O técnico é, por vezes, considerado o 12º segundo jogador do time de futebol. Um técnico criativo motiva e libera os atletas para jogarem plenamente. Um técnico burocrata, pelo contrário, tolhe aqueles que são mais talentosos. Quase sempre procura “uniformizar” o grupo, afirmando que está apostando no conjunto, no coletivo. Artistas da bola, escultores dos gramados, como Neymar, Rodrygo e Vini Jr., não agradam treinadores avessos ao chamado futebol-arte. Em nome da visão administrativa — ou produtiva — cerceiam os que driblam e jogam bonito. “Jogam para a torcida, e não para o time”, postulam os críticos contumazes. E por que não podem jogar para a torcida, que aprecia o belo? Por que não permitir que os olhos “tenham” prazer com o refinamento de estilistas que escrevem e pintam com os pés?

Vicente Feola, Djalma Santos, Zito, Bellini, Nílton Santos, Orlando Peçanha e Gylmar (em pé); Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagallo e Paulo Amaral (agachados) | Foto: Reprodução

A rigor, Neymar, Vini Jr., Mbappé e Messi encantam as torcidas, mas também fazem gols ou dão assistências precisas para os companheiros de jornada. Richarlison tem razão: com Neymar em campo, a bola chega “redonda” e não “quadrada”. Sem contar que os rivais costumam deslocar dois jogadores para marcá-lo — porque o primeiro vai ficar para trás, então o segundo fará falta — e, por causa disso, o centroavante fica mais livre para finalizar. Treinadores inteligentes, que não têm receio de perder o cargo, costumam lidar bem com craques, como os quatro citados: “Vá, meu filho, seja livre na vida”. É, por certo, o que Tite diz a Neymar, Vini Jr. e Rodrygo.

Mas e no passado, em 1958, há 64 anos, como os técnicos atuavam? No livro “Os 11 Maiores Técnicos do Futebol Brasileiro” (Contexto, 255 páginas), o jornalista Maurício Noriega conta a história de Vicente Ítalo Feola (1909-1975), o primeiro técnico campeão pela seleção brasileira de futebol.

Feola e Paulo Machado de Carvalho: a dupla que organizou a seleção de 1958 | Foto: Reprodução

“Gorducho, bonachão, espírito conciliador, observador atento do dia a dia do futebol, Feola foi bicampeão paulista, em 1948 e 1949, como treinador do São Paulo. Até hoje é o treinador que mais vezes dirigiu o Tricolor paulista, com 524 jogos”, registra Maurício Noriega.

Do relacionamento entre o empresário e cartola Paulo Machado de Carvalho e Vicente Feola surgiu, na avaliação de Noriega, “o futebol brasileiro campeão do mundo”.

A seleção patropi havia perdido as copas de 1950 (para o Uruguai, com o Maracanã lotado e chorando) e 1954. Em 1957, o Brasil perdeu de 3 a 0 para a Argentina, na final do Campeonato Sul-Americano, em Lima, no Peru. O técnico era Oswaldo Brandão, por sinal de primeira linha. O time contava com craques como Nílton Santos, Didi, Zizinho, Garrincha e Evaristo. Porém, mesmo assim, era “perdedor”. O presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) pediu a ajuda de Paulo Machado de Carvalho, dono da TV Record.

Garrincha e Pelé: jogadores-craques que driblavam e marcavam gols | Foto: Reprodução

Depois de examinar a situação da seleção, Paulo Machado de Carvalho apresentou um plano de trabalho e sugeriu que, se o seguisse, o Brasil poderia ser campeão em 1958. A ideia central era profissionalizar os “métodos da seleção”, o que significa reduzir o papel do técnico, que então era senhor absoluto “de tudo que acontecia na equipe, da administração até o plano de jogo”.

A derrota para los hermanos, considerada uma “vergonha”, resultou na demissão de Oswaldo Brandão e na contratação de Silvio Pirillo.

Silvio Pirillo entrou para a história do mundo, não apenas do futebol, por ter lançado “na seleção brasileira um garoto chamado Pelé, jogador do Santos de apenas 17 anos, num jogo pela Copa Roca”. A seleção verde-amarela perdeu por 2 a 1, mas Pelé fez um gol e brilhou. “O futebol nunca mais foi o mesmo”, assinala, com razão, Maurício Noriega. Nascia o Rei do Futebol, um menino negro, bonito e cracaço. Se nunca houve uma mulher como Gilda, a do cinema, jamais haverá um jogador como Pelé — espécie de “fim da história” do futebol. O ás do Santos e da seleção não tem e nunca terá substituto. É a majestade eterna, acima da rainha Elizabeth, da Inglaterra, que foi substituída pelo irritadiço Charles (não o Miller, suposto “inventor” do futebol).

Bellini, Feola e Gilmar: campeões do mundo | Foto: Reprodução

O plano de Paulo Machado de Carvalho retirou poderes do técnico da seleção. Antes, era praticamente ditador. O “cartola” optou por Feola, sobretudo por causa do estilo conciliador — tanto que era aprovado pelos jogadores.

De acordo com Maurício Noriega, “introduziram-se métodos científicos, como avaliação psicológica, e Paulo Amaral, profissional de Educação Física, foi contratado como o primeiro preparador físico da seleção”. Antes, os técnicos se incumbiam do condicionamento físico dos atletas.

O psicólogo João Carvalhaes concluiu que Garrincha “era psicologicamente imaturo”. Desconsiderando que, dentro de campo, era de maturidade rara, colocando os adversários para sambarem, fazendo gols e dando assistências perfeitas para os companheiros.

Nilton Santos: a Enciclopédia do Futebol | Foto: Reprodução

O racismo imperava na época — e não só na época, é claro. Dizia-se, na década de 1950, que os fracassos da seleção tinham causas raciais. Maurício Noriega sublinha que “tamanha idiotice [na verdade, muito pior do que idiotice] fez com que na estreia da Copa da Suécia o Brasil fosse a campo com 10 brancos entre os 11 titulares, contra os” jogadores brancos da Áustria. “Felizmente, aquela besteira foi abandonada, e a miscigenada seleção de Pelé, Garrincha e Didi fez o que fez naquele Mundial”. A seleção, por sinal, ganhou por 3 a 1.

Maurício Noriega narra uma história curiosa. No jogo contra a Áustria, o lateral-esquerdo Nílton Santos, a Enciclopédia do Futebol, pegou a bola e correu rumo ao campo adversário. Porém, como aos laterais só era permitido defender, e não atacar, Feola começou a gritar: “Volta, Nílton!”

Craque estupendo, Nílton Santos fingiu que não ouvia e continuou. Feola insistiu: “Volta, Nílton!” O lateral chutou e fez o segundo gol da seleção. Desconcertado, o técnico recuou: “Boa, Nílton”.

Mané Garrincha (pitando um cigarrinho, pois ninguém é de ferro) e Vicente Ítalo Feola: o técnico apostava no seu talento | Foto: Reprodução

Feola, além de conciliador, era esperto e, às vezes, acatava sugestões dos jogadores. Pelé sofreu uma grave contusão e o médico sugeriu que fosse cortado. O técnico discordou e levou o adolescente para a Suécia.

No segundo jogo, contra a Inglaterra, o Brasil jogou mal e empatou (0 a 0). Os jogadores brancos permaneciam privilegiados. Então, Didi, o Príncipe Etíope (segundo Nelson Rodrigues, não citado por Maurício Noriega), convocou Feola e Paulo Machado de Carvalho para uma conversa franca.

Funcionando como auxiliar técnico informal, Didi disse à dupla: “Lá na frente ninguém prende a bola. Eu não tenho para quem fazer lançamento. Falta gente lá na frente”.

Didi, o Príncipe Etíope, e Feola: o jogador orientou o técnico | Foto: Reprodução

Feola pediu uma sugestão: “Quem?” Didi não titubeou: “O Garrincha”. O técnico ponderou: “Mas ele não prende a bola demais?”

Didi enfrentou Feola e bancou Garrincha e disse que Vavá e Pelé tinham de ser escalados no ataque. Isto, claro, se o Brasil realmente almejava ser campeão.

Maurício Noriega menciona outra versão: “Didi, Nílton Santos e o capitão Bellini teriam pedido a Paulo Machado de Carvalho que propusesse as mudanças a Feola”.

O fato é que, na partida seguinte, entraram em campo Vavá, Zito, Garrincha e Pelé. A boa vontade de Feola “foi festejada como uma bênção”. O Brasil ganhou da União Soviética por 2 a 0 — jogando o fino.

Djalma Santos, Zito, Feola, Pelé e o técnico Aymoré Moreira | Foto: Reprodução

Pelé fez o gol da seleção na vitória por 1 a 0 contra o País de Gales. Em seguida, o Brasil goleou a França, por 5 a 2. Na final, ganhou da Suécia pelo mesmo placar. “O Brasil de Pelé, Garrincha, Didi e Nílton Santos, e tantos outros craques, era campeão mundial pela primeira vez.”

Os craques, como Pelé, Garrincha, Didi e Nílton Santos, ganharam a Copa da Suécia em campo. Mas fora dele havia um técnico perspicaz.

Feola realmente dormia durante os jogos?

Mas procede que Feola dormia durantes os jogos? Veja a apuração de Maurício Noriega: “Há relatos de que na Copa de 58 Feola realmente pegou no sono algumas vezes. Mas consta que por um bom motivo. Sabedor da iniciativa dos suecos de escalarem loiras monumentais para marcar em cima a boleirada nacional, Feola se revezava com Paulo Machado de Carvalho para evitar que nossos craques perdessem a concentração durante as noites. Que deveriam ser de sono. Por isso Feola dormia um pouco durante os jogos [Maurício Noriega não menciona, mas, em 1959, Garrincha namorou uma sueca e, com ela, teve um filho, Ulf Lindberg]. Outra corrente atribui ao excesso de peso e a problemas respiratórios e renais as sonecas do treinador. Também há quem afirme que era tudo fofoca, que o treinador jamais dormiu em banco”.

Ruy Castro, no livro “O Anjo Pornográfico — A Vida de Nelson Rodrigues” (Companhia das Letras, 457 páginas), relata: “Gordíssimo, dizia-se que cochilava no banco de reservas durante os treinos”.

No livro “Estrela Solitária — Um Brasileiro Chamado Garrincha” (Companhia das Letras, 520 páginas), Ruy Castro põe mais lenha na fogueira: “(…) Havia fotos de Feola com os olhos cerrados enquanto os jogadores corriam em campo. O que se podia esperar de um treinador que dormia e até roncava em serviço? Mas seus colegas na comissão técnica sabiam que era uma injustiça. Feola [com 105 quilos] sofria das coronárias. Às vezes, durante uma reunião ou um treinamento, era acometido de uma dor no peito, que o atravessava como uma facada e se irradiava para o braço esquerdo — isquemia do miocárdio, mais conhecida como angina de peito. Quando isso acontecia, ele baixava a cabeça, fechava os olhos e esperava a dor passar. Podia levar de dez a quinze segundos. Pouco tempo, mas o suficiente para que o fotografassem ‘dormindo’. Uma legenda insinuante reforçava essa impressão. E a imaginação do leitor fazia o resto. (…) Para a imprensa e a torcida, seria melhor acreditar que a seleção tinha um treinador dorminhoco que um treinador cardíaco”.

Djalma Santos apresenta sua versão: “Isso de dormir no banco, em campo, eu nunca vi”. Ele dormia em aeroporto. “Mas, dentro de campo, nunca vi.” O craque postula que Feola “foi um dos mestres do futebol brasileiro”. Isto é o que importa, e não se dava uma cochilada durante alguns jogos.

Técnico do Boca Junior, na Argentina

Na Copa de 58, o Brasil jogou o fino, com jogadores, como Pelé e Garrincha, que eram endiabrados na arte de driblar (e marcar gols, diga-se), se tornando estrelas globais. O técnico Feola (que não dirigiu a seleção em 1962 porque estava doente) acabou contratado pelo Boca Juniors, da Argentina.

O futebol argentino estava mal das pernas. Por isso, conta Maurício Noriega, os dirigentes do Boca e do River Plate lançaram a Operação Futebol Espetáculo. “A ideia era dar um tempero brasileiro ao futebol argentino. A ação resultou na contratação de Feola e de quatro jogadores brasileiros pelo Boca: Orlando, Dino Sani, Maurinho e Almir.”

O contrato de Feola era excelente para a época: 40 mil dólares por temporada (cerca de 950 mil dólares hoje). Porém, o Boca Juniors não foi bem no campeonato, ficando em quinto lugar.

As escolas de formação de jogadores da Argentina eram consideradas excelentes. Ao voltar para o Brasil, Feola “idealizou um projeto de formação de jogadores, que seriam vendidos para financiar as obras do estádio” do Morumbi. Em 1975, no ano em que morreu Feola, aos 66 anos, o São Paulo inaugurou a Escola de Futebol Vicente Ítalo Feola.

O fiasco do Brasil na Copa de 1966

Pelé e Havelange: o cartola teria “usado” o jogador | Foto: Reprodução

Feola voltou ao comando da seleção, substituindo o campeão mundial Aymoré Moreira, depois da Copa de 1962 (que o Brasil ganhou).

João Havelange, em campanha para a presidência da Fifa, estava mais interessado em “política” do que em futebol. Feola convocou 44 jogadores com o objetivo de montar um time de 22. Deu-se uma guerra. Titular mesmo só Pelé, a estrela da seleção e uma espécie de cabo eleitoral de Havelange.

Entrevistado por Maurício Noriega, Djalma Santos assinala que, na Copa de 1966, “Feola já não tinha mais o comando da seleção. (…) Foi o Havelange quem comandou aquela seleção, ele tirou a força do Carlos Nascimento, do Feola e dos outros componentes da comissão técnica. Dizem que o Brasil perdeu aquela Copa porque Pelé estava machucado. Não foi nada disso, o Brasil perdeu para o próprio Brasil”.

O meia Lima analisou a crise: “Feola era um excelente treinador, mas não se entendeu com o restante da comissão técnica e quem perdeu foi a seleção”. Foram convocados, entre outros, Bellini, Djalma Santos, Garrincha, Gilmar, Zito, Pelé, Tostão e Jairzinho.

“Em apenas três jogos na Copa da Inglaterra, o Brasil utilizou 22 jogadores diferentes. Venceu a Bulgária por 2 a 0 na estreia, mas Pelé foi criminosamente caçado. O Rei não pôde entrar em campo contra a Hungria, e o Brasil perdeu por 3 a 1. No terceiro jogo, o Brasil enfrentou um grande time de Portugal, comandado pelo moçambicano Eusébio, o ‘Pantera Negra. O time português, dirigido pelo brasileiro Otto Glória, era bom de bola e de pancada. Pelé que o diga, já que apanhou mais do que contra os búlgaros. O Brasil perdeu por 3 a 1, se despediu da Copa da Inglaterra, e Vicente Feola disse adeus à seleção brasileira”, escreve Maurício Noriega. Seu saldo na seleção: 54 vitórias, 12 empates e oito derrotas em 74 jogos.