Euler de França Belém
Euler de França Belém

Presidente da Innovation Media sugere que jornal passe a vender jornalismo e pare de vender anúncio

A crise atual é mais do negócio jornalismo, que não sabe como ampliar sua receita, do que do jornalismo em si

O jornalismo vai bem, obrigado? De fato, o jornalismo de qualidade, portanto crível, não vai mal (há o problema de que os jornais estão muito iguais, publicando reportagens idênticas, sobretudo sobre assuntos que rendam acesso imediato). O que está em crise é menos o jornalismo, sua qualidade, e mais as empresas de comunicação.

Agora, se há uma crise nas empresas, que estão com dificuldade de se financiarem, é natural que o jornalismo pode perder substância. Várias empresas estão demitindo profissionais gabaritados e optando por pagar salários mais baixos. Determinados veículos têm um número às vezes excessivo de estagiários — que recebem quantias irrisórias — e isto afeta, em larga medida, a qualidade da informação. Os erros são cada vez mais primários e repetitivos.

Facebook e Google não produzem jornalismo, mas aprenderam a ganhar dinheiro com jornalismo. Muito dinheiro. Recentemente, para reduzir a avalanche de críticas, o Google decidiu distribuir dinheiro para alguns jornais. É um avanço. Mas ainda não está correto. Tanto que Austrália e Nova Zelândia jogam pesado, não contra o Facebook e o Google, e sim a favor dos meios de comunicação, que não podem continuar produzindo informação, cujo custo é alto, para que outros usufruam de seu trabalho — e sem pagar nada.

Jornais, revistas e emissoras de televisão, para sobreviver, terão de se inspirar no modelo do Facebook e do Google. De alguma forma, terão de se tornar uma espécie de “sócios” das gigantes transnacionais de origem americana.

O Portal Imprensa publicou uma reportagem, “Novo modelo de financiamento do jornalismo deve permitir independência editorial, afirma professor Mário Messagi”, assinada por Deborah Freire, que vale a pena ser comentada.

O texto começa por perceber que há no Brasil, e na América Latina, uma relação promíscua entre meios de comunicação e governos. Se o governo é o principal financiador — às vezes, quase único —, é óbvio que o gestor do momento vai tentar, por vezes vai conseguir, interferir na edição dos jornais. Vai pedir para retirar reportagens, para não fazê-las e, até, para que se façam matérias positivas. Na periferia do sistema capitalista brasileiro, em vários Estados, há secretários de comunicação que atuam como verdadeiros editores dos jornais, com consentimento dos proprietários. Não é um fenômeno do Estado “A” ou do Estado “B”. É um fenômeno generalizado — que ocorre em menor escala em grandes jornais e revistas (observe-se que no livro “Notícias do Planalto”, o jornalista Mario Sergio Conti relata o caso de uma reportagem que tentaram plantar na revista “Veja”, mas não conseguiram. Mas, para sua surpresa, a matéria saiu na revista “Exame”, na época ambas do Grupo Abril).

Há pouco, li uma reportagem, publicada num jornal de um Estado vizinho, tão governista que não deve ter agradado nem mesmo ao governo. Editores e proprietários não devem subestimar a inteligência dos leitores. Ninguém engana ninguém, mas a imagem de um jornal começa a ruir aos poucos. Depois de desgastada, será muito difícil, senão impossível, recompô-la. Quem entrega sua linha editorial ao poder o faz por prazer? Não. Em geral, é para evitar a debacle financeira. É mais realismo e pragmatismo do que malandragem.

O professor Mário Messagi Júnior, do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Paraná, está fazendo uma pesquisa, sob o título de “Liberdade de informação jornalística na percepção dos jornalistas”. “O jornalismo passa por momento muito aflitivo, temos uma crise no modelo de negócio, já que a publicidade está indo para outros caminhos, uma crise do papel como um todo, porque as pessoas consomem hoje menos informações através do papel, e uma crise do modelo de televisão tradicional, dessa estruturada em grade, que exige que você espere a programação”, sublinha.

Mário Messagi frisa que a internet abriu espaço para as empresas se conectarem diretamente com os consumidores, “retirando do jornalismo o monopólio das estruturas para massificar um produto”. O professor ressalva que há um aspecto positivo, no registro do portal: “A desvinculação entre publicidade e imprensa tem o benefício de libertar o jornalismo de interesses comerciais”.

O mestre sugere que fontes de financiamento alternativas — quais, não sabe dizer — “devem ser buscadas” desde que permitam “a independência das reportagens e a manutenção da linha editorial do veículo”. “Essa é a pergunta de 1 milhão de dólares: ‘Como descobrir o próximo modelo de financiamento que permita um jornalismo mais autônomo em relação às fontes e não dependente delas?”

Como se sabe, fontes alternativas não surgem de repente, não caem do céu. Portanto, mencioná-las, sem apontar caminhos, soa como retórica. De fato, o “New York Times”, para citar um exemplo, está se amparando nas assinaturas. Mas nos Estados Unidos, como em quaisquer outros países, o sistema de assinatura não tem como bancar toda a estrutura de um grande jornal. É preciso associá-lo à publicidade.

O diretor do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, Rasmus Nielsen, da Universidade de Oxford, afirma que jornais de médio porte têm sido bem-sucedidos ao valorizar o jornalismo de alta qualidade, o que atrai mais assinantes pagos. O mestre não menciona, mas na Nova Zelândia os leitores decidiram apoiar um jornal que optou, há pouco, por deixar o Facebook, valorizando seu material exclusivo. Outra saída é impedir que o Google indexe suas reportagens.

O presidente da Innovation Media, Juan Señor, sublinha que há um “reconhecimento global” de que “o jornalismo independente é valioso e deve ser pago”. Ele sugere que, no lugar de vender anúncios, os jornais têm de vender jornalismo. Ele propõe que é preciso investir na qualificação da redação. Porque o leitor só vai comprar informação de qualidade.

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