Euler de França Belém
Euler de França Belém

Proletários da TV Globo vão às ruas cobrar aumentos salariais decentes

A nova política da Globo evita pagar salários superiores a 1 milhão de reais. Faustão, Galvão Bueno, Ana Maria, Fátima Bernardes e William Bonner são exceções

Reprodução

Reprodução

A internet multiplicou os meios de comunicação, as redes sociais se tornaram meios de comunicação, e as mídias tradicionais estão em busca de novos caminhos, inclusive para sobreviver. Praticamente todos os jornais estão demitindo ou demitiram em 2016, alegando queda do faturamento, o que provocou a necessidade de redução de custos. A TV Globo, que sempre pagou os melhores salários do mercado televisual, também está cortando custos — o grupo inteiro promoveu demissões, inclusive na Rádio Globo — e começa a ser pressionada pelos profissionais.

Há uma tendência de se pensar que todos ou quase todos os salários da Globo são altos, sobretudo porque com certa frequência os jornais, principalmente as colunas, divulgam que Faustão fatura mais de 4 milhões de reais por mês, William Bonner recebe cerca de 1,5 milhão e Galvão Bueno supera a casa dos 2 milhões. São salários fabulosos e o economista Thomas Piketty, autor do celebrado “O Capital no Século 21”, costuma afirmar que, com tais salários, é preciso incluir esses trabalhadores em outra classe ou categoria — a dos executivos que têm, na verdade, participação nos lucros. Não fosse certo exagero, seria possível identificar Faustão, Bonner, Ana Maria Braga, Fátima Bernardes e Galvão Bueno como capitalistas ou quase-capitalistas. Porém, se a minoria ganha salários vultosos, a maioria percebe salários bem mais baixos. Não só: a Globo estaria orientando sua área de recursos humanos para não pagar mais salários vultosos como os dos profissionais mencionados. Como praticamente não há mais concorrência, nenhuma outra rede, nem mesmo a poderosa TV Record, paga salários “de acionistas”, a Globo também não vai pagá-los mais.

globo-manifestacaoA prova de que os negócios mudaram é que na quarta-feira, 14, segundo relato do portal Comunique-se, “cerca de 50 profissionais deram as mãos em volta” da sede da Globo em São Paulo cobrando aumentos salários decentes. “Queremos respeito, reajuste salarial já” — dizia uma faixa. Os profissionais afirmam que a Globo quer pagar reajuste salarial de 6%, abaixo da inflação de 2015, que “ficou acima de 10%”. Para 2016, a proposta de aumento é de 6,5%. O Tribunal Regional do Trabalho sentenciou que a reivindicação dos trabalhadores é justa e decidiu por um reajuste salarial de 10,94%. A Globo vai recorrer.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo declarou: “Apesar dos lucros bilionários, as emissoras de TV não reajustam nem salários, nem os benefícios da categoria há dois anos e as perdas por conta da inflação somam quase 20%. A campanha salarial do ano passado foi a dissídio e segue na Justiça do Trabalho. Neste ano, o sindicato patronal, presidido pela Globo, iniciou a campanha 2016-2017 com truculência, com proposta abaixo da inflação e se recusando a alterar ou incluir novas cláusulas na Convenção Coletiva”.

Se até os trabalhadores globais, a elite do jornalismo televisual, estão saindo às ruas, exigindo aumento, o que dirão os funcionários das outras redes e emissoras? Como disse recentemente um jornalista da Band, “estão matando cachorro a grito”. Recentemente, a Band promoveu demissões. O SBT, que não valoriza o jornalismo, fazendo mudanças descabidas na programação, também evita pagar salários mais elevados. Seus maiores salários aproximam-se dos salários médios da Globo — quando aproximam-se.

O certo é que os jornalistas, mesmo os da Globo, estão sendo proletarizados cada vez mais e estão perdendo a vergonha de ir para as ruas e se manifestar. Muitos estão deixando as redações privadas e estão fazendo concursos no setor público. Primeiro, porque os salários públicos são mais elevados — se a comparação não for com os salários das estrelas globais. Segundo, porque o risco de demissão é praticamente nulo. No mercado privado, as demissões são frequentes.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.