Euler de França Belém
Euler de França Belém

Principal missão de Joe Biden não é pacificar a sociedade mas impedir que a China supere os EUA

Evan Osnos, autor de livro sobre o presidente americano, diz que suas tragédias pessoais sugerem que tem mais empatia com os indivíduos mais frágeis

O jornalista americano Evan Osnos, da revista “New Yorker”, é autor de um livro notável sobre o mais poderoso gigante asiático: “A Era da Ambição — Em Busca da Riqueza, da Verdade e da Fé na Nova China” (Companhia das Letras, 552 páginas, tradução de Berilo Vargas e Christina Baum). Trata-se de uma grande reportagem matizada por análises precisas sobre como vivem os chineses e a respeito da ação ditatorial do governo comunista. Por ter vivido na terra de Deng Xiaoping por vários anos, o repórter mostra uma compreensão ampla das nuances de um país que é menos “homogêneo” do que parece.

Evan Osnos volta às livrarias brasileiros com um livro menos alentado: “Joe Biden — A Vida, as Ideias e os Desafios do Presidente da Nação Mais Poderosa do Mundo” (Agir, 256 páginas, tradução de Alexandre Martins e prefácio de Marcelo Lins).

Joe Biden e a vice-presidente Kamala Harris | Foto: Reprodução

A principal missão de Joe Biden não é pacificar os Estados Unidos — “desfragmentar” países altamente polarizados é muito difícil, mas só de não incentivar o embate já é uma forma de incentivar a pacificação —, e sim impedir que o país de Abraham Lincoln e William Faulkner seja superado, em termos econômicos, pela China. Lyndon Johnson fez mais pelos direitos dos negros e pela harmonia da sociedade americana do que vários outros presidentes, incluindo John Kennedy. Entretanto, por ter enterrado os EUA na Guerra do Vietnã, ganhou um lugar relativamente secundário — o que talvez mais tarde seja revertido — na história do país. Joe Biden pode “unificar” a maioria dos americanos, mas tem de batalhar para que a China não supere a nação de Joyce Carol Oates e Milton Friedman durante seu governo.

O crescimento da China, e em áreas que não se imaginava que pudesse avançar tão rápido — como a tecnologia de ponta (a melhor escola de engenharia do mundo é chinesa e os supercomputadores do país já superam os americanos) —, é incontornável. Não será fácil superar os Estados Unidos, uma potência tecnológica incomparável na história, mas a tendência é que, a médio prazo, os chineses passem a ter o maior PIB global. A qualidade de vida não é das melhores, mas a nação tem avançado, integrando cada vez mais pessoas.

Evan Osnos: expert em China e Joe Biden | Foto: Reprodução

Joe Biden tem estofo para levar os Estados Unidos para uma “guerra” — sem armas — com a China? Parece ter. Pelo menos é o que sugere Evan Osnos. Talvez ele seja menos “mole” do que parece. Uma retórica menos belicista e isolacionista pode levar o país de Louis Armstrong e Ella Fitzgerald a conquistar parceiros contra a China? É possível.

Joe Biden pode não disputar a reeleição

Numa entrevista a Julia Braun, publicada na revista “Veja”, Evan Osnos afirma que “a prioridade” de Joe Biden “é reconstruir a credibilidade internacional dos Estados Unidos e reverter algumas das mais controversas decisões de Donald Trump, como a aliança com ditaduras e o descompromisso com direitos humanos, democracia, Estado de Direito e imprensa livre. Biden sempre acreditou no poder do exemplo da liderança americana e, com certeza, se esforçará para dar bons exemplos em política internacional”. Uma visão menos edulcorada pode ser conferida no livro “A Caminho da Guerra — Os Estados Unidos e a China Conseguirão Escapar da Armadilha de Tucídides?” (416 páginas, tradução de Cassio Arantes Leite), de Graham Allison, professor de Harvard. A batalha será pesada e não se sabe se Joe Biden terá condições de manter uma prática — para além da retórica — sempre light.

Livro crucial para entender a “guerra” (que pode deixar de ser fria) entre a China e os Estados Unidos | Foto: Jornal Opção

“Veja” pergunta a Evan Osnos se a idade avançada — 78 anos — pode prejudicar a gestão de Joe Biden. O biógrafo avalia que “não”. “Sua experiência no Senado e na Vice-Presidência lhe dão uma grande vantagem — há pouca coisa que não tenha visto em Washington. Além disso, ele é bastante saudável e ativo, se alimenta bem e pratica exercícios físicos. É improvável que concorra a um segundo mandato, mas até agora ele também não descartou a possibilidade publicamente.”

Evan Osnos sublinha que Joe Biden “perdeu a primeira mulher e a filha bebê aos 29 anos, e em 2015 seu filho mais velho, Beau, morreu de um câncer no cérebro”. Então, “a combinação de momentos bons e ruins vividos por Joe Biden criaram em sua mente uma maior capacidade de compreender o sofrimento do outro e se identificar com as pessoas mais vulneráveis e frágeis”.

Joe Biden não é um chefe “molão”, sustenta Evan Osnos. “Biden é bastante exigente com seus assessores e às vezes chega a ser seco ao dar ordens e exigir resultados. Mas ao mesmo tempo é um homem muito informal, que frequentemente puxa conversas casuais com as pessoas que cruzam seu caminho. Ele está na política há tantos anos que já se acostumou com sua posição de poder e deixou de lado a presunção que muitos em Washington ainda carregam.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.