Euler de França Belém
Euler de França Belém

Prêmio Nobel da Paz para jornalistas é uma vitória da liberdade de expressão

Maria Ressa e Dmitri Muratov fazem jornalismo de qualidade em circunstâncias muito difíceis, correndo risco de serem assassinados

A Rússia é uma democradura, ou uma ditadura que se disfarça de democracia. Um simulacro de democracia.

Há eleições, mas só há um vencedor, Vladimir Putin, que às vezes é presidente e às vezes é primeiro-ministro. Há opositores que, se considerados “fortes” pela sociedade, não podem disputar os pleitos. Comumente, são presos, envenenados e, até, mortos.

Putin é um mix de czar e comissário red. É um Stálin mignon, quase tão cruel quando seu inspirador. Jornalistas, políticos e empresários que o desagradam podem ser presos ou assassinados. O sistema que dirige é medularmente corrupto.

O jornal o “Novaya Gazeta” (“Nova Gazeta”), financiado inicialmente pelo ex-secretário-geral da União Soviética Mikhail Gorbachev (usou o dinheiro do Prêmio Nobel da Paz), publica denúncias contra o governo ditatorial, violento e corrupto de Putin. O resultado é que seis jornalistas de sua redação foram assassinados — entre eles Yuri Shchekochikhin, Anna Politkovkaya (o caso mais comentado), Anastasia Boburova e Natalia Estemirova (colaboradora do jornal).

Numa floresta, o procurador-geral da Rússia, Aleksandr Bastrykin, ameaçou o secretário-executivo da “Novaya Gazeta”. Rindo, ainda teve o desplante de dizer que seria o responsável pela investigação de sua morte. Ousado, o editor-chefe, Dmitri Sergey Muratov, publicou a história — que escandalizou a Rússia.

Maria Ressa e Dmitri Muratov: defensores da liberdade de expressão | Foto: Reprodução

Maria Ressa, depois de trabalhar durante anos na CNN, decidiu editar o “Rappler”, um jornal digital.

Intimorata, Maria Ressa, de 59 anos, desafia o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, um político cujo governo adotou um sistema violento para combater o tráfico e o uso de drogas. O que parecia positivo para aqueles que são contrários aos de uso de drogas acabou por se tornar uma guerra em que inocentes são massacrados pelas forças policiais e militares controladas por Duterte.

Há riscos, mas Maria Ressa, ao não recuar, acabou chamando atenção do mundo para a violência do governo de Duterte. As reportagens do Rappler desmentem, com frequência, as campanhas de desinformação da gestão do filipino.

Dado o trabalho em defesa da liberdade de expressão, Maria Ressa e Dmitri Muratov ganharam o Prêmio Nobel da Paz de 2021.

A entidade responsável pelo Nobel disse: “[Os premiados] são representantes de todos os jornalistas que defendem este ideal [a liberdade de expressão, uma condição prévia para a democracia e para uma paz duradoura] em um mundo em que a democracia e a liberdade de imprensa enfrentam condições cada vez mais adversas”.

A academia sueca frisou que “Ressa usa a liberdade de expressão para expor o abuso de poder, o uso da violência e o crescente autoritarismo em seu país natal, as Filipinas”. Ao saber que havia ganhado o prêmio, Ressa disse: “Desde 2016 eu digo que estamos lutando pelos fatos.Quando vivemos em um mundo onde os fatos são discutíveis, onde o maior distribuidor de notícias do mundo prioriza  disseminação de mentiras misturadas com raiva e ódio, e os espalha mais rápido e mais longe do que os fatos, então o jornalismo se torna ativismo”.

A história de Ressa, jornalista há mais de 30 anos, está contada no documentário “Mil Cortes” (“A Thousand Cuts”), da diretora Ramona S.Diaz.

Dmitri Muratov tem 59 anos. No começo da década de 1990, o jornalista, associado a mais 50 colegas, decidiu publicar o jornal “Novaya Gazeta”, que, dada sua pegada crítica, rapidamente se tornou uma referência de bom jornalismo. Deve ser uma das primeiras leituras diárias de Putin e seu séquito, que, no jornal crítico, podem encontrar um retrato mais fidedigno do que é a verdadeira Rússia.

Cínico, Putin mandou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, parabenizar Dmitri Muratov por sua “valentia e talento” e por “trabalhar sem parar de seguir seus ideais”. O governo russo teria coragem de matar um Nobel da Paz? Talvez não, pois a repercussão seria muito negativa. Mas a máquina de matar do ex-homem do KGB — hoje, FSB — permanece ativa. Portanto, o risco sempre existe.

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