líderes considerados fracos pela Rússia de Putin | Foto: Reprodução

Entre 1991 e 2014, a Rússia tentou exercer o controle de maneira indireta. Como não funcionou, decidiu pela intervenção direta. “Tudo se resume ao fracasso do soft power russo na Ucrânia e à inabilidade russa de usar instrumentos econômicos, o que forçou o país ao poder militar e à violência.” Artiukh enfatiza que o ataque russo tem pouco a ver com “ameaças diretas” da Otan “e mais com a percepção de fraqueza dos principais poderes ocidentais, como os Estados unidos e a Alemanha”.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, são vistos por Putin como líderes fracos, ao contrário de Donald Trump e Angela Merkel. Por não acreditar numa resposta militar dos dois países, com gestores supostamente “anódinos” — palavras não são escudos para mísseis e bombas —, o presidente da Rússia decidiu atacar e invadir a Ucrânia.

A repórter insiste na questão da Otan, e mais uma vez apresenta uma análise não ortodoxa: “A invasão da Ucrânia levou a consequências que contradizem” o “suposto objetivo de deter a Otan. Ela aumentou de forma dramática a unidade em torno da Otan e a militarização dos países do entorno russo. O ataque russo provavelmente levará a um aumento da cooperação com a Otan por parte de países antes neutros, como a Finlândia. É o contrário do que um país com medo da Otan quer”.

Volodimir Artiukh, ucraniano: doutor em Antropologia e Sociologia e pesquisador de Oxford | Foto: Reprodução

O ataque, insiste Artiukh, resulta muito mais de “uma ação para reconfigurar o ambiente de segurança ao redor da Rússia e para criar uma aliança com a China”.

As elites russas avaliam que está ocorrendo uma reconfiguração geopolítica e econômica do mundo e que a China, superando os Estados Unidos, se tornará a potência dominante. Num mundo multipolar, se ficar ao lado dos chineses, a Rússia será forte, apostam Putin e seus aliados. Artiukh diz que “há sinais de que” a China “pode vender armas para a Rússia se tornar uma aliada militar”.

Artiukh postula que a resistência ucraniana surpreendeu a Rússia, o que prova que a Inteligência do governo de Putin é “fraca”. Vale citar um trecho do livro “Inteligência na Guerra — Conhecimento do Inimigo, de Napoleão à Al-Qaeda” (Companhia das Letras, 448 páginas, tradução de S. Duarte), do historiador britânico John Keegan: “Na guerra, a inteligência, por melhor que seja, não é um guia infalível para a vitória. A vitória é um prêmio fugidio, obtido mais com sangue do que com cérebros. A inteligência é a serva, não a amante, do guerreiro” (página 23). Um pouco antes, ele sintetiza: “Nunca se sabe o bastante”.

A Rússia não conseguiu “derrotar o Exército da Ucrânia”, na opinião de Artiukh. O pesquisador é um analista gabaritado, mas o fato é que, ao contrário do que sugere, o governo de Putin está derrotando e destruindo a Ucrânia. Há pessoas morrendo e saindo do país. Há uma resistência heroica, mas, apesar dos elogios de alguns analistas, não está surtindo efeito algum. A Rússia passa a impressão de que está “castigando” a Ucrânia aos poucos, minando suas estruturas e reduzindo sua economia a pó. Por mais que, depois do conflito, se receba apoio financeiro internacional, que terá um custo, o país demorará anos para se erguer. O mais provável — divergindo do estudioso de Oxford — é que a Rússia não queira destruir, de vez, a Ucrânia.

Em termos de guerra, quando se trata do presente, há vitórias morais? Talvez. Mas vitórias morais são ótimas para serem cantadas em verso e prosa — e à distância — mas não para aqueles que estão sendo bombardeados, muitos perdendo tudo, e vários perdendo a vida.

“Czar” Vladimir Putin, o Pequeno

Ióssif Stálin, o ditador que dirigiu a União Soviética, com pulso de aço, entre 1924 e 1953, quando morreu, admirava o czar Ivan, o Terrível. Putin, o Pequeno, estaria se inspirando em Pedro, o Grande (tinha quase dois metros de altura)? Artiukh afirma que, além de crítico visceral do colapso da União Soviética, Putin “é encantado pelo Império Russo, especialmente pelo czar Alexandre 3º [um conservador]. (…) Putin culpa Lênin pela destruição do Império Russo ao fragmentar sua unidade, criando Estados, como a Ucrânia, que tinham alguma independência. Para ele, Lênin plantou uma bomba na Rússia, causando sua destruição. É para” o “tempo do império que ele gostaria de voltar”.

A esquerda brasileira que apoia (ou parece apoiar) Putin não percebe que se trata de “um liberal em termos econômicos”, o que Bolsonaro, embora menos ilustrado do que Catarina, a Grande, entendeu com nitidez. “Se você observar como o Banco Central russo conduz a política monetária conservadora e como o Estado funciona em termos de cooperação e de regulação do trabalho, ou mesmo se você olhar para a desigualdade extrema da Rússia”, notará “que não tem nada a ver com a história soviética. Hoje temos o mesmo nível de desigualdade da época do império. O projeto de Putin é imperial e não vai oferecer uma ideologia alternativa de modernização. Ele vai oferecer proteção, ou mesmo impor proteção, para lideranças como a de Belarus e da Armênia, que querem se proteger do Ocidente. Os Estados que não são clientes da Rússia e não querem proteção serão controlados por outros meios, sejam indiretamente, como quando Estados-clientes foram arrancados de países como a Geórgia [em 2008] e a Ucrânia, em 2014 [quando da anexação da Crimeia], ou de forma direta, simplesmente atacando e ocupando territórios, como fez o Império Russo no século 19”.

Mulher ferida na Ucrânia | Foto: Reprodução

Fernanda Mena pergunta qual mundo surgirá da guerra-invasão da Ucrânia. Artiukh sugere que há duas possibilidades. “Primeira, e mais provável, é a Rússia destruir as defesas da Ucrânia e ocupar uma parte significativa do território ou mesmo todo ele, instalando uma liderança que é sua marionete ou mesmo vários governos repressivos que seriam essencialmente Estados policiais. A própria Rússia se tornará um regime ainda mais autoritário e verá sua economia cair em profunda recessão. A segunda opção é a Rússia perder e ter de assinar algum acordo de paz temporário. (…) O que acontecerá com a Ucrânia é totalmente imprevisível, mas deve vir acompanhado de uma crise política e econômica. O PIB da Ucrânia deve cair até 50%. Já tem dívidas imensas com o FMI e outros credores internacionais.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.