Euler de França Belém
Euler de França Belém

Processar jornalistas é um direito de Lula, mas e se o tiro sair pela culatra?

Lula da Silva e Chico Buarque: o político e o compositor-escritor são críticos dos  Estados Unidos, mas estão copiando a tradição contenciosa dos americanos

Lula da Silva e Chico Buarque: o político e o compositor-escritor são críticos dos
Estados Unidos, mas estão copiando a tradição contenciosa dos americanos

Organizações criminosas matam jornalistas em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Há políticos e empresários que, irritados com as reportagens publicadas, chegam a agredir fisicamente repórteres. Há duas formas legítimas e legais de se revolver pendências entre publicadores de denúncias e denunciados.

Primeiro, com diplomacia, com os dois lados guardando a ira nas gavetas cerebrais. Um direito de resposta adequado, mesmo sem a mediação da Justiça, é uma das saídas. Muitas vezes, ouvindo atentamente pessoas que se sentiram “atingidas” pelo jornal, percebi que, mais do que processar, queriam expor suas versões de maneira mais ampla possível.

Segundo, há outra instância civilizada: a Justiça. Quando não há acordo possível entre as partes, o recurso é o Judiciário. Eu, como todo jornalista, não gosto de ser processado. Mas entendo que é a instância democrática. Busca-se na figura do juiz, não a imparcialidade total — que é ficção —, mas um elemento relativamente neutro à pendenga e que, por isso, poderá avaliá-la com propriedade e, daí, proferir uma sentença justa. A Justiça às comete injustiças, mas no geral acerta mais do que erra.

Quando chegou aos Estados Unidos, o historiador austríaco Raul Hilberg (1926-2007), autor do seminal “A Destruição dos Judeus Europeus” — o primeiro livro mais amplo e documentadíssimo sobre a quantidade de judeus que foram assassinados nos campos de extermínio criados pelo nazismo de Adolf Hitler —, ficou surpreso com o contencioso judicial dos norte-americanos. No país de William Faulkner, por qualquer motivo move-se um processo. Na Europa, há mais diálogo e ponderação entre as partes.

O Brasil, que importa até racismo (disfarçado de antirracismo), importou a praga americana dos processos com motivações pífias. Em alguns casos, a razão nem é esclarecer os fatos, e sim intimidar repórteres e fontes. Mas, insistamos, a ação judicial é civilizada, mesmo que os interesses não sejam lá muito legítimos.

O compositor e escritor Chico Buarque foi chamado de “ladrão” pelo jornalista e antiquário João Pedrosa. Este, numa carta pública, admitiu que extrapolou e pediu desculpas. O artista não aceitou-as e decidiu processá-lo. A carta é uma retratação e, apresentada à Justiça, será útil, quem sabe, como atenuante. Chico Buarque é esquerdista, da linha festiva, mas não é larápio. O processo oferece a oportunidade para João Pedrosa provar o que ele roubou. Ou fará uma retratação mais precisa do que a carta.

Outro processador-mor, é o ex-presidente Lula da Silva, um esquerdista, apesar da retórica, moderado. Ao final das investigações e ações da Operação Lava Jato, será possível concluir que os supostos negócios de Lula têm mais a ver com tráfico de influência? Ainda não se sabe. Mas o petista-chefe decidiu processar jornalistas por atacado.

Será que, orientado por advogados gabaritadados e sabendo que, ao final, seu nome não irá inteiramente para a lama, Lula da Silva quer, desde já, intimidar os jornalistas investigativos mais atuantes? Pode ser que isto seja verdade, mas os processos são legítimos e vão oferecer uma oportunidade para os repórteres apresentarem suas provas, contundentes ou não.

“Comecei a processar jornalistas. Quando processo jornal, o dono do jornal se livra do processo jogando a culpa no jornalista. Então, eu falei: vou começar a processar jornalista para ver se a gente recupera a dignidade da categoria e as pessoas verem que quando escrevem alguma coisa prejudicando alguém aquilo tem consequência. Contratei o Nilo Batista [advogado]. Daqui pra frente vou processar todo mundo, criminalmente, civil, sei lá. Pra ver se a gente consegue colocar um pouco de ordem na casa”, afirma Lula. O texto é meio Lula, meio advogado.

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“Antigamente, os jornais tinham dono, você falava com o dono. Hoje você tem preposto, você tentava resolver alguma coisa, hoje os donos não falam mais nada, hoje é executivo. A politização da imprensa chegou a tal ordem. Admito que tenham um lado, que publiquem editoriais, o que quiserem. A única coisa que não admito é mentira na informação, é mentira.

Daqui pra frente vou processar. Tem muito processo a dar com pau. Vamos cada vez mais, não tem outro jeito. Eu não gostaria que fosse assim”, acrescenta Lula. O que terão a dizer, até o final dos processos, Nestor Cerveró e José Carlos Bumlai, supostos amigos do ex-presidente.

O problema é que processos às vezes é um tiro pela culatra. O autor da ação sempre acredita que vai ganhar, mas pode perder. A Justiça pode entender que ao menos algumas das informações contra Lula da Silva não são invenções e foram extraídas de documentos colhidos ou formulados pelo Ministério Público e que, aos poucos, estão chegando à Justiça. Todo processo que o ex-presidente perder soará como uma espécie de condenação para o público.

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